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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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26.03.24

Quando a Hostilidade, a Sonolência e a Polarização se juntam nas ruas, a Europa acaba em ruínas.


Bruno

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Imagem (captada do original): Bruno Nunes dos Santos - IWM - Londres

 

 

Temos uma vantagem fundamental sobre todos os gigantes da tecnologia: a guerra pela nossa atenção está a ser travada no nosso próprio território, literalmente, nas nossas mentes. E é aí que pode ser vencida.

Robert Waldinger e Marc Schulz, in "Uma Boa Vida"

 

A sociedade atual vive talvez uma das décadas mais perigosas da sua história desde os ventos que sopraram antes e durante a Segunda Guerra Mundial. E, sem quaisquer aspas ou desculpas pela força das palavras, a tal sociedade atual nunca esteve tão estúpida neste aspeto como nos dias que correm. 

 

Os cidadãos esqueceram-se completamente, e vou-me fechar num flagelo recente, de quanto custou a última Grande Guerra do Mundo. Poderão até ignorar todas as outras tragédias que assolaram esse mesmo Mundo, o que já é lamentável, mas não poderão ignorar este facto. Sou levado a recuar quase uma década quando tive de concordar com um amigo de um conturbado país africano que sublinhou que um dos problemas contemporâneos na Europa era a Paz. De facto, a Paz fez-nos esquecer o quão difícil é manter um país e pior que isso um sem número de países em harmonia. A Paz a Ocidente, por sua vez, dedicou toda a sua retórica crítica ao nazismo e ao fascismo e varreu para debaixo do tapete o comunismo que ainda hoje influencia muitos países no mundo e também na Europa - todos são regimes sanguinários e enquanto os primeiros (sobretudo o segundo) está atualmente mais visível, o segundo face a uma ameaça de muitos movimentos e a uma juventude que o condena está completamente de cabeça perdida e não fosse algum esclarecimento na cabeça dos cidadãos, estaríamos a atravessar uma Revolução Cultural ou a viver sob a ameaça de Gulags na Europa - estranhamente, e sobretudo no caso Ibérico, extremamente ativo e mediático.

 

Face a um colapso, a culpa não será dos suspeitos do costume: "ah a juventude". A culpa será nossa e até dos nossos pais que não nos prepararam convenientemente para uma situação básica da nossa existência: aprender a viver no mundo como ele é. Um Mundo onde nos declaramos altamente alternativos e "boa onda" fazendo retiros espirituais com muitas fotografias e vídeos que depois nos são despejados como lições de moral e pseudo-psicologia (pois somos tão "boa onda" e da "plenitude da mente") em países onde expressões como Direitos das Mulheres ou mesmo Direitos Humanos forem pronunciadas é muito provável que acabemos dentro de um buraco e com um sem número de indivíduos a atirarem-nos pedras. Nós não, porque eventualmente teremos a proteção do passaporte e mais uma história de vitimização para vender.

 

Foi também esta paz que nos está a transportar para um ponto sem retorno na forma como utilizamos o nosso discurso, como nos agarrámos ao conforto, muitas viagens low cost em destinos massificados - uma total ausência de espírito critico e uma certa alienação da realidade. Se por um lado estamos completamente alheados, por outro acreditamos em tudo o que vemos e lemos sem sequer questionar. Aliás, não de todos porque nos esquecemos dos alheados da realidade que só perceberão que o mundo se tornou num lugar bastante perigoso quando forem mobilizados para o combate ou lhes cair uma bomba em cima e provavelmente só irão lamentar que não poderão ir aquela semana para as Maldivas por €500 ou tirar a foto parola na Torre de Pisa, aliás, fora da Torre porque a subida é cara e nem todos estão para isso.

 

Contudo, rapidamente avançamos com tomadas de posição hostis e agressivas, sobretudo no sofá ou na esplanada. O velho "matem-nos a todos" ou o "era acabar com esses..." está de volta, inclusive nas ruas - não vivo em bolhas, gosto de viver onde vive o comum dos cidadãos. Utilizo redes sociais profissionalmente e apenas uma a nível pessoal e confesso que me sinto algo preocupado quando vejo indivíduos com altas posições em organizações de relevo, professarem palavras e doutrinas dignas de uma "Radio Télévision Libre des Mille Collines".

 

Continuamos naquilo a que os anglo-saxónicos chamam de cocoon e ficamos cegos (e normalmente influenciados) por quem nada traz de novo ou correcto. Não vejo nem tenho sequer televisão, mas deixa-me extremamente preocupado quando vejo jornalistas a tomarem posições sobre temas da sociedade e sobretudo políticos oscilando entre aquilo que nos dizem ser notícia e aquilo que é comentário, sem esquecer que não raras vezes têm interesses económicos também aí. Deixa-me preocupado quando me dizem "mas o X disse na televisão que...". Tomo a liberdade de ver quem são os "X" que "comentam" nas nossas televisões e vejo indivíduos do sistema, indivíduos com ambições políticas, políticos no ativo com tempo de antena privilegiado, sempre os mesmos das sociedades de advogados, indivíduos com um passado público degradante e um sem número de cunhados denunciados pelos seus apelidos, já não falando nos académicos que trocaram a academia por uma espécie de madrassa partidária, militares com intenções dúbias e especialistas cuja especialidade não é corroborada em resultados. Poderíamos dissecar os meandros das agências de comunicação, das influências e tudo o mais que atualmente permite este estado da arte, mas seria um tema diferente e complexo (na verdade, qualquer cidadão se quiser, pode perceber estas dinâmicas e chegar à conclusão que...).Delegamos aí a nossa opinião correndo um risco gigantesco de tomar posições que um dia nos poderão efetivamente colocar em risco. 

 

Não procuro com estas linhas colocar-me como o paladino das posições mais acertadas e da mente mais esclarecida, por muito que evite emitir opiniões baseadas nas primeiras linhas que leio ou imagens que vejo - por uma questão de educação familiar e também por questões profissionais, opto sempre por deixar o mínimo de pontas soltas. Com efeito, acredito que em nome de milénios de História e por estarmos capacitados com conhecimento que alegadamente jamais terá existido na Humanidade, deveremos ser cada vez mais cidadãos e até entrar naquele caminho em que um americano, democrata convicto, permite-se ouvir o outro lado e a despir-se desse tal "conforto" até acaba uma conversa a simpatizar com os republicanos, citando aqui um exemplo de Haidt.

 

Devemos também perceber aquilo que pode chegar atualmente ao jovens, sem engenharias sociais, e por muito que até a alguns possa doer. Se por um lado existem valores e práticas que não devemos varrer, por outro existe um mundo totalmente novo que precisa de ser desbravado e compreendido. E até aí dou um exemplo mais mediático e recorrendo às televisões e rádio (sobretudo aquelas que apelido da "estupidificação coletiva" que se queixam da pouca capacidade de chegar aos mais jovens, mas continuam com uma programação e indivíduos à frente dessa mesma programação, mesmo que mascarados de muito "prá frente", cuja mensagem parece ser direcionada para idiotas ou então completamente desajustada aos tempos atuais - não raras vezes por questões de cegueira ideológica, wokismo e até corporativismo. Os mesmos que passam mensagens claramente ideológicas e contraditórias com aquilo que depois apregoam muito pontualmente. Afinal, são estes e todos os outros mencionados que há décadas nos debitam com pseudo-ideias, pseudo-mandamentos e pseudo-ações para mudar o país mas cujo efeito prático é igual a zero.

 

Celebro a Páscoa porque, como no Natal, é uma oportunidade para estar em família e com aqueles amigos mais ternos. Mais do que isso, é porque celebro a Páscoa profana, pois a Páscoa cristã (e o Natal e tantas outras manifestações) apenas se limitou a copiar o que já existia de uma forma até mais natural. E um pouco fora do registo do tema do artigo, o simples facto de oferecer ovos é muito mais antigo que o cristianismo que para lá de venerar o indivíduo auto-intitulado líder, celebrava o nascimento, a vida após uma época mais tenebrosa, era a entrada na Primavera e com tudo o que isso acarreta na prática, bem para lá dos devaneios de alma que possamos ter e que absolutamente respeito - até porque participo em muitas atividades ligadas a. Por isso, talvez esta Páscoa também possamos ter o nosso momento de ressurreição e fazer a nossa parte, porque por incrível que pareça, o poder de fazer algo começa cá em baixo, em nós e como diria Mishima, "o céu estrelado não varia, seja qual for o lugar onde estejamos".

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Para ler: e porque falei em Yukio Mishima, porque não "Vida à Venda"? Por momentos, também sentiremos necessidade de colocar a nossa vida à venda, sobretudo para perceber o valor da mesma e como as pessoas... Descubram por vocês.

Para assistir: um enorme agradecimento ao Casino Estoril que a 06 de Abril nos brinda com "Mario Biondi" no mítico "Preto e Prata". Ouvir Biondi é deambular entre Roma e Nova Iorque, é passar pelos melhores clubes é pensar que a herança do bom jazz ainda perdura e promete perdurar. Ainda há bilhetes, vamos lá tomar um copo e ouvir boa música.

Para visitar e experimentar: A Semana Santa de Braga, nos últimos anos já é uma data obrigatória. Este ano não será diferente.

Para comer e beber: bem perto da Páscoa, não entrarei na questão dos restaurantes, não vivo de fundos europeus para me tornar critico gastronómico, por isso e bem perto de Braga, em Fafe, o "Pão de Ló de Fornelos" é uma coisa de bradar aos céus. A mesa ficará bem composta sem qualquer dúvida. E uma iguaria destas vai muito bem com um Martha's Classic +40 year old Port. O ideal é juntar os amigos e cada um contribuir, mas sempre apreciei o Porto destas caves em Santa Marta de Penaguião. Com um momento de partilha entre estes dois atores, ninguém precisa de ir a um Michelin.

Para ouvir: pode ser sempre a mesma coisa e não carece de ser Páscoa para escutar esta obra-prima, mas a "Paixão segundo São Mateus, BWV 244", de Johann Sebastian Bach é daquelas coisas que nos faz questionar se o compositor era um ser-humano e não um visitante de um outro planeta mais evoluído que nos visitou.

25.03.24

Alexandre "O Grande" Na Netflix


Filipe Vaz Correia



 

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Num destes dias deparei-me com um documentário na Netflix sobre Alexandre "O Grande", a minha personagem histórica preferida, e nessa viagem absolutamente extraordinária reavivei a caminhada de Alexandre rumo ao poder, ao trono, a Alexandria, a Gaugamela...

Enfim ao seu derradeiro confronto com Dario III e à sua conquista do fabuloso império Persa.

Olhando para a dimensão dos seus feitos, 300 anos antes de Cristo, não posso deixar de contemplar com admiração o inimaginável percurso deste Príncipe Macedónio que ousou mudar e conquistar o Mundo que então conheciam, desconhecendo.

A sua marca na cidade de Alexandria está ainda hoje presente, fonte de estudos e pesquisas de vários arqueólogos e historiadores, impressa no solo e sub-solo daquela cidade, demonstrando não só a grandeza do homem mas essencialmente dos seus feitos.

Alexandre sonhou com um império sem fronteiras, onde a inclusão fosse um ideal, tentando que a mistura entre os Macedónios e os povos conquistados fosse uma realidade.

Conquistador, Tirano, Imperador, Faraó, Poeta, Filosofo, vários foram os cognomes de Alexandre a quem todos, no seu tempo, denominaram de O Grande, no entanto, não podemos dissociar destas conquistas e da sua personalidade a educação que recebeu de Aristóteles, que ensinou toda uma geração de jovens Macedónios e que com o seu conhecimento criou uma das mais brilhantes gerações que o mundo conheceu.

Apesar de esta serie documental não abranger os primeiros anos de Alexandre nem o pós Gaugamela, dá uma noção do quão transformador aquela personagem foi para a sua época conquistando na verdade a tão almejada imortalidade, talvez não entre os Deuses do Olimpo mas nos anais da historia entre os comuns mortais que constituem a Humanidade.

Talvez conhecendo um pedaço de Historia as pessoas pudessem pesar melhor quando encontram na esfera política os populistas medíocres que entre singelas banalidades nada mais têm a oferecer do que o ódio ao outro e a estupidez.

Só através do conhecimento e da cultura o Ser Humano pode evoluir.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

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