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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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03.07.20

Racismo vs anti-racismo, qual o melhor?


JB

"Os maiores avanços na civilização são processos nos quais as sociedades em que eles ocorrem ficam arruinadas. "
( Alfred North Whitehead )

 

Racismo vs anti racismo, qual o melhor?

Estranha a pergunta caro leitor(a)?

É bom sinal, começo por dizer isso.
Em conversas recentes, quer on-line com outros viciados na PlayStation, Facebook, telemóvel e até mesmo neste blog, tenho vindo a assistir àquilo que considero um fenómeno curioso.

Pessoas, a quem reconheço qualidades intelectuais e humanas, terem comportamentos e frases que considero pouco inteligentes e desprovidas de empatia. Provoca-me uma dissonância cognitiva que me incomoda e gostaria de perceber melhor.

Graças à ideia peregrina do líder de um partido (que entrou ontem oficialmente para a extrema-direita europeia) de organizar uma manifestação, a dizer 'Portugal não é racista'; esse meu problema de dissonância cognitiva relativamente à algumas pessoas está a voltar em força.

Senão vejamos: fiz há uns dias um post no FB com um divertido cartoon que passo a ilustrar em baixo:

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*

Isto foi o mote para comentários muito interessantes, destaco dois. Um dizia qualquer coisa como, 'o Ventura até diz verdades, a Manif é parva mas achas mesmo que há racismo institucional?'

Esta pessoa, ainda não é bem aquela de que falei no início do post. É alguém, que fazendo parte de um meio onde as Venturettes abundam, onde provavelmente muitos serão grandes amigos, quer muito compreender e evitar radicalismos. Respondi dizendo que as 'verdades' são apenas populismo e que racismo institucional não existe, porque não existe nenhuma lei explicitamente racista. Mas que a pergunta estava mal posta, por isso mesmo.

Nesta altura, uma antiga colega minha da faculdade, de origem africana, resolveu participar na conversa.

Agora está a trabalhar em Inglaterra, mas esteve a trabalhar cá em Portugal muito tempo. Estudava muito e era muito trabalhadora, uma pessoa muito simpática e de sorriso fácil. Uma mais valia em qualquer sala de aula ou local de trabalho. Negra escura, elegante , alta, com uns expressivos olhos castanhos e muito muito tímida. Trabalhou numa charcutaria, nas limpezas lá atrás. Se a punham na caixa, porque era trabalhadora e honesta, alguns clientes diziam "a caixa está muito escura" e pediam para a tirar de lá, e tiravam-na. Às vezes, pediam um "frango clarinho... há uns que parece que vêm de Àfrica", e inúmeras situações humilhantes, desumanas e inaceitáveis. Um dia respondeu a um cliente, o cliente fez queixa, ninguém a defendeu e foi repreendida à frente do cliente e colegas pelo comportamento inaceitável e disruptivo. Na faculdade, ia a casa de uma colega fazer a tese, viu que a colega tinha um livro com marcações nas páginas todas com a cruz suástica. A colega disse-lhe que admirava muito o Hitler e era de extrema-direita, que os "pretos são uns animais" mas que ela não era como eles: ela era "branca por dentro" e por isso eram amigas. "Porque é que me deixas dormir em tua casa então?" perguntou-lhe uma vez, "porque vais dormir no quarto de hóspedes e esse eu não uso". Ninguém que não passe por isto pode sequer começar a imaginar os efeitos terríveis que isto provoca. Nos medos, na auto-estima, nos pesadelos, na vida. Isto são só alguns exemplos, ela teria muitos mais para contar. Há muitos mais como ela, ao nosso lado, todos os dias.

Alguém duvida que isto é assim? Alguém tem coragem de se chegar à frente da minha ex-colega e dizer, "Estás enganada, isso é impressão tua, tu queres é viver à conta de subsídios e inventaste isso tudo, Portugal não é racista". Se tiver coragem, desapareça. É uma pessoa sem empatia, sem noção da realidade e quanto a mim está cá a mais.

Ela agradeceu-me ter falado nisso (ela agradeceu-me!!). Agradeci de volta, todos os que leram aquele post não ficaram indiferentes. O interlocutor inicial compreendeu o que ela quis dizer, curvou-se perante a dura realidade que nunca teve que enfrentar. Eu fiz o mesmo. Ela disse que era bom eu falar nisso, que há poucos que falam. Cá estou eu outra vez então. Declarei-me a mim próprio como inimigo mortal desses que se vão queixar a dizer "a caixa está muito escura" e derivados.
Vou dar umas dicas para reconhecer quem aprecia este tipo de gente.

Hoje em dia já existe alguma noção que ser publicamente racista é uma coisa má. Então a maioria das pessoas que o é, disfarça. Uns sabem que são mas disfarçam, outros disfarçam tanto que até acham que não são. Mas há certas frases que os denunciam.

"Eles ainda são mais racistas que nós" - Irrelevante, a questão não é essa: um ladrão não vai para tribunal defender-se a dizer 'mas o Tozé roubou mais que eu' (só se quiser tramar o Tozé, que é precisamente o que os racistas querem). Frase mais dita por racistas no mundo inteiro, esta é infalível.

Ver o video do George Floyd e dizer: "Tem que se perceber melhor, a mim não me pareceu racismo" - Neste não consigo explicar sem ocupar muitas linhas. Se alguém quiser explico nos comentários, para já fica um 'entenda quem puder'.

"Relativamente ao racismo e ao anti-racismo gosto de ter uma posição imparcial" - A sério? Parece mais ponderado, é? E em relação à pedofilia por exemplo, também é ponderado? Eu sou anti-racismo e penso que todos deveriam ser. Quem não se declara como tal, é porque é, nem que seja um bocadinho.

"Achas bem que se incendeiem esquadras então " - Obviamente que não, mas tenho empatia e compreendo a frustração que leva a tais actos. Se cá em Portugal, um país que 'não é racista' a vida é assim, nos Estados Unidos será muito pior. Claro que compreendo, quem não? Acho é que isso não deve tirar o foco do problema real, que os racistas querem ignorar.

"Estás contra os polícias então" - Está é só estúpida, mas eu ouvi isto, é só para terem noção do que anda aí.


Não é ser 'radical' nem 'extremista', ser radicalmente extremista contra o racismo. Já chegamos a um ponto na sociedade, recentemente só, em que finalmente não é socialmente aceitável ser racista. Parece que estamos a chegar agora a um ponto em que é politicamente aceitável ser um racista dissimulado. Sendo que os sinais são óbvios e temos que fingir ignorá-los.

Vamos parar de fingir?

 

JB


PS- (Vi nas notícias, já depois de ter escrito o post que quatro polícias foram agredidos na Amadora, antecipando qualquer acusação descabida para tentar desvalorizar a importância do que falo, declaro: Desconheço os contornos do caso, mas atacar polícias é inaceitável, os culpados caso tenham nacionalidade portuguesa, devem ser julgados e condenados. Caso não tenham, devem ser deportados. Sejam de que país forem.)

* imagem retirada do Facebook a 30 de junho de autoria desconhecida.

01.07.20

Ó Menina Sardinha


ó menina

A mulher e a sardinha, quer-se pequenina.
Provérbio Popular

Ó Menina, a mulher e a sardinha quer-se pequenina, sempre ouvi dizer. Sempre mo disseram com receio de que me sentisse, de alguma forma, diminuída pelo tamanho. Mal sabiam que nada ou pouco me importava com isso. Um dia havia de chegar onde todas as sardinhas do cardume chegam, nada me poderia impedir.
Esse dia chegou! Eis-me aqui, na melhor lata de sardinhas da blogosfera portuguesa.

A querida Sarin, encarregou-me de ocupar o seu espacinho durante um período de ausência que esperamos curto.


Trago para este blogue a mesma disposição, liberdade e espírito crítico que uso no meu blogue pessoal mantendo uma composição eclética de temas. Sem expectativas ou reservas partilharei convosco algumas notas esperando que possam servir de mote a alegres conversas na caixa de comentários.

Prometo, não deixar que isto de pertencer à lata das estrelas me suba à cabeça.

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