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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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21.04.20

Corrupção e Direitos Humanos...


Robinson Kanes

shutterstock-corruption-01.jpgCréditos:https://www.govtech.com/opinion/Motivating-the-Masses-to-Mobilize-Against-Government-Corruption.html

 

Comecemos por duas simples definições e sem grandes dissertações académicas:

Corrupção é a utilização do poder tendo em vista um beneficio pessoal.

Integridade (o contrário de corrupção) é algo inteiro, algo não corrompido, completo e impacial, eficaz e capaz de promover confiança.

 

Falar de corrupção em Portugal é falar de algo leve, um cancro que é encarado como uma pequena alergia mas que tem sérios efeitos na economia, no desenvolvimento do país e sobretudo na salvaguarda dos Direitos Humanos. Parece exagerado pensar que uma das reais práticas nacionais - e de muitos outros países - pode ter tão sérios danos. No entanto, a realidade desmente esse pensamento tão ultrapassado... 

 

Numa tónica geral, a corrupção não é mais que uma troca contrária a uma norma com o intuito de obter vantagens ou a relação entre público e privado com o objectivo de obter uma vantagem contrária à lei. Numa lógica mais profunda, é o desvio de fundos e demonstração de interesses privados como sendo públicos. É a próprio relação entre empresas que pode gerar a corrupção no interior do mercado. É um conjunto de redes clientelares e redes informais de trocas de favores. É a porta giratória, o clientelismo, o nepotismo e as negociações imcompatíveis. De um modo ainda mais simples e percéptivel... é extorsão, suborno e prevaricação.

 

Mas como é que podemos perceber os reais efeitos da corrupção nas nossas vidas e nos nossos direitos mais básicos? Já pensámos nisso? Tenho de admitir que talvez a grande maioria não o tenha feito. 

 

Começo pelo primeiro exemplo, a extorsão. Imaginemos que queremos construir uma casa e alguém do outro lado nos dá a entender que tudo pode ficar mais fácil se... Ou até com a instalação de um ramal de água. Estamos a infringir direitos básicos como o direito à habitação e o direito a ter acesso a um bem precioso como a água.

 

Recentemente tivemos os incêndios e acidentes em pedreiras. Tomemos esse exemplo para perceber que muitas inspecções "passaram ao lado" e consequentemente tiveram um impacte severo naquele que é talvez o mais básico direito de todos, o Direito à Vida. Em Portugal, por exemplo, uma das áreas que gera grande polémica é o ambiente e as Avaliações de Impacte Ambiental (AIA). Quantas vezes estas não são alvo de processos menos transparentes? Penso que já podemos perceber quantos direitos essenciais são aqui violados.

 

Finalmente, e é a OCDE que o diz, sempre que existem adjudicações fraudulentas (e quantas não conhecemos em Portugal, o Tribunal de Contas não fala de outra coisa...) o preço de bens ou serviços aumenta 30 a 50%! Não é 3 nem 5%! Onde é que entram aqui os Direitos Humanos? Esses valores são impostos e pagamentos de todos nós! São valores que não vão ajudar as famílias mais pobres, o Serviço Nacional de Saúde e um sem número de instituições e infraestruturas que são o garante do nosso bem-estar. 

 

Talvez os número actuais de despesa, sirvam para nos fazer pensar e exigir mais transparência às nossas instituições sob pena de não estarmos preparados para muitos desafios do presente e do futuro. Corrupção viola os direitos mais básicos de todo e qualquer cidadão e se os Direitos Humanos não podem ser alvo de discussão, pois bem, deixemos que o combate à corrupção também não o seja. Talvez a insistência em celebrar o 25 de Abril sirva para criar (finalmente) uma linha de combate à corrupção, mesmo que possamos correr o risco de que esse combate faça muita gente desaparecer das cadeiras do poder, até porque, como dizia Rousseau, "a verdade não conduz à riqueza e o povo não concede embaixadas, bem lugares, nem pensões".

 

Leituras ligeiras para quem quiser perder um pouco do seu tempo

Journal of Economic Perspectives—Volume 19, Number 3—Summer 2005—Pages 19–42

Putting an end to corruption

Preventing Corruption in Public Procurement

9 comentários

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    Robinson Kanes 18.11.2020

    Não me parece que o seu mundo seja limitado, bem pelo contrário, uma realidade diferente não tem de ser propriamente mais pequena ou maior, é diferente só isso... Se alguém já lhe disse isso então afaste-se dessas pessoas. E nem diga isso, vive num país onde existem metrópoles maiores que Portugal.


    Entendo o que quer dizer, é preciso ter aquilo a que chamamos "arcaboiço" para esse tipo de lugares no Brasil, já vi... Todavia, isso não deve demover os melhores de tomarem as decisões certas... E não é fácil enfrentar a vergonha, mas a consciência e o sentimento de dever cumprido superam esse facto. Todavia, continuo a crer que combate à corrupção não deve ser descurado. Mas sim, entendi que existem realidades muito diferentes consoante a geografia. Talvez o Brasil pudesse adoptar algumas das medidas que foram colocadas em prática no México? (Não falemos de resultados, isso é outra história).


    No caso português, e se estiver errado agradeço que entre um especialista em fiscalidade ( :-) ) . Existem estimativas e estudos acerca do dinheiro que foge à Autoridade Tributária (AT), por exemplo. Não sei se esclareci... Todavia, a corrupção vai muito para além das declarações fiscais. Os políticos fazem as leis e ainda hoje ouvi advogados a afirmar que a legislação era extensa e estava sempre a mudar, o que é uma realidade. E sim, em meu entender - e reforço, em meu entender - alguma é mal escrita, mas também não existem sistemas perfeitos. Na realidade portuguesa a carga de impostos é gigante quer sobre particulares quer sobre empresas e isso o Pequi também sabe o que significa, certo? A aplicação da lei é feita pelos funcionários públicos e respectivas instituições, sim. Existem cruzamentos de informações entre "saídas e entradas" mas nem sempre o sistema consegue ser 100% perfeito - apesar das melhorias tecnológicas (SIMPLEX) e na eficiência da AT. 


    Mas se quiser explicar como funciona por aí, agora fiquei curioso. E se quiser desenvolver a sua ideia pelo combate através da fiscalidade terei gosto em ler.


    Não me parece que seja isso que esteja a acontecer, estou só a acompanhar, a partilhar e a beber conhecimento :-)
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    Pequi 19.11.2020

    Caro Kanes,
    O que mais tenho feito ultimamente é justamente afastar-me das pessoas, e não é somente por causa do Covid.
    O que responder? E principalmente, como ser sucinto sem ser vago? Como explicar algo objetivo sem cair na tentação da operacionalização do processo? Tentarei fazer isso, porém lembre-se de que não passo de um palpiteiro e olhando para mim eu não levaria a sério o que vier a sugerir. Por outro lado, a observar o que os tais “especialistas” e estudiosos tem nos oferecido eu acho-me simplesmente o máximo! (umas boas risadas!)
    Encontrei um vídeo sobre a situação no Peru e lembrei-me de ti: https://www.bbc.com/portuguese/media-54985189 - conte aí quantas vezes a palavra corrupção é citada em 9 minutos.

    Também assisti https://www.youtube.com/watch?v=1W1sgmAGRWE – Sou um aluno aplicado.

    Resumidamente “We want young Africans to stay in Africa" – o que é isso senão um propósito? Um belo propósito a nos cativar a trabalhar por esse objetivo. Internalizei a ideia e agora “eu” quero que os jovens e os não jovens de qualquer parte do mundo tenham a oportunidade de escolher onde desejam viver, principalmente se esse lugar for justamente o lugar onde nasceram. Sem fazer falsas acusações e pré-julgamentos, apenas estatisticamente falando, existe uma grande probabilidade de se tratar de mais um político corrupto. Não existe corrupto do bem, mas podemos usar as ideias que eles usam para nos cativar em pró de uma mudança real ao nosso lado. Não quero voltar ao tema só quero ressaltar que o que ouço é mais importante do o que falam, e um político que fala coisas terríveis [e nisso o atual presidente brasileiro, político profissional que tenta se passar por outras coisas, o faz todos os dias ininterruptamente há mais de 20 anos] está automaticamente reprovado porque perde o principal de um político: o propósito.
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    Pequi 19.11.2020

    Em 1792 Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, propôs uma sonegação de impostos como meio para livrar o Brasil de Portugal. Alguns vão entrar nos detalhes de que Tiradentes era o menos iletrado de todos os insurgentes e que não passava de um “boi de piranha” para salvar pessoas importantes envolvidas na trama. Fato é que Tiradentes foi delatado, o único enforcado, esquartejado e seus restos mortais espalhados pelos caminhos para servir de exemplo sobre os cuidados que deveríamos ter com os interesses da coroa portuguesa. Só um parêntesis: muitos no Brasil dizem que bandido bom é bandido morto e são desejosos da pena de morte – para lembrar que essa já existiu e pelo visto não resolveu muito. Fato é que em algum momento da história Tiradentes migrou do status de bandido ao de herói e posteriormente a ser agraciado com um feriado nacional a ser comemorado em 21 de abril. Talvez Tiradentes devesse ser agraciado como santo protetor dos sonegadores de impostos. Eu votaria no sim e penso que o feriado está muito boas mãos. Outro parêntesis: melhor eu moderar pois estou a conversar com um português! :-)

    Sonegar impostos sempre foi crime, mas talvez se trocarmos o propósito de enriquecer mais rápido por um propósito político, talvez sonegar impostos possa ser uma maneira legítima de atingir a glória. Ou não?

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    Pequi 19.11.2020


    Como estamos distantes e em realidades muito diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas vou recorrer novamente a um exemplo hipotético. No Brasil muitos acreditam na estatização e outros tantos acreditam na privatização. Será que eu sou o único a batalhar pela “honestização”? Imaginemos então uma empresa privada prestadora de serviços essenciais, por exemplo, fornecimento de energia elétrica. Como minha opção foi por uma empresa privada, é de se imaginar que o investidor tenha por objetivo auferir lucro. E não há pecado nisso e todos sabem que o objetivo do investidor é exatamente o lucro e estão todos de acordo. Porém o investidor do meu exemplo é na verdade um mal empresário que maximiza seu lucro com redução de custos na qualificação de seus empregados, paga relativamente mal, exige sobrecarga de trabalho e de responsabilidades, posterga manutenções importantes e uma ladainha de coisas que deves bem conhecer. Pois bem! Nós somos clientes dessa empresa e os serviços falham com uma certa regularidade, uma pequena chuva e já estamos sem energia elétrica. Lembre-se, qualquer semelhança é mera coincidência. Um certo dia ocorre uma falha mais grave e toda a cidade está sem energia elétrica. Os funcionários estão reunidos decidindo o que fazer. Alguns dizem “Voltemos para nossas casas e deixe esse velho moribundo que é o nosso patrão sozinho com o problema!” e outro diz: “Amigo! A população não é culpada e nesse momento existem pessoas nos hospitais a esperar por nós!”. Eu não tenho dúvidas de que o segundo tem uma enorme probabilidade de vencer esse debate e eles vão trabalhar a noite inteira para solucionar o problema, ainda que com toda precariedade de recursos, para no dia seguinte continuarem a ser esculhambados tanto pelo patrão quanto pela população. O que os moveu? Um propósito.
    Quem nos ensina propósitos? Quem nos estimula? Quem nos mostra a separar os bons dos ruins? Eu não sei de onde vem a fonte, alguns vão dizer que é da família (e a família aprende onde?), outros que é da igreja (essa eu refuto, mas é possível que o digam). Meu palpite é que venha de um processo educacional, da leitura, disso que estamos fazendo agora... Então a primeira peça do combate à corrupção não é o político, não é o policial, não é o legislador, não é o juiz, não é o promotor, não é quem normalmente a gente chama para resolver esse problema. Na verdade, eu até enxergo esses citados como os grandes beneficiários da corrupção e grandes interessados que esta permaneça.
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    Pequi 19.11.2020

    O segundo passo por assim dizer, é entender que a corrupção é como uma “gripezinha” para usar termo tão em voga em tempos de Covid. A gripe está aí e aprendemos a conviver com ela. Não conseguimos erradicá-la. A corrupção é semelhante e o que importa é tentar fazer com que ela fique cada vez mais cara (no sentido de ter mais dinheiro envolvido por ato). Veja um exemplo ocorrido no Brasil anos atrás. Existia uma comissão parlamentar investigando as ações de uma espécie de máfia brasileira muito violenta. Essas reuniões eram secretas e como ocorriam no Senado Federal eram gravadas. O advogado dessa máfia subornou um funcionário e comprou as tais gravações – vou chutar aqui um número só para exemplificar. Algo em torno de 50 euros. Como assim? 50 euros euzinho posso pagar, aliás eu conheço uma montanha de euzinhos que podem pagar. Se fossem 50mil euros eu já estaria fora e se fossem 500mil euros, aí bem pouca gente no Brasil poderia pagar. E como encarecer a corrupção? A meu ver facilitando encontrar as pessoas, criando passagens de areia ou de tinta fresca que deixam marcas. Exigir transparência, cruzar dados, diminuir o uso de dinheiro em espécie – sei lá, não é minha função ficar pensando em como fazer isso, só sei que não é no voto e não é pela arma de fogo.
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    Robinson Kanes 20.11.2020

    Gripezinha... Tive de me rir, bem metida :-))))
    Sim, nunca conseguiremos eliminar a corrupção a 100%, isso também seria utópico.


    "Exigir transparência, cruzar dados, diminuir o uso de dinheiro em espécie – sei lá, não é minha função ficar pensando em como fazer isso, só sei que não é no voto e não é pela arma de fogo."


    Mesmo! Só discordo num ponto... Quando diz que não é pelo voto, eu acredito que também seja pelo voto. Em relação ao dinheiro, mesmo com a eliminação do dinheiro fisíco existem ainda muitas formas de dar a volta à coisa... Em Portugal têm sido muito comuns os esquemas nesse campo. Ainda recentemente estalou um para os lados de Castelo Branco - um distrito (província) completamente dominado por um certo poder político que gere a seu bel-prazer os destinos de uma região. Que claro... É uma das mais "atrasadas" do país.
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    Pequi 20.11.2020

    Sim. É claro que viver num país com direito ao voto é infinitamente melhor do que viver onde esse direito não existe. Eu só não deposito esperanças no voto, até porque eu penso que os professores são os verdadeiros soldados contra a corrupção e não os políticos. O voto é esporádico e seu valor mais serve para não piorar minha vida do para efetivamente melhorar, pois se tem uma coisa que atrapalha é um político eleito trapalhão.
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    Robinson Kanes 20.11.2020

    "se tem uma coisa que atrapalha é um político eleito trapalhão."



    Mesmo :-))))))))
    E percebo o seu foco no papel do professor. Além da nossa casa, é na escola que tudo começa.
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