Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

08.04.20

Análise de umas circunstâncias


Sarin

Não costumo ver televisão. Mas, estando confinada numa casa que não a minha-minha, as minhas circunstâncias têm-me deixado na perigosa proximidade de tais aparelhos.

Não que receie que estes me façam mal, pois que no Poltergeist o que me assustou foi o olhar daquela senhora baixinha e no The Ring chateou-me pensar na quantidade de tapetes que terão estragado em cada filmagem. Não, o problema não está, definitivamente, no aparelho. Mas o conteúdo é normalmente pernicioso e os meus hábitos de higiene, além da lavagem frequente das mãos, da etiqueta respiratória e de outros que não vêm ao caso, incluem a desinfestação televisiva.

Enfim, se Ortega y Gasset era ele e as suas circunstâncias, no caso as minhas não serão apenas minhas mas das gentes que por aqui habitam, e de quando em vez lá calha ter um aparelho ligado nas imediações.

Mas ontem não, ontem foi uma estreia: fui e coloquei-me propositadamente em frente a um. Assim enorme, como convém à miopia. E sentei-me. Sentei-me em frente a um televisor enorme para ouvir uma pessoa. Bem sei, é falta de hábito, e no final do estado de emergência talvez eu esteja mais bem treinada; de momento, é o que há.

Quando me sentei, olhei para José Miguel Júdice e reparei nas prateleiras que o ladeavam - uma pessoa tem de olhar para algum lado e é falta de educação olhar fixamente quem connosco fala, por isso não me macem! Recordei o que havia lido algures sobre os livros que emolduram os comentadores nas suas casas, sorri e tive saudades do meu cadeirão, mas depressa me passaram - porque me havia sentado para ouvir, e coloquei toda a minha atenção nisso mesmo.

As suas circunstâncias não me interessavam, mas a sua análise da situação, sim. Apresentou-se satisfeito por já termos passado o pico que foi planalto (teremos mesmo?) e mostrou gráficos vários - com a falta de hábito que tenho, fui-lhe dizendo "Mas, permita-me que lhe aponte que..." e já estava no gráfico seguinte. Ainda bem que sentada, ou ter-me-ia sentido afogar no volume debitado. E quando, optimista, falava sobre o pais voltar a funcionar e as pessoas saírem à rua, recuperando a normalidade, em bem tentei um "Então, mas..." e ele, impávido, mal se calou até a Clara de Sousa lhe desejar boa noite... nem sei se chegou a olhar na minha direcção.

Nestas circunstâncias, vejo-me obrigada a escrever. Não para que me leia pois que não o fará, mas porque se não desabafo ainda fico engasgada - e nesta altura não convém.

No meio de tantos números apresentados, incluindo a comparação entre Portugal e Espanha de doentes covid-19 por 1 Milhão de Habitantes, não apresentou um dado para mim muito importante: tendo as 345 mortes sido registadas em 22 dias (os óbitos não iniciaram a 1 de Março, como disse, mas a 16), qual a proporcionalidade dos outros óbitos para prazo equivalente. Os 3000 da gripe em 2019, que apresentou, e pego nestes porque memorizados, ocorreram em 365 dias, o que em 22 dias significa cerca de 181 óbitos. Perto de metade dos que temos para a covid-19.

Por outro lado, e tendo falado das outras doenças que continuam a existir, não referiu que provavelmente continuaremos a ter os tais 3000 óbitos por gripe assim como os outros pelos outros motivos - porque este é um número de óbitos adicional e inesperado. Bem sei, tentou passar a mensagem de que a covid-19 será apenas um catalisador para os outros óbitos, que destes 345 falecidos muitos serão os que morrem com covid-19 e não de covid-19. Mas mesmo que assim seja, o que duvido, estaremos perante uma antecipação dos óbitos e nada indica que não haja outras antecipações - por se tratar, exactamente, de um catalisador. Parece-me ser demasiado optimismo, até porque os estudos posteriores a pandemias têm demonstrado que os óbitos são geralmente muito superiores aos dados oficiais. Desejo profundamente que desta vez seja o inverso.

O discurso esperançoso continuou, o apelo à retoma da normalidade centrando-se não apenas na economia mas, principalmente, na sociedade, na sanidade mental dos indivíduos - e na saúde física, "para que os outros doentes possam ser assistidos e se possa evitar uma crise sanitária" (cito de memória). E, sempre optimista, apontava as precauções de Marcelo ao dizer que a normalidade não se retomará 'não antes de final de Abril' e a aposta de Costa em reabrir as escolas a 4 de Maio, tomando-os como sinais claros de que a normalidade está já ali no fim do mês.

Não o entendi como leviano, longe disso, mas sinto que na análise lhe faltou outro dado importante: falou muito dos óbitos e não referiu os infectados. Pareceu não dar importância aos constrangimentos nos serviços de saúde, que resultam não dos óbitos mas dos internamentos. 1180 internados com covid-19, 271 deles nos cuidados intensivos. Estes 1180 é que consomem os recursos e exaurem o pessoal - que, denodadamente, tenta evitar que o número de óbitos seja maior. Porque, como JMJ referiu várias vezes, as outras doenças continuam a existir - mesmo que coexistam num paciente com covid-19 e esta não passe de um acelerador. O que não parece ser o caso.

Penso ser insensato falar de voltar à normalidade. O país não pode parar, defendo-o desde o primeiro momento - mas não podemos regressar ao mesmo, não podemos voltar às filas, às festas, ao fado. Somos latinos, abraçamos. E ficamos ao sol de qualquer palavra com conhecidos e desconhecidos. Não damos as mãos, mas quase. E beijamo-nos na despedida. Encostamo-nos nos transportes públicos, verdadeiras sardinhas em lata onde os há, encostamos-nos nas filas da caixa do supermercado e até nas filas do banco e do médico nos tocamos, entre tímidos toques no ombro e verdadeiras festas de reencontro. E, no meio disto, continuamos a deixar a tampa da sanita levantada e a não ter lavatório nos modernos sanitários públicos nem sabão em cada lavatório. Continuamos a não lavar as mãos na normalidade. Lamento se, em vez de optimista, estou receosa desta normalidade tão já ali. Quero o país de volta, mas quero uma nova realidade - e não falo dos arco-íris nem do pote de ouro no fim de cada um.

 

Tenho para mim que isto é da falta de hábito em estar sentada frente ao televisor - ainda não me distraio o suficiente para ouvir menos. Oxalá.

 

Foi, na sardinhasemlata, a vez primeira. Segundo vêem sou a terceira, aparecendo a uma quarta... e deixo-vos com a 5ª.

Façam como eu: sentem-se para ouvir. E vejam também.

Vídeo de DoodleyChaos

07.04.20

Das Tolerâncias de Ponto até à Pirataria...


Robinson Kanes

Robinson_kanes.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

O céu é de todos e este mundo de quem mais apanha.

Raúl Brandão, in " A Farsa"

 

Com o desgaste provocado pelo vírus e pela apatia cerebral provocada pela Netflix, sobretudo na cabeça dos portugueses, começamos a regressar à normalidade e aos atropelos habituais de um certo Estado Democrático lá para os confins da Ibéria.

 

Começo pelas tolerâncias de ponto, esse tópico que sempre foi uma regalia para uns e uma miragem para outros. Pergunto-me se faz sentido aplicar essa mesma tolerância neste momento, sobretudo quando muitos funcionários públicos estão em regime de home-office (estranho que finalmente agora se utilize a expressão tele-trabalho), sem o layoff e com emprego garantido. "Entendo" que uma das preocupações dos partidos à esquerda seja já o congelamento dos salários destes funcionários, mas não é motivo para tolerâncias, sobretudo para permitirem que nas datas em que não se pode circular entre concelhos, muitos destes funcionários se possam antecipar e assim dar a volta às próprias emanações do Executivo. E dois dias? Além de ser uma falta de respeito para os demais funcionários públicos que ficarão a trabalhar é também um desrespeito aos demais portugueses que perderam o emprego, que perderão o emprego e que, quer queiramos quer não, com tudo o que isso possa ter de bom e de mau, continuem a suportar a máquina pública - que em muitas áreas também devolve o investimento.

 

É fácil ouvir os arautos da política, de uma certa dependência pública e até de uma certa onda da comunicação social (e até desportiva e cultural) opinarem e darem conselhos, partilharem os seus exemplos... Sobretudo porque não sofreram as restrições que muitos estarão a sofrer. O "fique em casa" é muito interessante quando o meu ordenado não sofre alterações e o meu trabalho não depende dos resultados nem da produção da minha organização... Mas alargar uma tolerância de ponto a este extremo, só mesmo ao nível da legislação que protege os funcionários públicos do despedimento (mesmo quando praticam crimes) e até estabelece um salário mínimo acima dos demais mortais...

 

A união dos portugueses não se faz assim, e senhor Presidente e senhor Primeiro-Ministro, cuidado com a mola...

 

Finalmente, fiquei sensibilizado com a união da imprensa em geral, em relação à pirataria. Ainda percebo aqueles leem ou veem muitos media nacionais, já pagar por isso e até praticar pirataria, é algo que me coloca a pensar como é que se arrisca tanto por tão pouco. Sugiro a este grupo que combate a pirataria e sempre que vê os seus podres a descoberto invoca a sagrada e incostestável liberdade de imprensa (e de inventar) que se debata acerca das fake news, da liberdade de escrita de muitos que tentam desempenhar a função de jornalistas (já poucos...) e das pressões que são exercidas para que... Ainda no dia 02 de Abril, uma das revistas cuja directora mais se envolveu no combate à pirataria, publicava com o seguinte título "Covid-19: as imagens impressionantes das filas nos supermercados em Lisboa", uma reportagem com algumas fotografias que só podem ser de alguém que nunca havia saído do Rendo e veio a Lisboa pela primeira vez. Só de alguém que nunca saiu à rua em Lisboa ou até em qualquer cidade deste país!

 

E enquanto fiquei a pensar porque é que me lembrei de pirataria e de determinadas decisões políticas em simultâneo, o vírus começa a dar sinais de abrandamento, no entanto, existem outras viroses que já se tornaram doenças crónicas.

 

P.S.: neste mesmo dia, em 1994 tinha início uma data sangrenta da nossa História... O genocídio no Ruanda.

06.04.20

Um Cardume De Sardinhas A Navegar Sapo Adentro


Filipe Vaz Correia

 

Ora aqui vai...

O primeiro post do Sardinhas Em Lata.

Há muito que desejava poder juntar no mesmo projecto pessoas que gosto, respeito e aprendi a admirar, seja pela força da sua escrita, pela determinação da opinião, pelo humor irreverente ou pela simples vontade de partilhar.

Nestes tempos de medos e receios nada melhor do que avançar, destemidamente juntar esforços e criar, nadar mar adentro, em busca de novos mundos, novas vivências, novos sonhos por percorrer.

O Sardinhas Em Lata nasceu assim, desse entrelaçado querer de um conjunto de pessoas que resolveram dizer sim, de olhos postos no futuro.

O Mundo Sapo deu-me imenso, essa ligação com pessoas que jamais conhecera, trocando sentimentos, palavras e emoções com outros que simplesmente através da força de suas ideias me acabariam por tocar.

O Triptofano, a Sarin, o Robinson Kanes e o Jaime Bessa embarcaram comigo nesta desmedida aventura, tão azul como o mais cristalino dos mares, tão imenso como este espaço que nos acolhe e serve de abrigo.

O que esta Sardinha irá ter para oferecer serão opiniões e trocadilhos, risos e algumas lágrimas, livres e sinceras trocas de ideias onde todos, mas mesmo todos, estarão convidados a entrar...

Sem medo de nadar, por entre, este cardume de cinco Sardinhas, disponíveis para abraçar todo um Sapo cheio de vida.

E assim, soletradamente, zarpamos cheios de energia, capazes de mergulhar por todos os temas.

Quanto a mim...

Até Segunda-feira, se Deus quiser.

Até lá não irão faltar "sardinhadas" para ler.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

Pág. 5/5