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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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03.08.21

Artistas, Canastrões e Velhos...


Robinson Kanes

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Respondi-lhe que conhecia muita gente em Cannes e Monte Carlo. Respondi-lhe que conhecia muita gente em Monte Carlo. respondi-lhe que conhecia muita gente em toda a parte. E, de resto,  é bem verdade. E, pedi-lhe, então, que me trouxesse aqui.

Ernest Hemingway, in "Fiesta"

 

Poderia começar este texto a mencionar alguns nomes e indagar em como é que é possível que determinados indivíduos possam ser considerados actores, mesmo com uma máquina de comunicação atrás que diz "eles são bons actores, eles são bons actores" - existem evidências que nem a propaganda esconde. Não, não irei reflectir acerca de Paulo Pires, Ricardo Pereira, de uma pseudo-celebridade que termina em Pereira e por aí adiante. 

 

O que pretendo com este texto é, acima de tudo, tentar perceber o que se está a passar em alguns meios com os bons actores, sobretudo os mais velhos. Esta é uma questão que tenho ouvido e discutido bastante com alguns membros do meio artístico... e me fez ir pesquisar, ou seja, ver alguns minutos de televisão. Não a tendo, tive de fazer trabalho de campo e eis que escolhi a casa da minha mãe e de amigos. Apenas uma nota: cheguei à conclusão que não tenho perdido nada, inclusive em termos de informação.

 

Falo da televisão, porque o teatro lá se vai segurando e ainda valorizando quem é bom actor e não quem tem mais likes no facebook ou no instagram, mesmo com alguns teatros nacionais transformados em bastiões de ideologia de extrema-esquerda - e pouco importa que alguns directores dos mesmos sejam convidados para Avignon. O público do teatro (algum), ainda não vai em gente fabricada, menos mal. Neste sentido, porque é que vemos em televisão netos a interpretarem papéis com actores (avós) cuja diferença de idades, não raras vezes, pouco vai para além dos 10 anos? Porque é que com tão bons actores que fizeram a história da representação em Portugal, forçamos a caracterização (e por vezes nem isso) de actores com 20 e 30 anos para parecerem avós ou mais velhos? Dá que pensar... Na sociedade das causas, parece que gostamos de eleger uma aqui e acolá e já somos a Miss Mundo (se bem que até isso já querem proibir...).

 

Dá que pensar porque é que os novos actores, alguns com apelidos da praça, outros nascidos nos célebres castings das suites de hotéis de 4 e 5 estrelas de Lisboa e Porto (sobretudo na época das novelas juvenis) e um ou outro com valor nem se preocupam com a formação de... actor, claro está. Na verdade, parece ser mais importante para o curriculum "ter actividade" nas redes sociais, revistas e televisões do que propriamente a fazer um bom trabalho. És bom mas perdes tempo a ser actor e a melhorar mas não apareces a correr todo nu na autoestrada da futilidade, já foste. Em Portugal, também no meio artístico, formação é uma coisa que pouco importa. Em alguns casos também entendo, existem escolas de actores dirigidas por filhos(as) de apelidos cujo conservadorismo é gritante, o que, associado à caça aos apoios (os nossos impostos), até pode ter uma razão de ser. São sempre os mesmos em tudo e mais alguma coisa... Sobretudo aqueles que andavam por aí sempre que se falava em TAP e RTP.

 

Também nos deve fazer pensar porque é que estes "novos" actores (deverei colocar actores entre aspas?) são os tais que, não sabendo o que é representação, nem se esforçando em saber, chegam atrasados uma hora às gravações, não dão cavaco a ninguém e nem um pedido de desculpas dão a indivíduos como uma Eunice Muñoz ou um Ruy de Carvalho que, por sinal, até chegam a horas e mais que isso, continuam a trabalhar e a tentarem ser melhores actores respeitando a direcção de actores, os realizadores e os colegas. Poderia dar outros bons exemplos, mas é caso para dizer... Apologia de mediocridade? Ficamos surpreendidos que se não for com uns cobres passados por baixo da mesa, não ganhamos prémios de relevo internacionais... 

 

Porque é que insistimos em colocar nulidades como grandes intérpretes, por mais que já tenham demonstrado um valor igual a zero? Será que compensa ser mais burgesso, enteado de actores de renome, embora sem qualquer jeito e dicção, contador de anedotas rascas ou apresentador de programas de segunda linha do que passar por um conservatório durante anos ou todos os dias tentar se melhor actor? Em alguns casos até o passado (presente) de alcoolismo e drogas é visto como uma coisa a ter em consideração... Isto de meter para a veia ou ser um bêbado daqueles também varia consoante um meio. Em alguns casos é chique e uma circunstância da vida, já noutros é estupidez pura. 

 

Na verdade, nem tudo é mau, ainda vamos vendo algumas estrelas brilharem, lembro-me agora de Margarida Carpinteiro, Vitor Norte, João Perry (saudades de Luís Lucas e Sinde Filipe)  e poderia nomear dezenas... Mas nesta sociedade onde todos, sobretudo na área a que me refiro, querem passar por vanguardistas, temos que não passem de um bando de inúteis e hipócritas, afinal a vergonha morreu, a dignidade foi-se, citando Guerra Junqueiro na sua visão da velhice de um certo padre eterno. Nada de novo, no país da "santola sem conteúdo".

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Parabéns a duas mulheres lindíssimas: a Prata do Triplo Salto, Patricia Mamona e a Bronze da mesma modalidade a espanhola Ana Peleteiro.

Para quem quiser ouvir: a semana que passou foi de adeus a Pedro Tamen. Foi o autor dos versos que inspiraram uma das músicas e interpretações e que mais aprecio: "Palavras Minhas", interpretada por Carlos do Carmo. Sim, afinal ainda gosto de uma ou outra música portuguesa.

Para quem quiser ler: é Verão, e dou comigo a reler Hemingway e o seu "Fiesta"O segundo livro que li deste autor, depois de "The Battler". Duas lições de vida que li demasiado cedo e tive de repetir anos mais tarde. 

Para quem quiser assistir: Passem nos Artistas Unidos para algo que é obrigatório ler, assistir e ver... "A Morte de um Caixeiro Viajante" de Arthur Miller. Vai ser bom rever!

Para quem quiser ver: um filme espectacular e baseado em factos verídicos. Passou ao lado em 2017 embora tenha sido aplaudido por esse mundo fora. Um regresso à guerra da Coreia (e ao porquê da boa relação entre a Turquia e a Coreia do Sul) e à história de Ayla! Confesso que o cinema turco e iraniano têm sempre um lugar no meu coração, mas ninguém fica indiferente a esta grande produção de Can Ulkay. Grandes actores como İsmail Hacıoğlu, Ali Atay, Taner Birsel e até Eric Roberts (pronto, não é perfeito) abrilhantam um elenco fantástico! Uma palavra especial para Çetin Tekindor que interpreta a velhice do soldado Süleyman.

Um mergulho no Atlântico: A Vila e a Praia da Arrifana. Um Altano Branco de 2020, bem frseco, depois de sair desse mergulho, não cai nada mal. Não cai mesmo...

 

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