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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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07.04.24

Apontamentos 7 de Abril


O ultimo fecha a porta

Nos últimos dias, muito se tem falado de política. Desde a escolha do novo governo, ao espetáculo triste e preocupante da eleição do presidente da Assembleia da República. Como as eleições viraram moda, temos mais uma este mês para animar a malta: as do FC Porto. 

Também se pôs na boca do mundo um novo conceito quanto à definição de género: não binário. Capricho para uns, liberdade de escolha para outros.  

Discutiu-se também a identidade visual da República portuguesa. Uma discussão estéril sem conteúdo, mas que ainda assim algumas pessoas se deram ao trabalho de criar e subscrever um petição.

 

Passando ao que realmente interessa: as rendas continuam muito altas, impossibilitando as famílias de conseguir pagar. Nada muda.

Na saúde, as urgências continuam sobrecarregadas. A minha avó deu entrada na urgência do Hospital público esta semana Às 2153m. Foi atendida às 05h da manhã. A minha mãe teve possibilidade ficar a noite em claro àespera e a na desespera, mas é inadmissível. Nada muda.

Os combustíveis aumentam esta semana novamente. Nada muda.

Por sua vez, a inflação desacelera, mantendo os preços a níveis altos, apertando cada vez mais os nossos orçamentos. Nada muda.

Os autocarros da UNIR, nova empresa de transportes públicos, continuam com falhas, atrasos e falta de informação. Nada melhora.

Com isto quero dizer que anda-se a discutir os design, a sexualidade das pessoas e coisas acessórias, sem se focar e melhorar os problemas diários das pessoas.

02.04.24

O Céu é de Todos e este Mundo de quem mais Apanha


Bruno

bruno_nunes_dossantos_pavia_stevemccurry.jpg

Imagem (Beirute 1982): Bruno Nunes dos Santos - do original "Icons" de Steve McCurry em exibição nas Cavalariças do "Castello Visconteo" - Pavia 2018

 

O direito do homem a não matar. A aprender a não matar. Este direito não está consagrado em nenhuma constituição.

Svetlana Alexievich, in "Rapazes de Zinco".

 

 

Ao escrever estas linhas, com título inspirado em Raúl Brandão, acredito caminhar por um percurso completamente minado. Minado pela hipocrisia, minado pelo discurso que se pretende único ao sabor da corrente e sobretudo pela capacidade de deturpação que hoje em dia ocorre acabando, por norma, numa espécie de cancelamento perpetrado por aqueles que mais utilizam a palavra liberdade. O que se está a passar no Médio-Oriente, nomeadamente em Israel, na Palestina, na Síria e no Líbano, é daqueles temas que para o cidadão comum pouco interesse tem, até porque emitir uma opinião sobre, pode acarretar consequências até a nível profissional.

 

Um ataque de proporções horrendas (muito mal comparado com o 11 de setembro como acabou por ser provado após todos termos embarcado no mesmo) que descambou num claro ensaio de violação de todos os direitos humanos e tudo aquilo que em países democráticos foi conquistado ao longo de décadas após a Segunda Guerra Mundial. Atualmente, fico com a sensação de que é perfeitamente aceitável matar quem quer que seja de forma cruel sem que existam consequências. É irrepreensivelmente aceitável tornar a vida de povos num verdadeiro martírio sem que alguém tenha de pagar por isso. É francamente fácil cometer um genocídio sem se ser punido - e se antes a via do silenciamento era uma das maiores armas, agora talvez seja a do ruído.

 

Tenho obviamente as minhas limitações informativas que vou tentando colmatar com versões de um lado e de outro, de quem vive à distância e de quem vive mais perto e de uma ou outra agência noticiosa internacional de um lado e de outro. Não obstante, a sede de poder de um indivíduo que internamente e nos últimos dois anos tem sido claramente contestado no seu próprio país por práticas anti-democráticas, continua a fazer subir a "death tool" (expressão fancy agora tão utilizada para transformar mortes numa espécie de jogo lúdico) em mais de 30 000 na Palestina (excluindo a Síria e o Líbano) e mais de 600 soldados israelitas. Aparentemente as mortes gratuitas de concidadãos e de inimigos parecem perpetuar o poder em países de regimes totalitários, mas não pensei jamais que tal sentimento pudesse existir em países democráticos.

 

Não defendo a morte de milhares de indivíduos como retaliação, por muito que tal até me pudesse custar sobretudo se forem próximos ou até cidadãos da minha pátria. Tal como no quotidiano, se alguém acabar com a vida de alguém que é próximo de mim, é muito provável que o meu desejo imediato seja acabar com a vida de quem o fez, e é aí que entra a, vamos chamar-lhe, civilização e respetiva justiça - e ainda bem para mim e para a própria sociedade, convenhamos. É importante lembrar que ouvi muitos a defenderem a destruição da nação palestiniana aquando dos ataques de 07 de outubro mas que aquando dos recentes atentados em Moscovo criticaram o facto dos alegados terroristas terem sido alvo de tortura - estranho mundo, estranhas gentes.

 

Enquanto assisto a um Ministro da Defesa com um discurso extremamente agressivo, com gestos agressivos e uma postura (inclusive gráfica) que me faz lembrar um qualquer Suslov ou um Dino Alfieri, vou admitindo que Israel tem de ter uma força militar forte  para manter a sua existência, caso contrário é arrasada pela vizinhança da região. O que Israel não pode, sobretudo pela sua história recente, é cometer os mesmos erros que outros cometeram em relação a um povo, mais do que a um Estado. Usar a fome como arma não é digno de um Estado moderno e civilizado; matar milhares de crianças (e sabendo que as vai matar) não pode ser tolerado por ninguém; atacar hospitais, embaixadas e consulados de outros países, agentes de organizações de paz de forma cruel e deliberada nunca poderá ser o caminho. Sim, podem estar terroristas entre muita desta gente (e importa lembrar que a política israelita vê em cada palestiniano e não só um terrorista, independentemente do cadastro limpo ou não) mas nada pode justificar uma ofensiva deste género: é assim que funcionam vários regimes totalitários a Oriente e em África, foi assim que funcionaram os piores regimes da História, o mundo civilizado não pode funcionar assim, mesmo com alguns custos que tal acarrete, mas é isso que nos coloca um passo à frente no correr dos tempos.

 

Infelizmente, as imagens de crianças mortas de fome ou despedaçadas por uma qualquer bomba não passam nas nossas televisões, as imagens de mães e pais a chorarem pela morte dos filhos não passam pelas nossas televisões, os ataques a indivíduos de outras religiões (não só muçulmanos) não passam nas nossas televisões, os relatos de morte e as centenas de imagens de crimes de guerra onde indivíduos, alguns militares e outros não, comportam-se como autênticos psicopatas não passam nas nossas televisões embora se encontrem partilhadas aos magotes em várias redes sociais. O estranho é que um qualquer caso que ocorra do lado contrário e até menos grave, é largamente difundido e após atingido algum impacto, rapidamente censurado.

 

Ao longo de anos tenho assistido a imagens de crianças e adultos a serem baleados porque defendem apenas uma horta ou a sua casa de bulldozers e de colonos que expulsam indivíduos da sua terra e aí querem assentar (onde é que já vimos isto!). Ao longo de anos tenho assistido a humilhações, betonização de fontes e linhas de água, projeção de excrementos e tudo o mais como forma de destruir uma nação - mas para assistir a tudo isto, tenho de escavar muito bem os confins da internet e dos motores de busca. Tudo isto, chegados aqui, não pode ser censurado num comentário do "X", anterior Twitter, ou com um despejar de comida por via aérea enquanto se vendem armas a quem não terá qualquer pejo em as utilizar para continuar uma matança que não é de agora.

 

Tenho um enorme respeito pelos dois lados da barricada, mas temo que se estejam a abrir precedentes muito perigosos para as décadas que se avizinham, sobretudo porque também teremos leituras mais transparentes e desapaixonadas do que aconteceu no Afeganistão, no Iraque e na Síria. A Síria, onde um Estado com territórios na Europa e na Ásia, à boa maneira alemã de Hitler e de uma Itália de Mussolini da década de 30 do século passado, ensaiou a sua estratégia de guerra e respetivo material bélico para invadir a Moldávia, a Geórgia e de forma mais violenta, a Ucrânia. Obviamente que não procuro com este discurso criticar uns e inocentar outros,  o que não podemos é puxar dos nossos galões de Democracia, de povo evoluído e cair em erros do passado, erros esses, mais uma vez de que fomos vítimas e não hesitamos em utilizar sempre que alguém discorda de nós ou critica a nossa posição... Até porque corremos o risco de abrir arcas de ódio que, se abertas e os seus ideais alimentados, podem fazer o Mundo andar bastante para trás. É importante não esquecermos, e termino apoiado em palavras que penso terem sido proferidas por um Governador Omíada, que o fogo se ateia com dois pauzinhos e a guerra com pauzinhos e que se nenhum homem apagar, o combustível serão cadáveres e cabeças.

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Para ler: um livro do início do século que considero bastante underrated mas de uma importância suprema. "O Perfume da Nossa Terra - Vozes da Palestina e de Israel" de Kenizé Mourad é um conjunto de testemunhos que ultrapassam centenas de ensaios que possam ser escritos sobre o conflito entre Israel e Palestina. Foi, em 2006, a primeira vez que o li e ainda muito "verde" na vida, um instrumento fundamental para abordar esta temática. Deveria ser leitura obrigatória.

Para ouvir: de influência claramente judaica e com a sonoridade "Klezmer" bem patente, os "Oi Va Voi" é uma daquelas bandas que me acompanha desde sempre. Não estão ativos como em tempos, mas o álbuns perduraram para sempre cá por casa. O album "Laughter Through Tears" de 2003 é mágico e tem em KT Tunstall uma das suas muitas vozes.

Para assistir: "The Confessions", peça de Alexander Zeldin no CCB. Estou bastante curioso com o dia 05 de abril.

Para comer e beber: é sempre com uma enorme vontade de provocar o paladar que visito o Tayybeh ali bem resguardado em Moscavide. Comida síria como tem de ser, bem apresentada e com aquele toque bem caseiro: ponto de passagem obrigatório. Para beber, atravessamos a fronteira e paramos no Vale de Bekaa para beber um Châteu Musar Tinto, um blend biológico de Cinsault, Carignan e Cabernet Sauvignon. Juntem-lhe umas Kafta e um Kibbeh e têm o sabor do Líbano para sempre no vosso estômago e no vosso coração.

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