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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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01.07.22

Ainda acerca do debate sobre o aborto


JB


 Sou visceralmente contra o aborto.

 Acho que ninguém é a favor. É sempre uma situação triste em qualquer circunstância, pelo menos nisso toda a gente concorda. 
 O problema vem a seguir, certas pessoas são tanto contra o aborto que o querem criminalizar, outras pessoas (como é o meu caso) são ainda mais visceralmente contra obrigar uma mulher ou menina a levar até ao fim uma gravidez que não é desejada. Simples assim.

 Acho que existem pessoas bem intencionadas dos dois lados do debate, em última análise trata-se de uma questão de empatia. As que querem que o aborto seja um crime têm mais empatia pela vida de um embrião que se está a formar e as que acham que deve ser descriminalizado têm mais empatia pela vida da potencial mãe. 
 Bem sei que a situação não é igual aos olhos daqueles que acreditam que um embrião já é um bebé. Eu acho que não é, um embrião com 10 semanas ainda nem é considerado um feto cientificamente, isso é só apartir das 12 semanas. 
É assim em Portugal, o aborto voluntário foi legalizado num referendo em 2007 e desde essa altura é permitido até à décima semana de gestação se a mulher assim decidir e sem ter que dar nenhuma justificação. Pode recorrer ao serviço Nacional de saúde ou a alguma clínica privada; e para mim assim está certo.

 Nos Estados Unidos a mulher tinha esse direito até as 20 semanas de gestação o que pode parecer exagerado para alguns mas eu (que não sou biólogo nem cientista) não acho. Nos EUA não existe SNS, muitas mulheres, sobretudo de meios mais pobres, não têm acesso a consultas médicas regulares, não tem informação e demoram mais tempo a aperceber-se da sua nova condição. 

Para além destas questões mais científicas de quando a vida começa existem outras, aquelas que me convenceram realmente a mudar a minha posição de juventude (achei em tempos que o aborto devia ser criminalizado).

 Aquilo que me convenceu realmente foi pensar que se aquela futura criança não é desejada pela própria mãe, pela família que supostamente deveria tratar dela, então não vou ser eu que a vou obrigar. Não vou ser mais "papista que o papa" e dizer que estou mais preocupado com um embrião do que a própria mãe, se ela acha que não tem condições por qualquer motivo, então faça o aborto porque eu depois também não estarei disponível para adotar a criança e não sou hipócrita.

 Só mais uma menção aos dois grandes 'argumentos' que são usados por aqueles que são apologistas da criminalização do aborto (mesmo que não o admitam):

 -  Com a revogação do Roe v Wade eles só estão a dar a liberdade às pessoas para escolherem como querem fazer, só disseram que já não é um direito matar bebés.

 R.: Errado, liberdade era o que as mulheres já tinham, porque não era obrigatório. Agora deram liberdade aos estados mais conservadores de proibirem as mulheres de o fazerem livremente. Acho abominável e sou visceralmente contra.

- Quem quiser pode sempre ir a outro estado. Não proibiram em todos.

  R.: Para além de descriminar economicamente esta resposta é de uma hipocrisia evidente.

Existe um terceiro 'argumento' bastante repetido sobre algo que eu considero um mito urbano mas vale a pena mencionar:

"E as mulheres que usam o aborto como método contraceptivo?"

R.: Não conheço essas mulheres, nunca vi nem conheci ninguém que as viu mas se porventura as houver, devem ser umas desequilibradas e talvez o melhor seja mesmo não terem e muito menos criarem filhos.

Esta é a minha posição, respeito quem não pensa como eu mas acho bastante difícil justificar porquê. Até agora ninguém me convenceu do contrário. Vamos supôr que me dizem que uma pessoa vai morrer se eu não doar um rim, o estado deve ter poder para me obrigar a doar esse rim? A resposta é obviamente que não. Se a pergunta fôr: Um embrião vai morrer se uma mulher não doar o seu tempo, corpo e alma, o estado deve ter poder para a obrigar a levar a gravidez ao fim? Igualmente não; e igualmente óbvio... 

Pelo menos eu estou convencido disso.

JB 

 

 

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