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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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09.06.21

Anjos maus


Sónia Pereira

A escola para onde crianças e adolescentes vão diariamente, onde os nossos filhos passam grande parte do dia, é como um microcosmos, um pequeno mundo, uma sociedade com todas as valências e dinâmicas de uma qualquer sociedade atual. Lá, tal e qual como no dia a dia dos adultos, forças são testadas, subjugações são tentadas, limites são cruzados para se perceber até onde é possível ir e regressar impune e incólume.

O que qualquer pai tem de perceber é que o seu filho, o seu educando, é muito mais do que o seu pequeno príncipe e princesa, o seu anjo impoluto, livre de qualquer pecado. Tal como com qualquer adulto, os nossos rebentos, seres humanos como nós, também são forças geradoras de construção e destruição. Eles têm capacidade para a mentira, para a manipulação, para a agressividade, para a violência, mas também para o altruísmo, a empatia, a solidariedade – como seres sociais em crescimento, é agora que têm de testar os seus limites e daqueles que os rodeiam, sentirem o pulsar do mundo, perceber o impacto das suas ações.

Temos aquelas crianças que se sentem completamente fascinadas pela sensação de poder, poder que é realizado através da intimidação e subjugação de colegas, temos aquelas crianças que, percebendo em si algum tipo de fragilidade que potencialmente as possa desfavorecer, optam por automaticamente passar ao ataque através da humilhação alheia, temos os bandos, o efeito matilha, onde um líder consegue captar para as suas hostes crianças com uma necessidade de integração que as leva a nem sequer questionar comportamentos questionáveis, temos os violentos e os geradores de conflitos através do uso da palavra. E, no fundo, é como nos estarmos a olhar ao espelho e vermos em cada escola uma réplica das nossas sociedades e dos nossos comportamentos sociais.

Mas tal como os adultos, a tentação do poder, da subjugação dos outros através desse poder, pode ter consequências catastróficas e até mesmo irreversíveis a longo prazo. Talvez a escola de hoje não tenha um ambiente mais violento e agressivo do que a de outros tempos, talvez estes comportamentos extremos de algumas crianças sempre lá tenham estado, no entanto esses comportamentos, hoje em dia, têm um impacto que extravasa o recinto escolar, viaja da escola pela internet, pelas redes sociais, conseguindo agredir de novas maneiras. O bullying ganha novas forças de expressão na modernidade e pais e educadores têm de perceber que, embora o crescimento e formas de expressão social sejam normais nas crianças e jovens, ainda assim temos responsabilidade às quais não nos podemos imiscuir, na educação, na modelação de comportamentos para a cidadania dos nossos filhos e educandos.

Olharmos para os nossos filhos é uma forma de nos olharmos ao espelho e alguma coisa será pior do que descobrirmos no nosso reflexo um pequeno ditador, um agressor sem pingo de empatia? Será justificável a nossa desresponsabilização ou mesmo justificação de atos de agressão extremos perpetrados pelos nossos filhos?

Fui crescendo embrulhada no receio da agressão verbal. Os meus óculos fundo de garrafa eram o meu calcanhar de Aquiles. Aprender a reagir, a evitar e a contornar a agressão foram coisas que fui dominando ao longo dos tempos. Inicialmente acho que me “arrapazei” de forma a melhor me integrar no grupo que potencialmente poderia ser mais perigoso (usava o cabelo como eles, brincava as brincadeiras deles), depois cheguei mesmo a vias de agressão àqueles que me diziam alguma coisa que me diminuía. Não posso dizer que tenha sido infeliz, acho que me adaptei às circunstâncias. E mesmo ouvindo alguns insultos inconfessáveis, achava que tudo aquilo era normal, parte integrante da vida, um efeito secundário de ter nascido fortemente míope e estrábica.

Como li em alguns comentários às últimas notícias sobre o bullying, a agressão enrijece os miúdos, transforma-os em adultos fortes, prontos para todos os cenários da vida. E se, por um lado isso é verdade, a nossa inação no que à educação dos nossos filhos diz respeito também poderá ter implicações muito negativas, que poderão chegar a extremos como a depressão e o suicídio das nossas crianças. Quando a agressão subjuga uma criança, aquilo que deixa não é apenas (ou sequer) enrijecimento, deixa uma auto-estima danificada, uma personalidade que crescerá amolgada e diminuída para a vida. 

E essas implicações nefastas não serão exclusivas dos agredidos. Agressores e agredidos - nenhuma criança sairá incólume de tudo isto.

Ao crescermos, tudo cresce. Que façamos crescer, junto dos nossos filhos, a empatia, a capacidade de perceber os outros, a solidariedade e a amizade.

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