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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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11.06.24

A Construção de uma Estratégia para a Paz começa por uma Estratégia para a Memória


Bruno

 

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Imagem: Bruno Nunes dos Santos - Imperial War Museum - Londres

 

Aquele que não tem memória faz uma de papel.

Gabriel García Márquez, in "Crónica de uma Morte Anunciada"

 

Chegamos a 2024, ano em que celebramos 80 anos do Desembarque da Normandia em breve recordaremos os 110 anos do início da Primeira Guerra Mundial, encontramos o mundo repleto de tensões e conflitos. Deparamo-nos com um mundo profundamente polarizado. Por muito menos, no passado, tivemos autênticas chacinas e nunca assistimos a tantos instrumentos da liberdade e da verdade a promoverem essa mesma polarização e desejo de conflito a troco de audiências, likes, prémios ou até um salário ao fim do mês e a promoção a vedeta.

 

A nossa memória, infelizmente nem sempre utilizada da melhor forma (ou até nem sequer trabalhada), é uma ferramenta grandiosa que pode não só moldar as nossas perspectivas mas também influenciar as nossas relações. Desempenha um papel de extrema importância na forma como se harmoniza a nossa consciência colectiva e também como desenvolvemos caminhos que levem  à paz e à cidadania. Para lá da questão mais conceptual, a memória não é apenas uma experiência individual, é também colectiva. E é nessa transição que muitos problemas terminam… Ou começam.

 

Temos de olhar a História, ou até iria mais longe, o convívio ao longo de séculos ou até milénios, de uma forma que não perpetue o ressentimento, a amargura e o esquecimento. A memória é uma força poderosíssima no estabelecimento de perspectivas e relações não só praticando uma espécie de empatia e perdão, mas também numa lógica de seguirmos em frente com as lições do passado, as boas e as más. E isto é algo que serve inclusive para muitos desafios do nosso quotidiano.

 

Em jeito de aparte, é também imperativo atentar que a conjectura no século XVII não é a realidade de hoje. Podemos condenar mas não podemos culpar. Duvido que muitos dos que atacam determinadas práticas hoje, se nascidos nessa época, não teriam sido actores principais em algumas dessas mesmas práticas - além de que a minha memória histórica já me ensinou que muitos dos defensores do bem, quando dotados de alguma influência ou poder, acabam transformados em autênticos tiranos. Uma espécie de “síndrome do ditador” que surge sempre como o paladino da liberdade e do mundo melhor até os cadáveres começarem a amontoar-se.

 

Na realidade, a estratégia para a memória tem de sair da academia, dos livros de auto-ajuda (normalmente tenebrosos) e ser trabalhada com e pelos cidadãos, sobretudo os mais jovens, em casa e nas escolas - é aí que também entra a memória institucional. É preciso promover o direito a recordar, porque até esse permite que exista a liberdade então para esquecer. Mesmo que o ensino seja obviamente influenciado pelo país que o ministra, tal não impede que não deixemos espaço para se pensar o passado, quanto mais não sejam os nossos avós ou bisavós que tombaram nas praias francesas e por toda essa Europa, África e Ásia, cada vez mais para nada ou para termos uma sociedade que se tornou tão apática e mentalmente absorvida pelo conforto. É importante explicar, assumir erros e seguir em frente, não podemos é cair nesse alívio de não pensar, de não questionar, de não equacionar.

 

Porventura estejamos no tempo de trabalharmos as causas do conflito, o conceito de “memória colectiva”, o diálogo intergeracional, a verdade, o perdão - ou no mínimo a reconciliação - e partilhar experiências sem tabus e sem pólos que intelectualmente não têm a minima abertura para outro, embora ostentem as bandeiras contrárias. Estimular a curiosidade pode ser também uma das abordagens mais relevantes. Ao invés de trabalharmos uma quase cultura e ensino de oposição podemos encetar uma cultura de curiosidade. Incentivar essa intromissão, sem limites e sem receios. 

 

Ao contrário daqueles que no seu confortável gabinete de crise, e na sua loucura por jogos de guerra dizem que todos devemos morrer em prol da paz, acredito que o discurso deve ser bastante diferente, numa lógica de aproximação e de conhecimento, não esquecendo a preparação para o combate, aliás sou daqueles que defende que a mesma deveria ser obrigatória e começar muito cedo com coisas básicas como pequenas tácticas de sobrevivência. E sim, devemos estar preparados para a guerra e para qualquer tipo de desastre. Cada um de nós deve estar preparado para ser um soldado e também um agente de proteção civil, mas também aqueles que têm o poder da diplomacia, a devem utilizar bem e esgotar até não ser possível mais diálogo, mesmo que isso implique perda de votos ou quedas de popularidade.

 

Infelizmente, assistimos a tentativas de deturpação da memória, a um paradoxal incremento do caos que camufla a sua atividade com causas aparentemente nobres - um pouco como um certo sindicalismo extremista que numa fábrica onde não existem conflitos, os incentiva, os procura e até cria inimigos invisíveis - também a memória é, e passo a expressão, um pau de dois bicos. Se por um lado pode ser utilizada para promover a paz, também pode ser utilizada para dividir e promover o caos e ultimamente, nas poucas vezes que é chamada, é a isso que assistimos.

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Para ler: muitas vezes aqui o citei, por isso nada como uma passagem por Raúl Brandão e "A Farsa". E como diria o próprio nessa mesma obra, nada mais digo porque "não é com palavras que comunicamos o que em nós há de melhor".

Para ouvir: falando em memória, e porque muitas das ideias que partilho depois daquele risquinho lá em cima, surgem no momento, só consigo trazer alguém que ainda tive a sorte de ouvir ao vivo: Rachid Taha, e entre muitos o inconfundível "Ya Rayah" e como estou em modo pós-feriado, o mítico"Écoute-moi Camarade".

Para ver: quem tiver tempo, a Al Jazeera é das poucas que está atenta a uma região cujos conflitos não cessam e se prolongam inclusive com efeitos também na Europa. Algumas dessas brilhantes peças estão online, destaco um bem pesado "Rare access inside on of the world's longest running conflicts - Witness Documentary".

Para viver: na semana transacta foram as festas de Santo António (que continuam), esta semana fica o convite para o São João em Braga. Tradicional e começa já a partir de dia 14, logo a seguir ao dia de Santo António. Divirtam-se!

Para comer e beber: perto de Braga, em Santo Tirso, junto às piscina, o "15". Preços equilibrados e comida boa. Os anos em Setúbal, deixaram marcas muito boas e por isso, o "Piloto Collection Síria" da Quinta do Piloto, em Palmela, é o néctar ideal para acompanhar um bom peixe grelhado ao almoço ou nos fabulosos fins de tarde que agora aí estão.

 

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