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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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07.08.20

A poça e o carvão.


JB

 

A analogia da poça de Douglas Adams, adaptada por mim:

A noite era escura e chovia torrencialmente. As nuvens cinzentas trovejavam e apenas os relâmpagos iluminavam os céus. Em baixo a terra transformava-se em lama e os riachos em rios.

A tempestade acaba. Amanhece.

 

O sol brilha indiferente à tempestade da noite anterior. O céu está límpido e sem nuvens à vista. No chão a terra, uma poça de àgua.

 

Uma poça que de repente ganha consciência. Que olha para o seu mundo e fica fascinada. O céu belo como uma pintura, a temperatura perfeita e a brisa refrescante. A poça, já completamente consciente olha à sua volta, e pensa: - Caramba, que perfeição, este buraco no chão onde estou, é mesmo à minha medida. Se fosse maior eu ficaria muito pequena e nem chegava à borda, se fosse mais pequeno, nem sequer caberia aqui. Certamente isto não é um acaso.

 

A analogia das probabilidades do meu avô Pedro, adaptada por mim:

Não aconteceu, mas podia ter acontecido.
Eram outros tempos, não havia internet. A electricidade uma descoberta recente e os comboios ainda eram a carvão.

Um comboio a vapor, avançava ruidosamente pelos trilhos de ferro.
Nesse dia, pela primeira vez em toda a sua existência, Ayatollah Khomeini saía da sua reclusão e decidiu andar de comboio. Toda a sua vida foi passada em isolamento total, a vida que tinha pela frente seria igual. Decidiu, por uma única e irrepetível vez, sair. Andar num comboio a vapor.

Assim foi, saiu sem dizer a ninguém e decidiu entrar numa carruagem. A meio da viagem, deslumbrado pela paisagem, decidiu por a cabeça de fora e ver a vista.

Ora se imaginarmos que tudo isto aconteceu, será natural imaginar que nessa altura, em que pôs a cabeça de fora e espreitou pela janela da carruagem, seria bastante previsível  que num comboio a deitar vapor pela chaminé, uma partícula desse vapor entrasse no olho do próprio Ayatollah Khomeini. Podia acontecer a qualquer um e seria muito provável que isto acontecesse. 
Qual seria então a probabilidade da partícula de carvão, uma no meio de biliões de outras partículas, de entrar no olho do homem mais resguardado do mundo, enquanto este espreita numa janela na sua única e irrepetível viagem?

Se essa partícula, à semelhança da nossa poça, ganhasse consciência, o que pensaria?

 

JB

 

 

 

 

 

 

 

 

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