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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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05.05.20

A Descoberta da Pólvora: Teletrabalho.


Robinson Kanes

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Paul Klee - Casa Giratória (Thyssen-Bornemisza Museo Nacional)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

As ideias só mudam o mundo quando mudam também os nossos comportamentos.

Yural Noah Harari, in "Homo Deus".

 

 

Enquanto muitos profissionais da área ainda não perceberam a diferença entre Teletrabalho (TT) e Trabalho Remoto/Remote Work (TR/RW), não deixa de ser interessante ver como também muitos profissionais de recursos humanos têm delirado com a prática do primeiro, como estão tão empolgados e felizes com esta nova modalidade que é nova e cool, tão para lá... Desmistificação número um: teletrabalho já tem mais tempo de vida que a maioria destes profissionais.

 

Tem sido um espectáculo virtuoso ver como o TT tem sido defendido e elogiado por aqueles que há meia-dúzia de dias eram contra, em como o TT era um óbice ao crescimento e desenvolvimento dos colaboradores. Estes indivíduos não concebiam o conceito na prática, ou então, pura e simplesmente, padeciam daquela incapacidade de olhar para a frente. É um exemplo claro de que nem todos podem exercer em modo de TT, mas também é um realista afirmar que organizações empresariais (e não só) dignas desse nome há muito que o praticam a par do TR. Entretanto, todos descobrimos a pólvora. Soltem os estandartes... 

 

Os mesmos que hoje escrevem artigos, fazem webinars (mais uma descoberta com dias...) e vociferam a apologia de tais práticas, são os mesmos que há pouco mais de meia dúzia de anos, sentados em diferentes pontos do Centro de Congressos de Estoril, numa daquelas conferências onde se fala sobre o mesmo, com os mesmos mas sempre sem grandes conclusões, riram de quem defendia esta prática. Nestas coisas, a verdade é que a única coisa que realmente se conquista é a coxinha de frango e o rissol de miolo camarão, uns sacos de pano com umas canetas, uns blocos e a oportunidade de fazer networking... com os mesmos de sempre. Também os estagiários e os que sonham um dia passar de técnico admin a técnico de compensation & benefits sempre podem tirar aquela foto para o LinkedIn, ou então só ao "crachá" da praxe (esta última foto é sempre importante para mostrar que se esteve mesmo lá, não raras vezes, mesmo não estando). Por falar nisso, muitos são os que já estão a pensar em voltar a mexer num curriculum vitae porque este ano podem não existir fotos na Web Summit.

 

São os mesmos que desdenharam de um indivíduo holandês que defendeu o TT e o TR na integra ou parcialmente, apresentando o exemplo da sua organização, de outras organizações e explicando como é possível conciliar o trabalho presencial e o remote. Na verdade, o riso de hiena foi enorme, e até as perguntas colocadas deixaram muito a desejar: "acha que em Portugal isso é possível, na nossa cultura?", ou então, e perdoem não poder reflectir na integra a questão porque o inglês de um alto responsável de uma empresa portuguesa era péssimo, "isso em Portugal nunca vai resultar, como é que você consegue fazer isso e ganhar dinheiro?".

 

No entanto, onde existem hienas também existem gnus, e foi na plateia que ouvi a melhor de todas, de duas jovens profissionais, daquelas que limitam o trabalho de recursos humanos ao "picar o ponto": "e como é que se controlam as pessoas?". Não, a culpa nem sempre é do manager ou do diretor, a história de que más pessoas significam um mau manager só fica bem na academia ou em artigos sobre liderança ultrapassados. Perante uma exposição estratégica de factos, a grande preocupação destas profissionais era o controlo dos colegas. Resultados? Não, isso é acessório! Talvez seja tentado a pensar como Tagore quando nos dizia que o objectivo do homem não passava pela verdade mas somente pelo êxito, com todas as consequências que se tiram dessa forma de estar.

 

Todavia, foi logo à saída desse painel que dei comigo a observar um ajuntamento (sim, na altura era possível) e pensei nas ofertas que ali estariam ou, vendo os outros stands vazios, que estava por lá alguém importante a falar, ou quiçá, alguém a distribuir uns pregos à Mercado da Figueira.  Nenhuma dessas coisas...

 

Desbravando a densa floresta, dei comigo a encarar um stand de uma empresa que se dedicava à comercialização de dispositivos de registo de entradas e saídas e onde se fazia uma demonstração única no mundo, singular e digna de estar com acesso pago na internet se ainda existirem registos: passar o dedo e ouvir o som do registo!... Brilhante!

 

De uma forma muito breve:

Teletrabalho: para pessoas com algumas responsabilidades, pessoas ao cuidado, ou simplesmente como forma de flexibilizar o trabalho, é possível usufruir da modalidade de teletrabalho. Teletrabalho, não significa estar preso a uma secretária. Pode-se sair para um café ou até para trabalhar num outro local.

 

Trabalho Remoto: enquanto o teletrabalho se centraliza mais em casa, trabalhar remotamente significa não estar em casa. Pode ser trabalhar num lugar público, num espaço de coworking, numa biblioteca e inclusive com outras pessoas. Os horários são mais flexíveis e o nine to five não é escrupulosamente a regra.

 

Mais do que uma coisa ou outra, o importante é existir um balanço entre todas as modalidades e acima de tudo, deter as soft skills necessárias aos profissionais que optam ou são levados a optar pelas mesmas. Caso contrário, é pura perda de tempo, porque nas modalidades de teletrabalho ou remote, nem toda a gente está preparada para o desafio.

 

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