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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

23.09.22

Sinais de alerta


JB

 Lembram-se do tempo em que a direita era muito conservadora, censurava filmes, livros, espetáculos; numa tentativa de controlar a opinião pública? Eu por acaso não porque ainda era muito pequeno mas lembro-me de ouvir falar nisso e de achar a censura uma prática... Censurável... (nós humanos somos assim, cheios de contradições).

 Pois bem, a liberdade ganhou, muito por mérito da esquerda dirão alguns e hoje em dia a censura não é aceitável para ninguém. Pelo menos deveria ser assim, infelizmente não é. Agora a 'censura' chama-se 'cancel culture' e está aì em força e  isso deve preocupar-nos.

 Segundo um relatório da pen (uma organização americana que defende a liberdade de expressão), só nos últimos 12 meses cerca de 1700 livros foram banidos de universidades em diversos estados americanos. muito por causa da esquerda radical americana, que tem vindo a ganhar força e é cada vez menos tolerante com o seu próprio passado. Tudo o que possa fazer lembrar racismo, colonização, discriminação, machismo etc tem que ser revisto e possivelmente eliminado para sempre.

 Felizmente ainda não chegaram ao ponto de banir completamente nenhuma obra, mas este já é um sinal preocupante. 
 
 Em Portugal já aparecem uns sinais desta nova moda, basta ver os tweets da Fernanda Câncio e segundo essa Sra de esquerda e supostamente defensora das liberdades existe muita gente por aí que devia estar desempregada. Nos EUA já estão numa fase muito mais avançada mas começaram da mesma forma que nós  estamos a começar.

 Sou naturalmente contra qualquer tipo de revisionismo histórico, todos temos um passado com erros, até as nações têm passado. Com erros de outras dimensões infelizmente. Agora é completamente inaceitável, imoral e desprezível tentar fazer com que alguém se sinta responsável pelos pecados dos pais, quanto mais dos tetravós, ou fingir que eles não existiram e que não é graças a eles que estamos cá.

 

JB

 

22.09.22

Uma Casa de Bonecas


The Travellight World

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Na semana passada tive a felicidade de assistir no Teatro Villaret à mais recente encenação portuguesa de “Uma Casa de Bonecas” e constatei (sem grande surpresa) que a peça de Henrik Ibsen continua tão atual hoje como quando a vi pela primeira vez, há muito tempo atrás. Pode ser um texto com mais de 140 anos, mas esta história de um casamento fracassado — a segunda peça mais produzida no mundo depois de Hamlet — continua absolutamente relevante.

A peça de Ibsen conta a história de uma mulher que ousa abandonar o lar e mostra-nos como pode acontecer a separação de duas pessoas que pensavam conhecer-se, que pensavam estar apaixonadas, mas que no final pouco ou nada sabiam uma sobre a outra acabando por deixar morrer a relação sob o poder corrosivo dos seus segredos individuais.… Afinal mesmo os melhores casamentos lutam contra as perceções idealizadas e aquilo que é a dura realidade.

Nora e Torvald Helmer são como todos nós: pessoas normais, que convivem com os seus amigos, que lutam todos os dias para alcançar uma situação financeira estável, mas que tristemente tropeçam nas vicissitudes da vida. Eles não são maus nem bons; eles só querem coisas diferentes. Torvald quer uma “boneca”, um acessório perfeito que ele possa conduzir pelo braço, pôr a dançar e mostrar aos amigos, e Nora quer a sua independência, ser respeitada como o ser único que é, e não um objeto que foi passado do pai para o marido.

Muitas mulheres modernas enfrentam  as mesmas questões de amor, de autodeterminação e de família que Nora Helmer. É verdade que a maioria de nós goza hoje de mais direitos e oportunidades do que a personagem principal de Ibsen, mas quantas vezes continuamos a enfrentar as mesmas escolhas difíceis?

É fácil entender o desejo de Nora de ser mais do que apenas uma esposa, a sua vontade de escolher a sua própria vida em vez de se encaixar na do marido. E quando ela infringe a lei para salvar a vida deste (contra a vontade dele), nós também entendemos. E quando ela não recebe crédito e é tratada como uma criminosa em vez de uma heroína, nós também percebemos a sua enorme deceção. A autodeterminação pode ser um campo minado, a maioria das mulheres sabe bem disso….

No final, ela escolhe a sua própria sobrevivência em detrimento das necessidades dos filhos, que acaba por deixar para trás, juntamente com o marido, profundamente machista, que a objetifica e infantiliza.

Por todo o mundo há muitas mulheres que enfrentam diariamente a difícil escolha de ir ou ficar, especialmente aquelas que temem não sobreviver se permanecerem num casamento conturbado ou abusivo.

Eu acredito que Uma Casa de Bonecas ainda é relevante pela simples razão de que a revolução que Ibsen começou com Nora não terminou. Na verdade, há muito trabalho a fazer antes que todas as mulheres sejam livres e possam lutar sem medo pela sua autodeterminação. Apesar de todos os nossos direitos e oportunidades, ainda estamos em terreno instável….
Como diz a escritora turca Elif Shafak: “quando as sociedades retrocedem para o autoritarismo, o nacionalismo ou o fanatismo religioso, as mulheres são sempre quem mais tem a perder”.

Um forte aplauso à encenação de João de Brito e às brilhantes atuações de Madalena Almeida, José Mata, Bruno Bernardo, Diana Nicolau, Inês Ferreira da Silva e Luís Lobão.

Infelizmente a peça já não está em cena, mas quem não conhece e tem curiosidade, pode ver uma adaptação da BBC (legendada em português) aqui.

19.09.22

Versos Soltos…


Filipe Vaz Correia



 

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Pintura pendurada na parede;

Na outrora parede despida;

Ousadamente desnudada,

Desnudando esquecida,

A mágoa recordada,

Na recordada ferida,

Que fere despudorada,

Despudoradamente vivida,

Nessa vida descompassada,

Descompassadamente sentida,

Sentindo a amargurada,

Despedida...

 

Um breve suspiro;

Por entre um verso;

Um breve suspiro,

Sem fim.