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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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09.05.21

Da Serra Nevada e das Alpujarras se Retirou o Zagal... Entra Granada.


Robinson Kanes

sierra_nevada.jpgImagens: Robinson Kanes

 

Depois da conquista de Málaga pelos cristãos, os combates sucederam-se com inúmeras vitórias e derrotas de um lado e de outro. No final, o saldo positivo do lado cristão foi notório.

 

Um dos momentos mais decisivos deu-se com a conquista de Baza (só aqui morreram cerca de 20 000 mil soldados cristãos), onde a ousadia do Rei Fernando II e o apoio da Rainha Católica aos exércitos foram fundamentais para a conquista desta importante cidade e consequente rendição do Zagal que se encontrava acantonado em Guadix. Daí, o Zagal oferecia resistência quer a Granada (onde reinava Boabdil), quer a Castela e Aragão.

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Todavia, e perante a queda da imbatível Baza, a rendição do Zagal deu-se sobretudo pela influência de Cidy Yahye que, derrotado em Baza, e mais tarde convertido ao cristianismo, pediu a este que olhasse para o estado do reino e não permitisse o prolongamento de mais mortes e desespero. A capitulação e a entrega dos territórios das Alpujarras até Almeria viria assim a ter lugar, ficando o Zagal com o pequeno (e humilhante) reino de Andarax.

 

Boabdil, ao saber de tão boa nova no Palácio de Alhambra, regozijou-se de tal forma que viria a encetar uma saída triunfal por Granada. Porém, isso não viria a acontecer pois o povo encontrava-se revoltado e entendia estes actos como uma traição. Boabdil foi obrigado a recolher ao Alhambra e a encetar negociações com o rei de Castela e Aragão mas... essas negociações viriam a acabar de modo hostil, e com uma promessa do lado cristão de continuar com a guerra até Granada.

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Uma nota para o facto Fernando II, temendo uma revolta em grande escala nas montanhas da Serra Nevada (são famosas as Revoltas das Alpujarras) e em Almeria, praticamente ter forçado o Zagal a exilar-se em África. Tal, viria a acontecer meses mais tarde e, ao ser recebido pelo rei de Fez (seu antigo vassalo), o Zagal foi enviado para as masmorras e condenado à cegueira, pois o primeiro, considerava que as desgraças de Granada a este se deviam. O Zagal viria a encontrar comida e vestes somente em Vélez de la Gomera, onde o rei, seu antigo aliado, o acolheu e lhe permitiu um fim de vida em paz, contudo, não menos humilhante.

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Não será difícil imaginar o tormento do Zagal, que tudo deu para a defesa da sua religião, da sua cultura e das suas posses. Não será também difícil imaginar o desgosto e a angústia deste, solitário e com o seu parco exército, isolado nas montanhas da Serra Nevada. O branco da neve, contudo, não quis o Zagal, ver manchado de sangue. O branco da neve que cobre as montanhas de Granada até ao Mediterrâneo ficou intacto, no entanto, todo o sangue derramado até então, desde Zahara até Baza, havia sido em vão. O Zagal morreu humilhado, mas cego... uma cegueira que não lhe permitiria ver mais atentados ao seu reino de Granada e, consequentemente, a sua destruição.

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Com as hostilidades, novamente abertas, entre Granada e o Reino de Castela e Aragão, as estratégias de um lado e outro também se foram aprimorando. Do lado cristão, o Rei Fernando II pediu contenção, pois continuar de imediato a guerra traria consequências nefastas para o país em termos económicos e de recursos, além de que, tomar Granada pela força poderia ser uma acção suicida. Já do lado mouro, sob o comando de Muza, ao serviço de Boabdil, preparava-se a cidade para uma grande batalha e faziam-se incursões por terras católicas como forma de mostrar capacidade de resposta e bravura face a eventuais ataques cristãos.

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Estas incursões mouras levaram a que o Rei de Castela e Aragão incentivasse uma política de pilhagem e destruição de todos os campos, vilas e aldeias em torno de Granada. Salvo algumas escaramuças, as ordens do rei foram respeitadas na íntegra, pois lutar contra o inimigo mouro era demasiado arriscado na medida em que esta era destemido e conhecia aquelas terras como ninguém. Segundo Agápida, Granada chegou a estar envolta num fumo que durou semanas, senão meses, a dissipar-se tal era o inferno ao redor da cidade.

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Boabdil, procurava no seu povo encontrar mais seguidores e foi nas Alpujarras e na Serra Nevada que encontrou um grande apoio, e que, aliás, lhe permitiu conquistar a fortaleza de Alhandín. Boabdil voltara a entrar vitorioso em Granada e novamente a fazer esquecer o rótulo do derrotado... o rótulo daquele que faria Granada cair. Boabdil chegou, inclusive, a conquistar cidades como Marchena que até então se encontravam nas mãos, do já anteriormente falado e convertido, Cidi Yahye. O ímpeto de Boabdil só viria a ser controlado aquando da tentativa de reconquistar Salobreña, onde o cerco montado por este foi reprimido por mar e terra pelo exército de Castela.

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Com a vibração dos tambores da guerra a ecoar por Granada, a azáfama na cidade era imensa e mesmo, em momentos de alguma reflexão sobre a necessidade do combate, foi Muza que elevou a moral das tropas e do próprio rei. Diz Agápida, que se Muza tivesse entrado mais cedo na guerra, provavelmente o destino de Granada poderia ser outro. Muza era um guerreiro de actos, de poucas palavras e dispensava todos e quaisquer floreados numa estratégia de combate.

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Granada era agora uma cidade preparada para a luta. Longe de ser a vistosa e resplandecente Granada de outros tempos... só o Alhambra entre a Serra Nevada e o Albayzín (Albaicin) ainda conservava a imponência e a fortaleza de outros tempos. 

 

Continua no próximo Domingo...

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Episódios Anteriores:

Aben Hácen e Zahara

el Zegri e Ronda

Salobreña e a Morte de Aben Hacén

Córdoba... O Quartel General Cristão

Málaga: O Início das Hostilidades

Málaga: O Desastre e a Capitulação

 

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