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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

05.03.21

Corpos em queda


JB

       Sempre nos mentiram. 
    Uma das primeiras mentiras que nos disseram foi que "é fácil ser criança". Muitos dos que estão a ler esta frase podem até achar que ela é verdadeira, mas não é. Podemos criar uma visão idealizada da nossa infância, podemos até achar que os problemas actuais são muito superiores aos de outrora, mas em boa verdade, não podemos dizer que é fácil ser criança. Muito menos hoje em dia.

  Parece-nos fácil porque já passou algum tempo, porque éramos felizes e não sabíamos, porque ignorávamos tudo o que hoje conhecemos e a morte era uma estranha. Ser criança parece fácil agora, mas não era. Para mim não era fácil se me lembrar bem. Duvido que tivesse sido para alguém. 
  Lembro-me de chegar ao colégio, entrar na sala atrasado e vitorioso apesar de não ter ganho nada; ver a turma a olhar para mim sorridente e do TT, um colega betinho, moreno de cabelo curto, com uma cara muito tímida, ar de menino bem comportado e sempre com a roupa impecável, de repente e sem motivo aparente exclamar em alta voz: "Professor não aguento mais! Vou suicidar-me!" enquanto se precipita para a janela e se atira dela para fora num instante, antes que o professor ou os próprios colegas pudessem reagir ou fazer qualquer coisa para o impedir. Os meus colegas e eu, incrédulos com o que o TT tinha acabado de fazer, precipitamo-nos para a janela enquanto gritamos: "Professor ele atirou-se mesmo "; "Ele matou-se!". O Professor assustou-se e deu um salto da cadeira em direção ao TT, mas era tarde demais. Quando olhámos da janela vímos exatamente aquilo que estávamos á espera de ver... 

  O TT, do outro lado da janela, sentado no chão com um sorriso e a perguntar-nos: "foi fixe?". A nossa sala de aula era no rés do chão, por muito dramático que tivesse sido o grito do TT, ou a sua própria defenestração, ele nunca esteve realmente em perigo. O que se passou (e por isso é que eu respondi que sim, que foi muito fixe TT) é que com a encenação do TT e com a colaboração da turma, houve uma fração de segundo em que o professor sentiu um pânico genuíno e a nossa turma do oitavo ano, achou hilariante. E foi. Quando penso na minha infância, penso nestas estórias, e também eu por vezes minto aos meus filhos e digo-lhes que é fácil ser criança. Mas se pensar mais e noutras coisas, sei que estou a mentir. 
  Entristece-me pensar que para as crianças de hoje, nem estas memórias serão possíveis. As das brincadeiras estúpidas de criança com os amigos. Estão muito mais em casa, expostas aos adultos com as suas vidas 'difíceis'.   Mais sozinhas, mais isoladas e a crescer num mundo novo e assustador. 
  E depois vimos nós, dizer-lhes que para eles é fácil e que depois vai ser pior.

 A empatia começa em casa. 

 

JB

04.03.21

A intragável beleza da substituibilidade


Triptofano!

Quando deixamos de viver a nossa vida e ter tempo para a família, para o romance, para o animal de estimação ou para aquele livro acompanhado de um copo de vinho tinto, por causa do trabalho, então é altura de interiorizarmos que não há pessoas insubstituíveis.

Sei que a beleza singela da substituibilidade pode ser intragável para muitos, como uma ingestão excessiva de gorduras quando as enzimas pancreáticas entraram em greve, mas a verdade é que tão depressa como vamos também alguém vem para o nosso lugar.

Podemos deixar saudades, mas o mundo não para porque nós decidimos (ou alguém decidiu por nós) que o nosso mundo não era aquele.

Atenção, não estou a fazer uma ode ao deixa andar ou fazer o mínimo possível, mas sim ao criar limites que permitam que a vida que temos para viver seja mais do que a vida laboral.

O teletrabalho esbateu fronteiras entre a vida pessoa e a profissional, e cada vez fica mais fácil estarmos acessíveis para responder a um e-mail ou a um telefonema, a termos o computador ligado até a altas horas da noite ou adormecermos a fazer scroll nos e-mails que temos para responder.

Não nos faz bem. Nunca nos poderá fazer bem. O trabalho é para termos prazer e para nos dar prazer, ou no limite para no fim do dia nos conceder a possibilidade de obtermos e mantermos o prazer.

Vivermos para trabalhar, porque achamos que se não fizermos mais ninguém fará, é o maior erro de todos, porque todos somos substituíveis. 

A única coisa que ninguém pode fazer por nós é viver a nossa vida. E a nossa vida é muito mais do que uma dimensão.

01.03.21

E Se Correr Bem?


Filipe Vaz Correia

 

 

 

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Como não acreditar?

O Sporting está mais perto do Título, apesar de distante devido aos muitos jogos que faltam, sendo que sou avesso a fanfarronices que tanto existiram no consulado anterior, no entanto, é impossível deixar de sentir esse contagiante momentum que se nota em Alvalade.

Uma equipa de meninos, carregada de Portugueses, mesclada com jogadores experientes, orientados por um Treinador absolutamente magistral.

Rúben Amorim é o melhor treinador que alguma vez vi no SCP, obrigado Senhor Presidente, numa surpreendente realidade que aos Sportinguistas deve satisfazer.

Olhando para outros clubes ainda se reforça mais essa contrastante realidade, desde a inovadora forma táctica que agora todos parecem querer copiar, até ao discurso...

O discurso de Amorim é de excelência, até do ponto de vista gramatical, na capacidade de unir, de falar para fora,  de construir pontes e desarmar expectativas.

Estamos na presença de um projecto que poderá mudar a História e o destino do SCP podendo resgatar a nossa grandeza perdida...

Um projecto assente na sua formação, assente nesse acreditar no talento e no futuro da sua Academia, apoiados por outros que chegam para somar, acrescentar qualidade e experiência.

Isso só poderá ser feito com alguém como Amorim, com a excelência do seu trabalho, do seu saber, da sua capacidade de agregar.

E se correr bem?

Esta foi a resposta que deu na sua apresentação, demonstrando que percebia a questão:

Vencer no Porto ou Benfica faria dele mais um.

No Sporting representará um lugar no Olimpo, fará com que mais do que um campeonato, pudesse olhar para a transformação de um Clube, de um projecto maior, alcançando a imortalidade no Reino do Leão.

Amorim não olha para este titulo, olha para o futuro, para vários títulos, para uma equipa de futuro, para um novo Sporting.

E se correr bem?

Com Rúben Amorim como treinador, arrisco dizer, que só pode correr bem.

Viva o Sporting

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

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