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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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13.07.21

Afeganistão... 20 Anos...


Robinson Kanes

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Imagem: Robinson Kanes

Quanto a mim, aprendi uma coisa singela: que tudo esperamos da liberdade, de imediato, e são necessários muitos mortos para fazer avançar o homem um centímetro.

André Malraux, in "Esperança"

 

 

Passaram 20 anos desde que, a pretexto dos ataques terroristas do 11 de Setembro de 2011, o Afeganistão foi invadido por uma coligação internacional liderada pela NATO e fortemente influenciada pelos Estados Unidos e Reino Unido. Portugal foi presença activa e não podemos esquecer a famosa cimeira feita à pressa nas Lajes. Também não podemos esquecer, e já que falamos de Portugal, do excelente trabalho das tropas portuguesas no terreno, com uma especial menção ao Batalhão de Comandos.

 

Por aqueles dias, foram muitos os que acharam a invasão um erro histórico e também muitos que, levados pelo desejo de vingança, acharam que a invasão daquele país apenas por causa de um homem justificava todos os meios empreendidos. Acabou por ser irónico que Osama Bin Laden acabasse capturado no Paquistão, um país aliado dos Estados Unidos... Aliado com muitas aspas e com uma intervenção que os americanos não comunicaram ao país "amigo". Estrategicamente foi a melhor forma de capturar o cavalheiro, reconheçamos, caso contrário...

 

O Afeganistão é um país de pó! País de terra e de deserto de perder de vista. É também um país de gente boa, hostilizada pelo tempo e séculos e mais séculos de combate e privações. Uma hora naquela terra e temos o pó a entupir-nos o nariz, a terra a comer-nos os lábios, as pedras a acabarem-nos com as botas mas... Que país fantástico onde a aridez e o agreste clima são de uma beleza inexplicável. Os afegãos, por seu lado, são defensivos, mas amam o seu país como ninguém e foram talvez, para o bem e para o mal, o único país que fez vergar grandes impérios ao longo da História, desde os tempos de Alexandre, Máuria e Gengis khan, sem esquecer os britânicos, os soviéticos e mais recentemente, "todo" o Ocidente.

 

Todavia, e passadas 241 000 mortes ( aproximadamente 71 000 mortes civis - entre afegãos e paquistaneses) que incluem pessoal humanitário, militares, jornalistas. E passados vários presidentes norte-americanos onde se destacou o pacifista e prémio Nobel que prometeu a retirada, Barack Obama - os Nobel da paz, andam a ser muito mal atribuidos: Kofi Annan, o próprio Obama, Abiy Ahmed são apenas "bons" exemplos - a questão que fica por fazer é: valeu a pena? Muitas coisas melhoraram, mas será que o país que paga a um professor 50 dólares por mês; onde uma em oito mulheres morre porque numa sociedade patriarcal pode não ser permitido ir ao hospital; onde as crianças soldado e a exploração infantil são factos absolutamente normais pode dizer que beneficiou da intervenção estrangeira? Será que os custos, e nem me referi aos custos económicos, valeram a pena? O Afeganistão, como outros, não faz cair estátuas, mas no mínimo merece atenção neste cálculo que custou a vida a muitos ocidentais, para já não falar nos custos em termos de impostos.

 

Estará o Afeganistão transformado num país melhor, onde a constante retirada de tropas estrangeiras tem feito aumentar as conquistas de território por parte dos talibans que só ainda não ocupam mais territórios devido `ausência de equipamento bélico aéreo? Os Talibans vão capturando armamento altamente avançado (tanques, artilharia, armamento ligeiro e pesado, explosivos...) e vão com isso (mesmo permitindo uma margem para o facto de não saberem utilizar o mesmo) também ameaçando a paz de um país que nunca chegou propriamente a viver em paz. A Ocidente a mensagem que passa é a de que estes Talibans são grupos insurgentes, minimizando a capacidade bélica dos mesmos... Até o poderiam ser, mas se apoiaram Bin Laden e lançaram o Ocidente num caos do qual ainda não recuperou, não são propriamente um grupo de maus rapazes a disparar pistolas de alarme. São os mesmo insurgentes que têm levado a que as fronteiras com Tajiquistão estejam a entupir e que grandes pontos estratégicos como Kandahar estejam ameaçados. A verdade é que, afinal, aquele pó e aquele país sem nada, não é só um monte de rochas e areia, é um ponto estratégico fundamental na região, sobretudo pela sua localização.

 

Uma morte, nunca merece a pena... Famílias sem saberem onde os filhos se fizeram em cacos, famílias que perderam os seus às mãos de terroristas locais e tropas estrangeiras, mulheres, crianças e homens que não podem pensar no mais logo, fará no amanhã... Valeu a pena? Não! Devemos pensar nisto, até porque a guerra traz proveitos e países como a China podem estar lá para "ajudar"... E também já sabemos como essa "ajuda" sai sempre cara, inclusive para os que se deixam guiar pelos grandes arquitectos da Nova Rota da Seda.

 

Enquanto isso, o Afeganistão está mais tenso que nunca e é mais um daqueles casos que nos faz perder a esperança no ser humano... Abandonam-se bases de um dia para o outro como foi o caso de Bagram, e também um país mergulhado no fundamentalismo e na corrupção, sendo que só voltará a ser notícia quando alguém se lembrar de desafiar aquele árido e agreste território. Até lá... Até lá, será mais uma Síria e tantos outros exemplos que não nos devem incomodar na nossa vida alegadamente perfeita e onde vale mais um gossip ou um idiota a fazer vídeos igualmente idiotas na internet.

 

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Para quem quiser assistir: é desta que não perco "O Senhor Ibrahim e as Flores do Corão" de Eric-Emmanuel Schmit. Vai estar no Meridional e antes de voltar a deixar Lisboa, lá passarei.

Para quem quiser ler: "Na Tua Face"do grande mestre Vergílio Ferreira. Nunca me cansarei de exaltar este grande escritor que me acompanha sempre! Foi o que me calhou, e neste caso sou Daniel.

Para quem quiser comer e beber: O Páteo Real em Alter do Chão nunca desilude e é paragem obrigatória quando ando por aquelas bandas. Comida rápida, simpatia e boas carnes com umas migas de comer e chorar por mais, sobretudo as de espargos. A comida lá é boa e pronto, palavras para quê, o melhor que o Alto Alentejo tem para oferecer numa localidade belíssima! Para beber, chegou esta semana um Viña Ardanza Reserva 2012.  O vinho é bom e pronto, com bacalhau cozido ou assado é maravilhoso e com borrego então... Uma maravilha das La Rioja Alta. Também paragem obrigatória em Haro, antes de Logroño.

Para quem quiser ouvir: Madrugadaé banda para nos acompanhar ao final da tarde entre um Martini com o limão e gelo e talvez um pincho leve. Transportar o copo e estar na varanda ou no terraço, simplesmente a estar... Honey Bee e Stories from the Streets...

 

 

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