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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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05.05.21

Condição Humana


Sónia Pereira

Trabalhar com pessoas diariamente, muitas pessoas, pessoas que regressam, vão e vêm, que a dada altura me reconhecem como peça integrante de uma família auxiliar (muitas vezes, família principal), é ter de desempenhar um papel, despir-me de uma parte do meu Eu para poder ali estar, sobreviver e comunicar.

 

E desengane-se aquele que pensa em fingimento, astúcia e falsidade. Trata-se de algo mais visceral do que isso. Trata-se de enfrentar, numa base diária, todas as possibilidades, formas e feitios da condição humana e ter de me anular para que esse confronto possa acontecer.

 

Daquela mulher que vive completamente dominada por uma crença religiosa, eu sinto irritação. Aquele "graças a Deus, valha-me Deus, pela graça de Deus, se Deus quiser" proferido como apêndice de qualquer pequena frase, confesso, irrita-me. No entanto, ouço-a e, automaticamente, aceno em concordância. No meu mais profundo ateísmo, compreendo que aquela mulher, que perdeu dois filhos de forma trágica, tenha na religião um refúgio que lhe permite acordar, sair da cama e enfrentar um novo dia. A ela, nunca lhe revelei a minha descrença. Parece-me uma afronta ao seu luto e à sua resiliência. E apesar da irritação, compreendo-a.

 

Todos nós necessitamos de uma muleta e essa muleta adquire formas variadas e, muitas vezes insuspeitas. Uma muleta que vai desde a religião, à necessidade, desejo de vingança (mais não seja divina), um castigo exemplar para aquele que deixou o adorado filho afogar-se, uma pena máxima, expulsão da ordem para a outra que negligentemente permitiu que um marido falecesse de doença.

 

Todos os dias sou confrontada com histórias de luto, luto que seguiu caminhos estranhos e retorcidos, mas serei eu a guardiã de como o luto deverá ser feito?

 

Do luto, seguimos para a solidão. Sendo uma maioria das pessoas com quem convivo pessoas mais idosas, a solidão, mesmo que seja uma solidão acompanhada, é o denominador comum em quase todas elas. As pessoas, para além de terem falta de companhia, têm falta de comunicação, de diálogo e de carinho. E aí, dou por mim a sair da minha bolha e a falar de bailes, de histórias caricatas da aldeia, das notícias do dia, das preocupações mundanas e todo um conteúdo que, apesar de não ser um conteúdo de génese pessoal, é um conteúdo de vontade.

 

Há também aqueles que vivem sob as asas de uma doença degenerativa, mas fazem-no com um estoicismo que me desarma, me faz agir com indiferença na tentativa de não transpirar pena. A minha naturalidade na convivência é falsa, finjo-a porque não sei melhor, não compreendo a força, a vontade destas pessoas.

 

Eu e os meus colegas somos os guardiões do físico, das próteses dos joelhos, das fraturas, das tendinites, das escleroses e doenças neurológicas várias, das sequelas malandras dos AVC's mas, acima de tudo, somos, sou uma espécie de fio terra da solidão, uma psicóloga de vão de escada, uma confidente relutante, um padre confessor e, paradoxalmente, um ser ainda mais desnorteado do que aqueles que julgo poder orientar.

 

O maior desafio desta representação? Perceber que aquele homem com ar de avó bonacheirão, homem sofrido devido a perdas abruptas, é também um tarado que gosta de apalpar, reservando-se ao direito de questionar: “Você não se importa, pois não?”, que aquela senhora com um discurso distinto, corroída de dores, é absurdamente racista e xenófoba, que pessoas bondosas são, simultaneamente, invejosas de qualquer bem que se faça a alguém que não elas próprios, que pessoas atenciosas, pais e mães de família zelosos, são salazarentos: “Era um Salazar em cada esquina.”, homofóbicos: “Deus criou Adão e Eva e não Adão e Adão” e xenófobas: “Isto não é como lá na terra deles, se não estão bem que desapareçam”.

 

Na solidão e no ódio, no luto e na discriminação, no amor e no afastamento, na bondade e no egocentrismo, no amor e no asco, na dor e na repulsa, uma amálgama emocional impossível mas real.

 

E o ser humano é isto, como uma paleta infindável de cores, com nuances que são manias, taras, cismas, emoções explícitas, emoções recalcadas, inveja, maldade injustificável, perversidade camuflada, tonalidades disto que é ser-se humano.

 

No final do dia resta um cansaço que não se justifica pelos excessos físicos e nem mesmo pelos desafios intelectuais.

 

Parte de mim esvai-se em cada acto desta representação e o meu ser, cada vez mais vazio, oco, reverbera o som dos dias, o som das entranhas da condição humana.

7 comentários


  • Do texto destaco:
    Daquela mulher que vive completamente dominada por uma crença religiosa, eu sinto irritação.
    E o ser humano é isto, como uma paleta infindável de cores, com nuances que são manias, taras, cismas, emoções explícitas, emoções recalcadas, inveja, maldade injustificável, perversidade camuflada, tonalidades disto que é ser-se humano.



    Mas há outros que vivem completamente dominados por uma crença que há alguns que não são iguais ao comum dos mortais, não são "pecadores", são especiais. Vivem também dominados pela manipulação que não vêem e acreditam que há "almoços grátis". Eu também sinto irritação.
    Disse bem na parte "E o ser humano é isto(...)", Embora tenha dito maldade injustificável e perversidade camuflada, acrescento que a hipocrisia é uma das pragas actuais, outra é a manipulação.
    E daí o nome do meu blog como uma critica, "Lobos em pele de cordeiro", cuidado com eles!


    Como eu já disse, o Filipe disse bem num post dele: "Tenho vergonha dos ... e dos ... e dos (...)".


    E há aqueles em que a importância dos assuntos depende não apenas do assunto em si, mas de onde ele está. Percebem afinal o que é importante?
    E depois gostam de dar lições aos outros! De facto, "E o ser humano é isto ...".
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    Sónia Pereira 07.05.2021

    Não sei se captei completamente o que quis dizer. De qualquer das formas, quando digo que o ser humano é isto, sendo eu um espécime da espécie humana, também me incluo na amostra, claro está. Não tinha como intenção dar nenhuma lição de moral ou dar ares de superioridade, pois se há coisa que tenho vindo a descobrir ao lidar com um número elevado de pessoas numa base diária, é precisamente a ver reflectidos em mim muitas das características das outras pessoas. E realmente, o que sinto é mesmo isso: somos uma amálgama de coisas, que não têm de ser categorizadas de boas ou más, mas uma amálgama tão grande, que nem sempre é fácil gerir o convívio, a relação com os outros (e comigo própria). 

  • Mas assim não compreendo qual o obejctivo deste texto, até porque fala no que afinal considera normal e está incluída. É como dizer há pessoas altas, baixas, magras, gordas, etc. Mas isto já sabemos e é normal.



    Como não faz sentido falar no que é normal, parece que o meu comentário a fez mudar. Até porque quando disse "Daquela mulher que vive completamente dominada por uma crença religiosa, eu sinto irritação." Claramente foi em sentido critico, como também terá sido "maldade injustificável e perversidade camuflada".


    Em relação: "E há aqueles em que a importância dos assuntos depende não apenas do assunto em si, mas de onde ele está. Percebem afinal o que é importante?"

    Eu não disse que era para si, mas falei de factos e também dei valor a "perversidade camuflada". Os "camuflados" são um problema.


    E a resposta é, afinal o importante é o "umbigo" deles.
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    Sónia Pereira 08.05.2021

    Meu caro lobo, se procura algo de transborde o óbvio, tem de se deixar dos blogs. O que encontra por aqui é como um diário, perspectivas de pessoas banais sobre a vida banal, de como os gordos são gordos e os magros são magros. 
    Pergunta qual o objetivo deste texto, o objetivo é  exatamente o mesmo do seu comentário: expor a forma como eu vejo, sinto, o meu dia a dia. É que pressinto que, se for ao seu blog, também não encontrarei por lá a teoria da relatividade. Haverá muito pouco a inventar e dificilmente serão os blogueres a fazê-lo. É um pouco como perguntar qual o objetivo de um quadro, um livro, uma música, uma dança. O objetivo de qualquer uma dessas coisas é conseguir comunicar, chegar a alguém. Mas esse alguém não é um todo, não é o lobo, eu e Manuel e a Maria. Serão umas quantas pessoas, com sorte. 
    E haverá uma música, um livro que odeia, que lhe causa enfado, que tocará nas profundezas de uma outra pessoa, a fará refletir, chorar, perder o sono. 
    E mesmo a música, o livro, o quadro, o texto que o deixam prostrado, derrotado pela sua magnitude, em análise, não serão mais do que uma perspectiva de como os gordos são gordos e os magros são magros.
    Vejo que a questão da senhora religiosa o deixou afetado. Na realidade, 100% das pessoas com quem lido são religiosas. O número está correto. Entre católicos, cristãos evangélicos e Jeovás, é um 100% redondo. Falei no caso desta senhora, não pela crença em si, mas pela forma como a usa na sua comunicação: como algumas pessoas usam os palavrões como ponto final. Também conheço alguns assim e, apesar de também me irritarem, confesso que a minha educação católica me dá uma maior tolerância ao caralho como ponto final do que ao "se Deus quiser".
    No entanto, admitir a minha irritação não terá nada de hipócrita. Ou o lobo nunca se irritou com nada? Se a resposta for não, há uns mosteiros no Tibete e Butão que aconselho. 
    Admitir a minha irritação, é fazer-me refletir sobre essa irritação, o que levou a ela, refletir sobre o outro, os medos e vontades dos outros. E é também perceber que, apesar da irritação, consigo captar uma nesga do outro e calar-me, acentir e prosseguir.
    A irritação nem sempre é sinónimo de conflito. Às vezes é só uma oportunidade de reflexão.

  • Como já teve tempo para mais um post significa que ignorou o meu último comentário que devia ter uma resposta pois ficou algo pendente. Se os comentário dão trabalho, simples, desactiva-los, assim eu não perco o meu tempo.



    Disse "É que pressinto que, se for ao seu blog, também não encontrarei por lá a teoria da relatividade. Haverá muito pouco a inventar e dificilmente serão os blogueres a fazê-lo."

    Eu respondi a dizer que não é assim e de repente o assunto deixou de interessar.


    Estou a ver que afinal "E há aqueles em que a importância dos assuntos depende não apenas do assunto em si, mas de onde ele está. Percebem afinal o que é importante?", também era para si!
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    Sónia Pereira 12.05.2021

    Caro Lobo, mas anda a monitorizar-me? Não me diga que ainda há pouco aqui apareci e já tenho uma espécie de "stalker". :) É verdade que sou uma pessoa ocupada. Entre o trabalho, a família com crianças pequenas e a lide da casa, não sobra muito tempo. Há meses que não escrevo no meu próprio blog. 
    Mas não foi por isso que não lhe respondi. Na primeira resposta que lhe deixei ao seu primeiro comentário, escrevi que não sabia se tinha captado completamente o que queria dizer. O problema mantém-se. Possivelmente andará uns passos à frente de mim, mas a verdade é que não o capto totalmente. E mesmo que andássemos numa troca de comentários, que só o Lobo poderia finalizar (dado que, segundo a sua lógica não tenho permissão para deixar um comentário sem resposta), o mais certo seria eu ficar na mesma. 
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