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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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02.06.21

Crónica de uma morte anunciada


Sónia Pereira

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Emma wants to live  -  2016 (fotograma do filme)

 

Não tenho televisão em casa. Quer dizer, tenho televisão (aparelho), mas não tenho acesso a qualquer canal de televisão. E não digo isto com qualquer tipo de sobranceria. Não ver televisão não foi coisa capaz de me transportar para um nível superior de sapiência e erudição. Noitadas a ler Proust no sofá e a ouvir Bach para desenjoar não acontecem por aqui. Se antes me espojava no sofá a fazer zapping e a consumir conteúdos questionáveis, agora faço exactamente o mesmo, mas o zapping não é bem zapping, as plataformas são outras, várias, mas no final a pergunta é a mesma: “como diabo cheguei aqui e porque raio estou a ver isto?”

Do nada, chega-se a conteúdos inesperados, que não se procuram e horas depois surge o arrependimento do tempo perdido. Mas nem sempre. Por vezes surgem conteúdos que embora não sejam de alto gabarito audiovisual, têm a capacidade de me deixar a reflectir neles, para além deles, durante uns tempos. De tal forma que o texto que deveria surgir aqui hoje, esmoreceu-se na minha vontade de o escrever, porque outra coisa pedia para ser descortinada.

Emma era uma jovem holandesa com anorexia. A sua saúde, devido à sua desordem alimentar, começou a sofrer um forte impacto negativo logo aos 12 anos. Os pais fizeram o expectável: consultaram médicos, de especialidades várias, instituições várias, na tentativa de ajudar a filha adolescente. Emma esteve internada diversas vezes em diversos sítios e, em situações extremas, chegou mesmo a ser alimentada à força por uma sonda. Mas alimentada à força não bastava, porque ela, tentando contrariar o consumo calórico por ela indesejado, tentava exercitar-se para queimar as poucas calorias consumidas. Assim, algumas vezes teve de estar amarrada, restringida, para permitir ao organismo assimilar o pouco calórico ingerido.

O documentário no qual tropecei no Youtube – Emma wants to live – é filmado quando Emma já tem 18 anos e entra na sua última batalha de vida. Ela decide documentar a sua derradeira tentativa de vencer a doença (ou deixar-se dominar por ela). As tentativas passadas de alimentação forçada tinham saído goradas, pois é impossível manter alguém a alimentar-se de forma forçada ad eternum e Emma pediu para ir, sozinha, para uma clínica conhecida por tratar casos de anorexia, em Portugal. Emma, por essa altura, estava já praticamente incapaz de caminhar, num extremo de magreza em que cada contorno do seu esqueleto era perceptível por debaixo da pele e a possibilidade de morrer na viagem aérea surgia como uma possibilidade.

Já na cama, noite profunda, depois de ver o lento definhar de Emma até à morte, só pensava na estranheza da mente humana: como alguém que queria viver não era capaz de abdicar do controlo extremo do seu corpo, como alguém que lutava por sobreviver, era incapaz de fazer aquilo que a manteria viva - comer.

E em mim ficou um sentimento de enorme ambivalência: terá sido aquilo uma espécie de suicídio lento de alguém que não se adequava ou será a doença de tal forma pérfida que comanda inexoravelmente a mente de uma pessoa, destruindo-a, perante a sua incapacidade de reação?

Mas, o que mais me perturbou, não foi tanto ver o caminho mortífero de Emma. O filme era uma crónica de uma morte anunciada. Não havia vontade, havia dominação, submissão à doença ou subserviência à vontade de partir. O que me abalou foi a consequente transposição para a minha realidade. Como mãe, o que faria? Se por um lado, era capaz de tudo para salvar o meu filho das garras da morte, seria aceitável fazê-lo alimentando-o à força, prendendo-o, tirando-lhe a sua liberdade? Mas não o fazer, poderia significar uma condenação à morte. Conseguiria deixá-lo optar por um caminho que, antecipadamente, saberia ser fatal? Conseguiria ficar apenas a observar a degradação, o desaparecimento lento do meu filho? Conseguiria ter a calma de dar a batalha como perdida, olhar para o meu filho como alguém que veio para não ficar?

E a verdade é que não sei. O meu abalo vem precisamente do meu desconhecimento, da minha incapacidade de antecipação, de prever a minha reação face a algo assim.

E se, ao ver aquele documentário, a vontade é ir lá e enfiar umas colheradas à força pela boca de Emma a baixo (sinto a crueldade do que acabei de escrever), por outro lado compreendo a doce atração do poder – o único que se pode levar a extremos – o controlo sobre o corpo.

Decidi perder peso há uns tempos e perdi. E há nessa capacidade uma satisfação estranha. Como se para tudo o resto dominasse uma mediania a roçar a mediocridade e aquilo viesse provar um poder que não se sabia ter e o raio do poder é demoniacamente corruptível: por vezes pensava que podia ir mais longe, podia esticar ainda mais a corda, ver até onde conseguia ir. No meu caso, os prazeres da comida e do álcool acabaram por ser mais poderosos, mais sedutores, do que o poder de controlo. Mas, em suma, compreendo a batalha de Emma, compreendo a sua incapacidade de se render à perda de controlo sobre o seu corpo, a incapacidade de enfrentar as emoções inerentes à possibilidade de mudança, a perda de controlo como uma falhanço, compreendo a sua subserviência à doença.

Compreendo, mas fica tudo o resto: as ações e inações dos que a rodeavam, os contornos das estranhas maleitas que afetam as pessoas, a nossa ainda incapacidade de lidar convenientemente com todas elas, a questão de saber se aquilo em que nos tornamos (enquanto sociedade ocidental) não será facilitadora de mortes anunciadas, como a de Emma.

Dúvidas, muitas, e ainda desconforto e desassossego.

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