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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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07.07.21

Árbakkinn


Sónia Pereira

Olafur Arnalds - Árbakkinn ft. Einar Georg  (2016)

 

No carro, ouço Einar ler o poema, com a música em pano de fundo a evoluir até ao ponto de o calar, o deixar absorto, mudo pelas palavras ditas, talvez esmagado pela pujança melancólica das cordas em vibração.

Por causa das obras, a viagem para o trabalho torna-se num calvário diário. Trânsito alternado, semáforos improvisados, máquinas em movimento, poeira e pedras. Ponho o rádio mais alto para o ouvir numa dessas paragens forçadas. Não percebo uma única palavra do que diz. Sei apenas de que fala de um rio, talvez de um rio como aquele que corre aos pés de minha casa, um rio que pontua a minha paisagem como uma serpente que me recorda diariamente a minha ruralidade, que me recorda as minhas raízes. Raízes desajeitadas, raízes aéreas, que rejeitam o solo.

O semáforo fica verde. O islandês nunca esteve nos meus planos de aprendizagem de uma língua estrangeira. Mas mesmo sem perceber o que diz Einar, entendo-o completamente, perfeitamente - a necessidade de contemplação, de observação, sem qualquer julgamento envolvido. Observar, sentir, sem necessariamente compreender a totalidade, o todo daquilo que se sente. Parar, contemplar - recursos humanos aparentemente primitivos e em desuso.

Ao olhar a enorme escavadora romper o solo, rasgar o alcatrão num movimento tosco mas fácil, deixo-me levar pelo silêncio de Einar embalado pelos violinos e as cordas de um piano dedilhado por Olafur. No crescendo musical, sinto o crescendo revelado do meu cansaço. E na fúria da paragem forçada, dos atrasos diários, por vezes nasce a vontade inusitada de não arrancar e ficar apenas ali parada a ver as máquinas.

Na pujança do meu cansaço, um cansaço que neste momento é quase histérico, sinto apenas um enorme vazio. Todavia, este vazio gira numa força centrífuga que joga fora tudo o que não lhe convém. É um vazio que procura a contemplação e rejeita a informação. E tal não é a quantidade de informação que existe neste mundo, quantidade tal que nos esmaga na nossa pequenez de nunca a conseguir vir a absorver por completo.

Este texto é uma despedida ou um até já. A minha vida, neste momento, deixa pouco espaço para fazer um trabalho honesto e bem feito, nisto que é um passatempo, a escrita. A minha vida fez encolher a disponibilidade física e também mental (essencial) para a busca informativa e a disponibilidade de interação.

Neste momento, rendo-me à necessidade de contemplar os pequenos nadas que me rodeiam, ao sabor de uma música que não entendo, durante as pausas forçadas nas obras infernais desta vida.

 

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