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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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15.04.20

A cultura, os artistas, os arteiros e a caravana que não passa


Sarin

 

15 de Abril. Descobri há poucas horas ser este o dia proclamado pela UNESCO como o Dia Mundial da Arte. Horas antes de o saber, havia decidido falar sobre arte, sobre cultura, sobre artistas. E também sobre arteiros. Há coincidências.

 

Sobre arte e cultura

O TV Fest passou-me ao lado, e com ele a polémica. Mas depois tropecei nisto tudo. 

Pelo que percebi, o Governo disponibilizou 1M€ para um conteúdo televisivo com 120 artistas e respectivo pessoal técnico. Júlio Isidro convidava quatro artistas, cada um destes convidaria um outro, e assim por diante até perfazer os tais 120 artistas, numa emissão de 4 programas diários durante 30 dias. O objectivo seria não apenas auxiliar os artistas E (atenção ao E) pessoal técnico, mas também criar conteúdo para a RTP e promover a música portuguesa.

O TV Fest não avançou.

 

Sobre os arteiros

Porque uns não gostaram do sistema de convite. Porque outros não gostaram que a medida não abrangesse todos os músicos e técnicos. Porque alguns outros qualquer coisa. Houve até uma petição que, algures no texto, dizia "Não cabe ao Estado criar eventos de cultura".

E foi aqui, é aqui, que entro na discussão. Porque há quem queira que as leis de mercado nos entrem pela cultura, pela educação, até pela saúde. Mas as leis de mercado não são leis de mercado, são leis da selva - e a cultura é um direito de todos os cidadãos. Está na Declaração Universal dos Direitos do Homem, art.º 27º  e está na Constituição da República Portuguesa, art.º 73. A cultura é para todos, não apenas para quem tem dinheiro - e por isso, sim, é matéria do Estado.

E, estando na DUDH e na CRP,  está também na Lei da Televisão, art.º 51º e nos Estatutos da RTP. Chama-se Serviço Público de Televisão. A RTP, enquanto canal financiado pelo Estado, tem como missão, entre outras, divulgar a cultura portuguesa.

Enfim, poderiam discutir a justiça ou a injustiça do acesso a tal programa, anunciado também como medida de mitigação das dificuldades que artistas e técnicos ligados às artes do espectáculo sofrem nesta altura. Poderiam e deveriam, pois nada ouvi sobre o teatro, a ópera, o bailado, a escultura ou as artes circenses...

Poderiam e deveriam, pois sendo um conteúdo para televisão de serviço público directamente financiado pelo MC deveria ter regulamento claro e capaz de debelar quaisquer laivos de nepotismo ou compadrio que pudessem ser sugeridos. Poderiam e deveriam, pois nada ouvi sobre o teatro, a ópera, o bailado, a escultura ou as artes circenses...

Poderiam e deveriam, pois a arte e a cultura devem ser financiados, mas o Estado deve criar mecanismos que não beneficiem umas artes em detrimento de outras. Poderiam e deveriam, pois nada ouvi sobre o teatro, a ópera, o bailado, a escultura ou as artes circenses... acho que já deu para perceber.

Poderiam e deveriam, pois se se pretende defender o património cultural português num canal da televisão portuguesa porque se daria um nome estrangeiro a um evento com tal fim?!

Em última análise, poderiam e deveriam, porque todas as decisões do Governo podem ser questionadas quanto aos objectivos e à execução.

O que não poderiam, nem podem, é usar como argumento que Não cabe ao Estado criar eventos culturais. Então e a Expo '98? Então e a XVII Exposição de Arte, Ciência e Cultura? Então e todos os apoios concedidos a eventos culturais por todo o país, desde o Rock In Rio à festa da aldeia? A inveja é uma coisa muito feia. A manipulação da arte e da cultura é-o ainda mais. E a ideia de que só deve ter acesso à arte quem tiver dinheiro para tal, ou de que apenas pode produzir arte quem dela sobreviver, é a visão mercantilista de quem vê na arte e na cultura uma ameaça ao crescimento dos indivíduos - uma ameaça ao seu próprio estado cultural.

 

Sobre um artista

Dia 15 de Abril. Foi divulgado ontem que, no dia 6 de Abril, faleceu João Baptista, baixista fundador dos Café Bagdad e dos Belle Chase Hotel.

Recordo-o aqui no primeiro álbum dos Belle. Fiquem bem. Fiquem com Belle Chase Hotel e Fossanova, de 1998.

 

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