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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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17.11.20

África: Um Continente em Colapso...


Robinson Kanes

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Créditos:https://qz.com/africa/808434/student-protests-for-free-university-education-in-south-africa-are-intensifying-with-no-end-in-sight/

 

 

Our fathers fought bravely. But do you know the biggest weapon unleashed by the enemy against them? It was not the Maxim gun. It was a division among them. Why? Because people united in faith are stronger than the bomb.

Ngũgĩ wa Thiong'o, in "A Grain of Wheat"

 

Em tempos de pandemia, eleições nos Estados Unidos e André Ventura, em África, um continente altamente vulnerável politicamente, muitos são aqueles que aproveitam as atenções do mundo e as novas prioridades políticas para empreenderem algumas "liberdades" que ameaçam colocar em risco toda a região. Perdoem-me os lansquenetes que confundem ter mundo com digerir tudo aquilo que lhes chega pela televisão, mas é importante debater este tema na semana do Dia Internacional para a Tolerância.

 

A Portugal têm chegado algumas notícias de Cabo Delgado que nos deveriam envergonhar a todos. No que é tornado público, Portugal e a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP)  têm sido ultrapassados na preocupação por uma Commonwealth que tem alertado frequentemente para a escalada da violência na região, até porque a a alta voltagem também existe do lado de lá da fronteira, na África do Sul.

 

Todavia, o barril de pólvora africano não cessa de se alimentar e até alguns países que nos últimos anos têm vindo a cimentar a Democracia e a crescer economicamente se encontram em risco de colapso.

 

Recentemente foi a Zâmbia, que não é só "Victoria Falls", e que com uma dívida de 120% do Produto Interno Bruto, viu o seu presidente Edgar Lungu prender o líder da oposição e alguns dos seus apoiantes. Um país lindíssimo mas que atravessa frequentemente graves secas arrisca-se a uma guerra civil que pode eclodir a qualquer momento, até porque a vizinhança com o Zimbabwe também tem que se lhe diga. Se tivermos em conta que a Zâmbia ainda faz fronteira com Angola (em crescente tensão) e com o já referido Moçambique, podemos imaginar o cocktail.

 

Mas existe ainda outro país que faz fronteira com a Zâmbia e foi, nos últimos anos, um exemplo de crescimento e democracia na região: a Tanzânia - que também não é só safaris e Zanzibar. Por lá, é John Magufuli que obteve 84,34% dos votos numa reeleição marcada por fraude e afastamento dos observadores internacionais das urnas. Magufuli, que no primeiro mandato conseguiu 58% dos votos e encetou um caminho de limitação das liberdades fundamentais e ataques à oposição, jamais poderia ter vencido com esta margem num país de gente inteligente como a Tanzânia. Os Estados Unidos e a União Europeia reconheceram estes resultados como fraudulentos e um claro atentado à Democracia.

 

Também o Ruanda faz fronteira com a Tanzânia e sobre isso já tive oportunidade de falar ontem aqui. Juntemos a República Centro Africana (onde estão soldados portugueses), a República Democrática do Congo e o Sudão do Sul e já temos mais de metade de um continente em erupção. E ainda só nos debatemos em países que fazem fronteira uns com os outros - além de que estou a evitar o eixo atlântico, onde Costa do Marfim; Guiné Bissau (tomada pelo fundamentalismo Islâmico); Guiné Equatorial (a orgulhosa ditadura da CPLP); Serra Leoa (os diamantes de sangue) e a Nigéria (onde se abatem jovens na rua como se apanha azeitona). Como falamos das "Guinés", na Guiné-Conacri é a eleição de Alpha Condé que já se salda em mais de 30 mortos apenas porque disseram não à ilegalidade da mesma.

 

Deixo a minha última palavra para um território notável e que está prestes a deixar de ser um dos melhores exemplos de crescimento em África - a Etiópia. O segundo país mais populoso de África encontra-se a braços com um cenário de guerra civil entre as tropas governamentais e os rebeldes de Tigray - que já chegaram a Asmara, capital da Eritreia, onde bombarderam o aeroporto. No país onde o presidente venceu um Prémio Nobel da Paz, existem relatos (e para já são apenas isso, embora a União Europeia esteja empenhada numa investigação) de crimes de guerra. 

 

E por aqui poderíamos continuar subindo pela Líbia, Argélia e descer à Mauritânia e mais um sem número de países, sem esquecer o tenso Sael. Uma situação destas noutro continente já teria feito eclodir uma Guerra Mundial ou um conflito regional extremamente severo. Todavia, a América do Sul está a atravessar uma situação semelhante com as tensões na Venezuela e no Perú a subirem de tom. Se tivermos em conta que no Brasil existe Bolsonaro (e também os Lulistas) e a Argentina está à beira de um ataque de nervos... Já não falemos do sempre caótico médio-oriente e da mais recente guerra na Eurásia que opôs a Arménia ao Azerbeijão.

 

Tempos difíceis se avizinham num mundo dito civilizado, centrado apenas numa pandemia e em ver quem aparece mais... Nesta sociedade pós-moderna, a Europa e os Estados Unidos já não conseguem ficar fechados sobre si próprios, até porque, especialmente a primeira, ela própria se encontra em risco de colapso. E até podemos pensar que é lá longe, que é uma preocupação de poucos, todavia, muitas das ondas de choque já se fazem sentir há muito, nomeadamente o terrorismo islâmico (que não vem só do médio-oriente) e os migrantes que todos os dias tentam entrar num continente que já não tem capacidade para os acolher e cedem ao engodo de traficantes e organizações não-governamentais que têm também aqui um lucrativo negócio.

3 comentários

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    Robinson Kanes 17.11.2020

    Bem metida... :-)
    Na minha opinião, forçosamente virá, para o bem ou para o mal, mas tem de vir... Até porque se não vier, aí será mau em todos os aspectos. Infelizmente, algumas gerações e expedientes continuam a agarrar-se aos tempos da prosperidade com todas as unhas e dentes que têm...
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    Cecília 17.11.2020

    (estava mesmo :) acho que só assim consegui ler o texto sem me doer o peito) 


    acredito que virá - a change - precisamente pela citação que selecionou: Because people united in faith are stronger than the bomb. as novas gerações, em África, começam a ser unidas não só pela fé e cultura (coisa que envergonha a qualquer jovem europeu pró em manif) mas também pelo nível de educação e conhecimento que felizmente já começa a ter algum peso na sociedade. 
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