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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

31.03.21

Ode a nada, ou o desastre de uma poesia mal amanhada


Sarin

não esqueci as respostas mudas

largadas quietas no sereno teclado

vibrando na espera de, fracas ou taludas,

ocuparem seu canto do espanto afastado

 

mas

morrendo certo, viveu errado

o Poeta

que mais quis à vontade do que à vida

 

- pois nem tudo vale a pena (antes valera!)

tenha a alma o tamanho que tiver.

E às Fúrias encomendo a Primavera

e o sacana que a queira defender!

 

Fiquem bem. Fiquem muito bem, e que a Estação vos não seja apeadeiro. Eu tentarei apanhar o próximo comboio. Com a Doris Day, que ia ficando para trás...

 

30.03.21

Somos tão Pequeninos...


Robinson Kanes

jo-anne-mcarthur-YmyD-gq6x1A-unsplash.jpgCréditos: Jo-Anne McArthur / Unsplash

 

 

 

Por estes dias, o caríssimo Pedro Correia observou o facto de andarmos sempre a dizer que somos pequeninos quando falamos do nosso solo. Concordo com a visão de que não somos assim tão pequenos, sobretudo se contarmos com o Atlântico. Reconheço, no entanto, que o facto de sermos mais pequenos que algumas províncias em Espanha também nos deve dar tal impressão, já para não falar que em tempos dominámos territórios como o Brasil, Angola e Moçambique...

 

Mas é inegável que continuamos muito pequeninos em tantos outros campos... Continuamos pequeninos quando renegamos (gozamos e até nos envergonhamos) as nossas tradições e a nossa etnografia - mas quando alguém transforma isso num must e até em algo vendável, eis que saímos todos à rua a criticar essa alma iluminada que nos roubou o que é tão orgulhosamente nosso! Concordo que o episódio das camisolas poveiras foi um erro, não obstante, demonstrou como somos pequenos e a reboque disso lá vamos gastar uns milhões num advogado famoso de Nova Iorque para agradar às redes sociais enquanto cortamos em apoios sociais... Devemos ter vergonha de nós! Mais de 9 milhões nem sabia o que era uma "camisola poveira"! Isso sim é que me causa revolta...

 

Somos pequeninos quando um indivíduo é multado por comer gomas na rua ou até uma "sandocha" no carro (isto é verdade, não é humor) mas nem nos damos conta de quão estupidificados estamos quando alguém que investe milhões para ser visto se ri de nós enquanto goza férias no estrangeiro! Eu também as gozo e muitos outros, a diferença é que a maioria nem do Montijo a Alcochete pode ir quanto mais deslocar-se a Badajoz para ir comprar licor de bellota. E nós aplaudimos... Como aplaudimos que uma nação se vergue a um Chefe de Estado estrangeiro com um beija-mão, nação essa que paga os delírios (e ganhos) religiosos de quem a representa.

 

Somos tão pequeninos quando não damos conta que alguém igualmente pequeno (literalmente e não no sentido metafórico), e à semelhança de uma personagem que chegou a Presidente, todos os Domingos partilha informação de Estado na televisão sem que ninguém pergunte como é que este indivíduo tem acesso a esta informação, a anuncia antes de quem o deve e além disso nem exerce cargos públicos mas sim privados, fora o facto de ser Conselheiro de Estado - gentileza do seu mestre com origens familiares para os lados de Celorico, bem perto de Fafe.

 

Mas falando em Conselho de Estado... Eis que temos um Conselheiro de Estado em Portugal que além de ter um estranho tempo de antena nos meios de comunicação (o tal acesso fácil e máquina nos media que alguém do Bloco de Esquerda em tempos afirmou existir), debita falsidades e um discurso de ódio, inclusive contra instituições nas quais depois se infiltra como assalariado. É o mesmo Conselheiro de Estado que se ri com a fome (Ucrânia?) provocada por regimes comunistas que o próprio admira - volto a relembrar que é a própria União Europeia que coloca o comunismo ao nível do nazismo, só em Portugal a equação é diferente, sendo que o Comunismo, além de ser um partido de gente boa e de paz também tem direitos que os outros não têm... Tivesse sido outro alguém e já tinham derrubado a Torre de Belém ou incendiado o Paço dos Duques em Guimarães.

 

Se dúvidas existem, analisem o comportamento destes partidos nos períodos do confinamento e comparem com as restrições que muitos de nós tivemos de sofrer. Mexam a panela e retirem as conclusões devidas. Continuamos pequenos, alegres e sorrindo em casa... Afinal nada nos falta.

 

Finalmente, e já que falamos em sermos pequenos... Não é estranho aferir que, em pleno confinamento, milhões de portugueses a bater com a cabeça nas paredes se apercebam que afinal anda por aí uma elite que parece não ter restrições. Já mencionei um, mas esquecemos aqueles que por agruras da vida têm o azar de ter acidentes e damos connosco a pensar... Então mas... Pior que isso, são os outros que, na sede de serem vistos, rapidamente (estupidamente?) espalham que também passaram pelo local... As nossas auto-estradas ou nacionais, em tempos de confinamento parecem salas de concertos de fraca música ou cenários de televisão.

 

Depois não digam que não somos pequenos... Agora, na Europa, já só podemos gozar com os Búlgaros e mesmo aí temo que seja uma questão de tempo, até porque em questões culturais, já nem vale a pena entrarmos nesse campeonato.

 

Esperem... Afinal até somos grandes! Na corrupção, a pagar a má gestão de bancos e de companhias aéreas, aí ninguém nos bate! Afinal estou errado... Somos grandes.

 

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  • Para quem quiser ler: aquilo que faz Francisco Louçã rir desalmadamente, "Red Famine" de Anne Applebaum. Uma descrição das fomes impostas na Ucrânia (o "Holodomor" que muitos querem rasurar) durante o domínio soviético! Uma história que poucos infelizmente conhecem, que muitos teimam em ocultar e que muitos, por cá, não hesitariam em ver repetida.
  • Para quem quiser ouvir: estamos na época da Páscoa e não é possível deixar de lado a riquíssima e deslumbrante "Paixão Segundo São Mateus BWV 244" de Johann Sebastian Bach. Isto é viajar completamente para outra dimensão!
  • Para quem quiser ver: como os escândalos de pedofilia da Igreja parecem não ter grande relevância na actualidade nacional, deixo a pelicula de François Ozon, "Grâce à Dieu"... Que os espírito da Páscoa ilumine algumas almas! A demonstração da difícil luta contra muitas corporações que se movimentam como enguias quando o crime sexual mete crianças pelo meio.
  • Para quem quiser assistir: em Portugal fecham-nos as portas dos teatros, temos de ir a Espanha... Se passarem pelo Teatro Español em Madrid, assistam a "#Puertas Abiertas" de Emma Riverola. O terrorismo islâmico visto de uma forma única e sem tabus ou receios em falar de... Pode ser uma opção quando os teatros por cá se fecham e outros, quando abertos e tomados por algumas seitas, mais do que explorar a arte, procuram impingir-nos uma ideologia.
29.03.21

Quarto Escuro...


Filipe Vaz Correia

 

 

 

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O quarto escuro, tão escuro que ameaçava trancar nele todos os sonhos do mundo e transformá-los em pesadelos, secretos segredos que esvoaçavam ao longe num bater de asas que afugentava a realidade.

Singelamente o mar ia chegando, secretamente ondulado, intensamente segredado, tão imensamente arrebatador.

As palavras, sempre elas, flutuavam na crista da onda, como barcos flutuantes aguardando em cada praia, areal, a ligação perfeita para tamanho naufragar...

Naufragando os sonhos, submergindo os anseios, sobrevivendo tamanhos receios, nadando sufocantemente nessa esperança esmagadora de uma singela viagem.

Os ponteiros do relógio iam caminhando discretamente, por entre, as escolhas inadiáveis que se apresentam ao vento, firme firmamento de uma noite estelar.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac, na voz de um anjo, angelical contradição de um desesperante desapego, meio esquecido, meio perdido, num imaginado desenho ferido, escondido em cada esquina de um pedaço de sofrimento intermitente.

Palavras e palavras numa imensidão de mar, infinito horizonte que se presta ao luar, sem sentido, desprendido, numa cascata desconexa disfarçada de desabafo.

Quem se atreve a desenhar nessa folha molhada, salgada, carregada de mágoas, em águas nunca dantes aventuradas...

Quem?

Quem ousa olhar para tamanho mar e imaginar que de teus olhos foi capaz de brotar?

Arde ardentemente esse querer maior, essa vontade pincelada na canção trauteada no cais de um porto, do alto de um navio, de uma janela virada para o mar, vislumbrando essa estrada estreita e inclinada...

Estrada estreita e inclinada, traçada e imperfeita, repleta de poesia, de solitária magia, num rabisco  intemporal.

O quarto escuro...

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

28.03.21

Aben Hácen e Zahara


Robinson Kanes

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Imagem: Robinson Kanes

 

Iniciada a leitura das páginas da “Crónica de la Conquista de Granada”,  de Washington Irving, baseada nos escritos de Frei António Agápida é altura de mergulhar numa época importante da História de Espanha e de toda a Península Ibérica... História do fim da ocupação muçulmana no sul da Europa - as últimas guerras da reconquista cristã.

 

Se em Portugal já andávamos a explorar o continente africano, em Espanha o Reino de Granada, governado pelo rei mouro Muley Aben Hácen, ainda disputava o seu território com os Reis Católicos, Fernando II e Isabel I.

 

Até aqui, nada de novo... o interesse começa quando o soberano mouro deixa de pagar o tributo à coroa espanhola e decide avançar, em primeiro lugar, com as hostilidades. Mais tarde ou mais cedo alguém ia dar o primeiro passo. Também Fernando II, só não avançara porque tinha de gerir as convulsões internas do seu próprio reino e os habituais atritos com os primeiros separatistas que “Espanha” conheceu: os Portugueses.

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E eis que, para minha surpresa, Muley Aben Hácen decide atacar e tomar Zahara de la Sierra, um pueblo andaluz situado no Parque Natural de Grazalema e que faz parte da “Ruta de los Pueblos Blancos”. Esta tomada decorreu de forma vulcânica, com várias mortes e prisioneiros. No regresso a Granada, perante tão sanguinária campanha, muitos foram os que acabaram por antever um cenário negro para o reino: uma espécie de castigo que chegaria muito em breve.

 

Zahara é daquelas imagens que não se esquecem. Da barragem, agora construída, e olhando para aquele pueblo, conseguimos imaginar as forças de Aben Hácen a invadir a fortaleza (conquistada em 1407 aos Mouros) que ainda hoje lá se encontra. Imaginamos os gritos dos seus residentes a ecoarem pelos vales até Arcos de la Frontera, embora a paisagem, tão bucólica, possa levar ao engano. Uma chegada ao amanhecer transmite-nos uma tranquilidade singular, uma espécie de acalmia pós-batalha e cujo cenário jamais permitirá, ao ignorante de tais factos, imaginar a carnificina que ali teve lugar na noite anterior. O principio do fim da presença muçulmana na Península Ibérica começara em Zahara a ser redigido.

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Foi uma agradável surpresa, agora que a neblina magicamente se dissipa e leva com ela os fantasmas da cavalaria árabe. Apercebo-me da importância de tão bonito local, um local que será o primeiro de muitos no que toca às peripécias da Conquista de Granada.

 

Continua no próximo Domingo...

27.03.21

Caldeirada Com Todos... “Jorge Almedina Loção”


sardinhaSemlata

 

 

 

 

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"Há muitos anos que deixei de escrever entorpecido por um tempo de amarras infiltradas na minha sedenta vontade de sofrença."

Não são palavras minhas mas sim de um velho amigo que parava no café central de Garvão, Baixo Alentejo, em certo tempo de outros momentos.

Quando o Filipe me pediu para escrever, apesar de não nos conhecermos somos ambos filhos de um Baixo Alentejo que nos marca, recordei as palavras acachapadas deste velho sábio entre copos de vinho nas mesas daquele café.

O rosto marcado, a voz meio queimada dos cigarros sem filtro, as barbas brancas e os dedos amarelados.

Tio Tóino do Besugo.

Tóino de António, Besugo permanece sem explicação.

Profecias, rimas, sabedorias, tristezas tudo tinha lugar na expressão daquele homem, nas cruzadas palavras que tomavam conta dele.

sofrença, uma mistura de sofrimento e lembrança, na linguagem sofrida de um solitário  viajante.

Deixei de ir para Garvão depois da morte de meus avós mas esta imagem, este homem sempre me acompanhou, esta recordação sempre me perseguiu.

Esta frase, início do texto,  encontra-se num livro antigo da casa do povo daquela localidade, guardado por meus avós e que já homem por acaso encontrei.

Ali vi aquele nome recordando imediatamente aquela figura.

Porquê?

Não sei.

Mas ficou.

Agradecer a todos os SardinhaSemlata pela oportunidade.

Obrigado amigo Filipe Vaz Correia.

 

 

Jorge Almedina Loção

 

 

 

 

 

 

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