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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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30.06.20

Combater o ódio com... ódio. E assim são os "pacifistas" do presente...


Robinson Kanes

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Domenikos Theotokopoulos (El Greco)- "El Expolio" - (Alte Pinakothek)

Imagem: Robinson Kanes

Não é porque alguém me ofende que eu reajo violentamente, mas sim porque escolho tal ofensa como móbil da minha reacção (...) assim são normalmente os meus actos que me esclarecem sobre o que realmente sou (...) sobre a minha liberdade (no entanto) o homem (segundo Sartre) é consciência de porta a porta (...) simplesmente há uma consciência posicional, reflectida, e consciência não posicional, não reflectida.

Vergílio Ferreira, in "O Existencialismo é um Humanismo"

 

 

A mais "recente" tendência dos "pacifistas de bancada" (ou de teclas?) e daqueles que espumam por todos os poros a palavra liberdade é gostarem tanto da mesma que acabam a querer essa dádiva da Democracia só para si. Um pouco como as crianças mais egoístas que, quando têm o seu brinquedo favorito na mão, ai daquele que lhe deite a mão. Existem ainda os mais inteligentes que só deixam que outros toquem no brinquedo durante alguns minutos a troco de alguma espécie de submissão.

 

Na verdade, como é possível que se vilipendiem partidos e movimentos alegando extremismo e discursos de ódio quando, nessa mesma acção, utilizamos exactamente a mesma fórmula, ou aliás, uma ainda pior, só que, sendo mais trendy, logo é mais aceite, basta andar pelos canais que imediatamente promovem esse discurso. Já vimos isso acontecer, inclusive com deputados que devem a cadeira que ocupam ao pai e que até já ocuparam as cadeiras do hemiciclo sob o efeito de estupefacientes. Vamos assistindo a este espectáculo no refúgio dos teclados, não faltam soldados da liberdade, temos milhões por aí. No entanto, no dia de defender a liberdade (por vezes até com armas na mão e um exército condutor), temo que só apareçam meia dúzia. Isso e os anti-racistas e anti-tudo que no seu local de trabalho, no seu bairro, no seu dia-a-dia nunca ousaram dizer não mesmo assistindo a actos que seriam condenáveis à partida. A justiça popular em tempos fazia-se no pelourinho, hoje faz-se no sofá...

 

Também é deveras interessante, perceber que nessa cavalgada contra o "mal" ninguém perca tempo a estudar os programas desses movimentos e até dos movimentos que são contra estes. Se esse exercício for feito, não tenho a mínima dúvida que teremos muitas surpresas, quer de um lado quer do outro: o caso mais flagrante e aqui bem perto, foi o do Vox e onde foram muitos, sobretudo meios de comunicação, que acabaram por ter de eliminar alguns preconceitos em relação ao mesmo. Encontraremos boas ideias de um lado e do outro, no entanto, estar no meio, hoje em dia, é condenar alguém ao fracasso... Ou talvez não...

 

Sublinho também a forma superior como estes vituperadores se colocam perante os demais mortais, um pouco na lógica do "vós que sois anormais" e nós, donos do conhecimento e da sabedoria vos guiamos... Onde é que eu já vi isto... E nunca acabou bem, sobretudo para aqueles que tiveram de seguir meia-dúzia de detentores do conhecimento que permitiram que nós, ovelhas tresmalhadas, pudessemos encontrar a felicidade... Ou o horror!

 

Sou contra extremismos, sobretudo vindos daqueles que deveriam ser os mais moderados, não só pela sua formação mas pela herança que estes anos de Democracia nos deixaram. E na verdade, quando confrontados com a realidade de que é preciso olhar para os dois lados, ou acusam os demais de doentes ou então adoptam o discurso do "como é possível que todos estejam a marchar mal e só o meu filho é que percebe a Ordem Unida". Os mesmos que no dia-a-dia mostram "pequenos" tiques de quem não é coerente com o discurso que adopta.

 

De facto, uma coisa me amedronta, sobretudo porque a História também o diz, e é que um dia sejamos controlados, manipulados e destruídos na nossa Liberdade por aqueles que alegadamente nos vieram e querem salvar. Formulamos raciocínios com base no que vemos nas redes sociais, aliás, a própria comunicação social o faz (Jonathan Haidt fala sobre isso...) e consequentemente criamos conteúdos e pensamentos virais que nem sempre correspondem à realidade dos factos.

 

Consola-me o facto do cidadão trabalhador não lhes prestar assim tanta atenção e também o facto de nem sempre estes indivíduos serem coerentes com a sua opinião. Talvez também esteja aí a justificação para os verdadeiros e reais problemas de Portugal não estarem em vias de resolução ou pelo menos apaziguados... Entretanto, algumas leis vão passando calmamente, algumas absolvições também e claro, o contínuo protelar de comportamentos que fariam qualquer membro da 'Ndrangheta entrar em delirium tremens e sem necessidade de recorrer à Calanera. Não faltam por aí Provenzanos que encontraram o momento ideal, os hypes e o coronavirus, para passar entre os pingos da chuva.

 

São os mesmos que, no quadro actual do coronavirus, criticam o mau comportamento dos portugueses trabalhadores mas ignoraram que muitos destes contágios se deram enquanto os primeiros se encontravam protegidos em confinamento nas suas casas e os outros trabalhavam para que nada lhes faltasse... Perdoem ter escrito confinamento, a palavra que é proibido dizer, até por ministros, à semelhança da palavra vergonha... Em alguns sectores, acredito que actualmente, muitos membros da PIDE, da Tcheka ou até Sturmabteilung teriam aqui uma cartilha com a qual se identificariam.

 

Fecho com duas inquietações, sobretudo em relação a André Ventura, alertanto que não sou propriamente o maior simpatizante do CHEGA: porque é que não sendo assim tão importante para os que o criticam, o cavalheiro não pode dizer um ai (e é quando o deixam falar) que imediatamente o mundo vem abaixo? Será também que a desculpa de que André Ventura defende o racismo e a xenofobia não esconde um medo maior de alguns acomodados do sistema que, com a crescente subida do CHEGA nas sondagens temem perder as regalias que uma sociedade apática e uma democracia de conveniências lhes permitiram ter?

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