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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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01.06.21

A Celebração da Ruína Democrática...


Robinson Kanes

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Créditos:  @priyapyadav18

 

 

Aprendemos com a Democracia, não a delegar responsabilidades mas a fazer um total outsourcing da cidadania. Primeiro ficamos com a ideia de que aqueles que nos representam o fazem porque neles votamos e pedimos que governem de acordo com a nossa vontade, todavia, uma leitura mais atenta da lei mostra que delegamos o poder de cada um fazer como entender, uma carta branca. Não obstante, mesmo essa carta branca tem um limite, e esse limite chama-se exercício da cidadania.

 

Recordo as palavras de um Primeiro-Ministro que, perante a contestação a uma medida, e a exigência de uma tomada de posição, respondeu cinicamente que a maior e mais poderosa entidade fiscalizadora de um Governo era o conjunto dos seus cidadãos. Responder neste tom quase bolivariano é conhecer o eleitorado e perceber que o chinfrim não trará resultados. É conhecer um povo apático e facilmente manipulável e incapaz de se fazer ouvir. É varrer a existência de todas as instituições de controlo e colocer esse controlo em algo ou alguém que nunca o fará.

 

Ao longo dos últimos tempos, temos também assistido a episódios que nos fazem pensar se o simples facto de podermos ter esquemas, conhecer as pessoas certas, poder contrair crédito a torto e a direito e possuirmos um Estado paternalista que tudo nos dá (enquanto tudo nos tira), justifica alguns atentados a que temos assistido. Aparentemente sim…

 

Neste estado das coisas, encontramos partidos políticos de índole comunista e autoritária a poderem realizar festas e encontros com milhares de pessoas achando-se acima da lei enquanto toda a população fica em casa a bater com a cabeça nas paredes. Encontramos também, um sem número de atividades que, desde que carregadas de um certo espírito de propaganda são toleradas e até incentivadas… Se voltarmos atrás, ainda nos recordamos do concerto após o primeiro desconfinamento e que juntou milhares de pessoas no Campo Pequeno, entre elas um Presidente da República e um Primeiro-Ministro, sem esquecer aqueles que dizem gostar de abanar o status quo mas fazem parte de um sistema podre. Alguns deles, os tais que fizeram carreira a gozar com aqueles que agora dizem defender.

 

Mais recentemente, também vimos um país preocupadíssimo com a marquise de um jogador de futebol, mas pouco preocupado com o facto desse mesmo jogador de futebol ter financiado uma importantíssima unidade de cuidados intensivos (UCI). Vimos, inclusive, e ao sabor da onda mediática, um presidente de câmara pop (e pelos vistos intocável) abordar o primeiro facto e não dar atenção ao segundo. O povo não vota a pensar em UCI, mas a pensar em como é que se hão-de tramar os ricos. É este mesmo povo que acha perfeitamente normal que um Presidente de Câmara (Selminho para os amigos) aceite as ocorrências do passado fim-de-semana, ou não fosse ele também um herdeiro daquele que é talvez o maior poder no Porto: a sua Associação Comercial. Foi também nesta lógica que vimos um Presidente do Turismo do Porto e Norte a achar que o turismo já precisava e que, por isso, tudo devemos tolerar... O povo é estúpido, e o turismo precisa de dinheiro, logo, vamos esquecer tudo o que aprendemos. Numa época em que se fala em reset, um reset em certos cargos era uma salvação eterna. Deixo uma nota: se investissemos mediáticamente, 5% (só 5%) do tempo que investimos em deitar abaixo um Trump ou até um Boris Johnson em despertar cidadãos e talvez as coisas fossem bem diferentes... e por falar em atentados urbanísticos... E... uma marquise? O que não falta em Portugal são atentados urbanísticos, alguns deles com fundações de corrupção... Interessante que no caso da marquise ninguém falou do edifício em si que, já por si, é um autêntico mamarracho.

 

Dá que pensar, porque é que se multam pessoas que comem uma bucha dentro do carro, que andam na praia sem máscara ou que simplesmente comem umas gomas, já para não falar em idosos multados por tomarem o pequeno-almoço e… E se permite que Lisboa se transforme numa enchente de gente a festejar um título de futebol e ainda se ache no direito de atacar a Polícia… Polícia, mais uma vez, que ficou mal na fotografia, muito por culpa de um Governo bolivariano que para aí remeteu as responsabildiades da sua incapacidade de planear. Uma espécie de aprendizes de Pablo Iglesias que defendem o fim da autoridade mas não hesitam em chamar essa mesma autoridade para junto de si quando é importante garantir que ninguém nos rouba o microfone ou perde a cabeça e nos quer ver estendidos no chão.

 

A juntar a tudo isto, somos também o fornecedor em outsourcing, de espaço para jogos de futebol que outros não querem ter e ainda de quintal para um sem número de delinquentes que chegam a Portugal com a ideia de impunidade. Depois de meses, e em breve quase que poderemos falar em anos, a utilizar máscara, a não consumir bebidas alcoólicas na rua e mais um sem número de restrições, abrimos a porta para que meia dúzia o possa fazer a dobrar e sob o olhar condescendente das autoridades que, alegadamente, nem ordens tiveram para sensibilizar quanto mais intervir. Por estes meses, não tem sido fácil ser Polícia e ir contra tudo aquilo que se jurou defender. E se no meio disso não dispusermos de equipamento e acabarmos feridos gravemente num hospital, é motivo para pensar se não é altura de escolher outra profissão, porque nem todos têm estofo para serem apenas guarda pretoriana e lacaios da propaganda e da cedência a máfias futebolísticas.

 

Vamos permitindo que tudo aconteça, que se minta à descarada e ainda nos sintamos bem numa espécie de ditadura democrática… Para tal, muitos vão também contribuindo com a cacofonia e histerismo temporário das redes sociais e em alguns casos tenham a lata de dizer que, quem levanta a voz contra as suas ideias de pensamento único (agora alicerçadas em três frentes: racismo, homossexualidade, feminismo) é fraco, ultrapassado e não abana o status quo. Lembro-me que o abanar do status quo alicerçado numa vontade que não é o bem dos cidadãos acabou com milhões de indivíduos, em diferentes localizações, a arder em crematórios ou serem compostos em valas comuns. 

 

Entretanto, por cá, vamos deixando que nos cuspam na cara e ainda esboçamos um sorriso de satisfação… Afinal, desde que possamos encher centros comerciais, garagens e tudo o mais, o resto pode esperar. Dancemos e celebremos a ruína democrática, até ao dia em que…

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Para quem quiser ler: falando de crises democráticas, uma leitura interessante é o livro de David Runciman, "How Democracy Ends". Dá-nos uma visão clara dos problemas e de como o foco de união e da própria democracia se voltou, apontando também as suas ameças. Entre concordâncias e discordâncias, merece a leitura atenta.

Para quem quiser ouvir: Trago uma banda sonora de luxo para um filme de luxo. "The End of Affair" por Michael Nyman, é daquelas bandas sonoras que só poderiam acompanhar um bom filme onde Ralph Fiennes e Julianne Moore estiveram em grande. "Love Doesn't End" é a minha proposta para acabar a noite entre um branco e algumas memórias.

Para quem quiser comer e beber: em Alcochete existe um cantinho com gente boa e serviço ainda em estilo taberna mas dotado de uma simpatia tremenda. O "Alternativa" junta a paixão de um ribatejano com a alma de uma são-tomense. O resultado não poderia ser melhor... Miminhos de Touro Bravo, a Moqueca, a Cachupa e claro... Uma Moamba de Amendoim daquelas, simplesmente divinal. O Sr. Paulo e a D. Fachica estarão lá para vos receber, então quando existem noites africanas... Maravilha.

Para quem quiser assistir: Estes dias por Madrid têm dado para ir dando uma volta pelos teatros. "Levante", de Carmen Losa, é uma daqueles peças que nos são reais. Que nos colocam perante a realidade sem holofotes e nos trazem um pouco da memória do passado e daqueles que ainda hoje nos influenciam. A não perder, no Teatro Español.

Para quem não tiver que fazer:um jamón de bellota e uma botella de Montalegre Superior BrancoAo início estranha-se, mas depois entranha-se. Para fugir à rotina das planícies.

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