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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

sardinhaSemlata

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31.10.20

Caldeirada Com Todos... “Malik”


sardinhaSemlata

 

 

 

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Bom senso

 

É preciso bom senso

e sensibilidade

para dar notícias

de desgraça feitas.

 

Não é solução

um mantra tremido

em medo tecido.

 

Ruas desertas

certezas incertas

tempo adiado,

remendos de esperança

num mundo em mudança

já meio infectado.

 

Valores alterados

seres baralhados

pânico instalado,

vale a quarentena

protecção pequena

de um povo do fado.

 

 

Malik

 

 

 

 

 

 

 

30.10.20

2 filhos


JB

  Era uma família complicada. 
  Quando começaram o seu caminho tudo parecia perfeito e promissor, só que o tempo passa e as coisas mudam.

 Hoje era terrível. Insuportável mesmo. Os pais não se podiam ver e atacavam-se constantemente,. Tanto a mãe como o pai iam diariamente fazer queixas um do outro aos filhos. A filha tomava sempre o partido do pai e o filho estava sempre do lado da mãe. Ambos assistiam incrédulos e acabavam por imitar os comportamentos. Os dois irmãos nunca se deram muito bem, embirravam constantemente e eram completamente diferentes. O rapaz era mais  barulhento e adorava brincar aos cowboys, a filha era uma artista e detestava armas. Também discutiam todos os dias e agora que eram mais velhos chegavam mesmo a agredir-se.  Os pais, os grandes responsáveis por tudo, nada podiam fazer para ajudar. 
  A mãe era loira e muito vaidosa, demorava muito tempo a arranjar-se e estava sempre a ver televisão. Gritava sozinha para a televisão e sempre que havia um problema entre os manos a mãe dava razão ao filho, dizia que ele estava completamente certo e que a irmã era uma mentirosa. O pai tinha preferência pela filha, no entanto não lhe falava mal do irmão. Tentava arranjar pontos de encontro entre os dois. É claro para mim enquanto narrador que o pai tinha um interesse genuíno que os filhos se entendessem, mesmo que o entendimento dos pais não fosse possível, igualmente claro é que a mãe se estava nas tintas para isso, até parecia apreciar as discussões e o caos.
 A situação chegou a um ponto em que teria que haver um divórcio.

  Finalmente todos estavam de acordo: Iriam divorciar-se. Mãe e pai cada um para seu lado e os filhos iriam ficar com um deles. A guarda partilhada não seria uma hipótese, os filhos iriam permanecer juntos e teriam que escolher em breve. 
 Quem escolher? A mãe loira que vê televisão e alimenta os ódios do filho para com a irmã? Ou o pai grisalho que - apesar de preferir claramente a filha - tenta que os filhos se dêem bem?

 Bem, se substituirmos o filho pelos republicanos, a filha pelos democratas, a mãe loira pelo Trump e o pai pelo Biden, só temos que esperar até quarta feira (se tudo correr bem) para saber.

 

 Espero que fiquem entregues ao pai!

 

 

JB

 

 

29.10.20

O que é ter Saúde?


Triptofano!

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde não apenas como a ausência de doença, mas como a situação de perfeito bem-estar físico, mental e social.

Assim à primeira vista esta definição de saúde até poderia ser bastante aceitável, porque falamos da ausência de doença, já que se estamos doentes não temos saúde certo?, e abordamos o indivíduo como um ser multidimensional, reconhecendo que tanto a parte física, como a mental e mesmo a social são ingredientes do mesmo bolo que é o ser-se saudável.

Só que na realidade, esta definição da OMS que já é velhinha o suficiente para ir ao Centro de Saúde e levar a vacina contra a gripe de borla, está completamente ultrapassada e não deve ser utilizada para definir o que é saúde, correndo-se o risco de se entrar numa daquelas falácias gigantescas.

Primeiro que tudo, como diriam os Ban, é surrealizar por aí quando se afirma que a saúde é a situação de perfeito bem-estar físico, mental e social.

Perfeito é uma palavra muito forte que faz pensar que dessa forma não há ninguém saudável neste mundo, porque mesmo que uma pessoa esteja fisicamente e mentalmente a 100% pode ter sempre um vizinho irritante que decida dançar sapateado às cinco da manhã. 

Em segundo, o facto de se considerar que uma pessoa que tenha uma doença não pode ter saúde. Isto deve-se muito ao binómio saúde/doença e à visão biomédica da coisa, que uma pessoa se tem A não pode ter B, e se tem B então é porque não tem A. Ora certamente que conhecem pessoas com patologias crónicas que se sentem saudáveis. E pessoas que estão frescas como uma alface acabada de ser borrifada e sentem-se doentes.

O conceito de saúde é algo extremamente subjectivo que varia de pessoa para pessoa, não podendo ser definido por meia dúzia de conceitos. A saúde tem implicações culturais, sociais, ambientais, e mais importante que tudo, pessoais, sendo que ter saúde é vulgarmente visto de uma perspectiva profissional, quando na realidade deve ser encarada de uma forma muito mais pessoal.

Algo que devemos ter em conta quando falamos de saúde e doença é que não estamos a referir-nos a dois pólos completamente opostos, onde uma pessoa ou está doente ou está saudável. Estamos a abordar sim uma linha, um continuum, onde a pessoa flui de um lado para o outro, como aqueles barquinhos dentro das canetas promocionais, que se uma pessoa vira para um lado ele vai para o outro!

E agora vocês perguntam, então o objectivo é estarmos em equilíbrio não é?

A resposta é não, por mais estranho que pareça neste continuum nós estamos sempre em desequilíbrio, não estamos estagnados qual concorrente do Big Brother que só foi lá para se queixar que não há Coca-Cola, estamos sempre a ser afectados pelos stressores da vida que nos querem mandar para o lado da doença e nós, quais pessoas lutadoras, arranjamos mecanismos para lidar com as pedras que a vida nos dá e construímos um spa com massagistas tailandeses, aproximando-nos outra vez do lado da saúde!

Pensando nisto, o que é para vocês então ter saúde?

28.10.20

Crónica feminina


Sarin

Segunda-feira soube-se que no dia 2 de Outubro encontraram um recém-nascido abandonado no Aeroporto Internacional de Hamad, em Doha, no Catar. Para detectar a mãe, as mulheres presentes em pelo menos dez aviões foram sujeitas a exames ginecológicos invasivos. Sem ordem judicial, assim, apenas porque as autoridades aeroportuárias entenderam.

No Catar são proibidas as relações sexuais fora do casamento, e uma mulher solteira grávida, ainda que vítima de violação, pode ser julgada e condenada por tal crime.

As leis no Catar são as leis do Catar, e apenas podemos escolher entre ir ao Catar ou não ir ao Catar, denunciar ou calar. Assim como fez a FIFA ao escolher tal país para organizar o Mundial de Futebol 2022.

 

Segunda-Feira à noite, Catarina Martins foi entrevistada na TVI. Alexandre Guerreiro avaliou no Twitter a sua prestação, baseando-se em seis critérios - cinco estéticos, incluindo "buço" e "unhas", e um de conteúdo, "mensagem". Alexandre Guerreiro, comentador TVI, autor de pérolas como << Quando tínhamos a infelicidade de nos dirigirmos à nossa professora primária por "você", ela puxava instintivamente a culatra atrás, disparava uma bofetada e dizia "você é lá na tenda dos ciganos".>> a propósito de um indivíduo ter tratado um juiz por "você".

Todo um tratado de boas maneiras, este Alexandre Guerreiro, e certamente terá um capítulo sobre como dar uma no cravo e outra na ferradura sem riscar a unha nem ganhar coluna.

 

Terça-Feira surgiu mais um femicídio em contexto familiar. Um casal recém-separado. Um sentimento de posse ultrajado, o direito divino do homem contrariado pela vontade de uma mulher. Um homicídio consumado e um suicídio tentado, tudo por amor. Próprio de quem assim. Talvez ao homicida calhe um juiz atento à sua condição de macho abandonado e não se perca apenas uma vida mas também mais uma dose de confiança na Justiça.

 

Terça-Feira à tarde, Jerónimo de Sousa recebe merecida ovação pela resposta dada ao pirralho mal-educado. As redes reflectem o aplauso, e eu perplexa por ler feministas abordarem a situação com referência aos testículos de Jerónimo, como se a coragem nascesse nas gónadas masculinas.

Sou injusta, talvez contemplem todas as gónadas, o azar ou a cobardia atributos apenas das mulheres de maus ovários.

 

Estamos na manhã de quarta-feira e eu de maus fígados com esta semana. Que, na verdade, quase se indistingue das outras, hoje 10 dias passados sobre a morte de outra mulher às mãos do companheiro em Portugal.

Uma semana normal.

 

Entretanto, o Orçamento de Estado não apresenta grande reforço do SNS, da Segurança Social ou da Justiça, matérias circunstancialmente tuteladas, e bem, por mulheres. E Costa surpreende-se que a Esquerda não o apoie, ao OE. A mim surpreende-me que as gentes socialistas o apoiem, mas aguardemos as Especialidades. Por falar em especialidade, gostei de Rui Rio a dizer que poderia aprovar o OE mas, por ter Costa dito não precisar do PSD, então votaria contra. Sempre um pratinho, esta sopa-da-pedra a que chamam políticos.

Ah, não se chateiem com a aparente fuga ao tema, Crónica Feminina sempre teve secção de culinária - esperavam o quê?

 

E muito mais se poderia dizer deste Outubro Rosa. Como a mulher morta na berma da estrada lá longe em Cabo Delgado, a CPLP muda e queda. Ou a que é assassinada a cada 3 horas na África do Sul, média que teima em não descer.

Infelizmente, nada do que fique por dizer perderá validade, excepto talvez os nomes das mulheres menorizadas, violentadas, assassinadas. De bom grado tudo diria para que ninguém nunca mais. Mas não funciona assim.

Façamos o que pudermos para evitar mais um caso, um qualquer pequeno caso.

E fiquem bem.

 

 

27.10.20

Uma Outra Face da Crise...


Robinson Kanes

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Créditos: Corriere della Sera (Carabinieri (foto 01) e Elena Tonon (foto 02) )

 

Tudo retorna, as coisas e as palavras andam em círculo, às vezes atravessam o mundo inteiro, em círculo, depois encontram-se, tocam-se e encerram qualquer coisa.

Sándor Márai, in "As Velas Ardem até ao Fim".

 

O outro lado da crise mostra-nos que o pânico não reside apenas nos hospitais... O outro lado da crise mostra-nos que o espaço mediático não é apenas reservado à violência ou a selfies em busca do momento viral. O outro lado da crise também nos mostra que, como era previsível, o hype do "Black Lives Matter" na sua expressão mundial já lá vai. E é nesse outro lado da crise que também encontramos a polícia "boa", a que salva vidas, demonstra grande humanidade e nem sempre tem a visibilidade desejada - os anónimos heróis que não precisam de prémios, somente de um reconhecimento de todos nós.

 

E é neste contexto que, ao ler o "Corriere della Sera", encontrei o destaque dado a uma publicação dos "Arma Dei Carabinieri" envolvidos numa ocorrência de tentativa de suicídio. A imagem fala por si... Um certo descuido dos Carabinieri também fala por si e mostra toda a Humanidade, mas também fragilidade, com que vivemos nos dias de hoje. Esta imagem fala-nos da necesssidade de ordem, da necessidade de olharmos profundamente para as consequências de um confinamento exagerado e fala-nos também da humanidade... Daqui as uns tempos saberemos o cálculo das mortes e os verdadeiros custos extra da SARS-CoV-2 e aí faremos um balanço que, eu espero, não seja tão trágico ou mais trágico que a própria pandemia.

 

E é neste caminho turtuoso que a mesma publicação, porque nem tudo o que é viral é mau, partilha a imagem do senhor Giuseppe na sua jaleca. Talvez esta imagem não venha a estar nunca numa edição do World Press Photo, não faz parte da elite dos grandes fotógrafos, mas de certo, será a imagem, ou uma das imagens, que resume o espírito de todos os pequenos empreendedores, desde os mais recentes aos mais antigos e todo o seu desalento por, sem ainda perceberem bem porquê, verem todo o trabalho e entrega de uma vida desabar. Os pagadores de impostos encostados por aqueles que recebem o valor desse investimento/trabalho. Talvez para Giuseppe, até seja a oportunidade de se retirar e muito provavelmente ir viver a vida que até agora não viveu... Talvez, também possa ser o fim da sua vida, um assumir perante o suicídio, a confissão de que a existência não vale a pena como nos diría Camus. Giuseppe poderá ser um sério candidato a estar num telhado com mais dois Carabinieri. 

 

O "andrà tutto bene" nasceu num país alegre e animado que encarou genuinamente a pandemia como algo efémero e com isso foi exemplo (e cópia barata) para tantos outros... Todavia, os italianos já chegaram à conclusão que nem tudo "va bene" e a factura humana, social e económica veio em força e com muitos juros.

 

Estas duas imagens, por sua vez, contrastaram com uma imagem também vinda de Itália, em que uma enfermeira publicou uma selfie com as marcas da utilização de máscara e viseira. E aqui, o resultado não foi tão positivo, com uma Itália cansada de heróis de redes sociais, de fotos para a exposição pessoal e acima de tudo contra uma auto-exaltação que vai passando a imagem de que só alguns estão verdadeiramente, e passo a expressão, a dar o litro com a crise, como se isso não fosse comum a tantas outras profissões e não só em períodos de crise sem esquecer o risco dos salários não entrarem na conta aquando do final do mês.

 

Nesta onda de cocktails visuais e sonoros, quiçá possamos ver Giussepe e "la Dona" do telhado, a partilharem um belo "Risoto di Radicchio" e um Prosecco. Não tenho dúvidas que o "Chef" treviggiano encantará a Dona romana , celebrando quiçá, novos tempos, uma nova esperança e um mundo mais equilibrado. O resto, e socorrendo-me de Vergílio Ferreira, o resto é desgraça e desejamos que as mesma não se veja, até porque é por isso que existem as casas de banho... E não os telhados.

 

English Version

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