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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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16.06.20

De Isfahan com júbilo...


Robinson Kanes

iran.jpgImagens: Robinson Kanes

 

 

A arte não é assim uma dádiva para uma elite, mas para o homem verdadeiro, e se ela é de facto para uma elite, é porque entre os homens é uma elite o que não é animal.

Vergílio Ferreira, in "Carta ao Futuro"

 

 

Ontem, à data e hora da escrita deste artigo, confesso que as minhas atenções estavam orientadas para uma escabrosa declaração de um vereador de câmara municipal. No entanto, e porque o mundo é simplesmente uma aldeia e existem coisas mais importantes,  não consegui guardar um acontecimento que, sobretudo para nós cá em casa, terá sido um dos grandes pontos altos deste ano.

 

Apesar dos quase 7000 quilómetros de distância, foi-nos possível assistir ao sorriso de uma pequena artista cujo potencial já tinhamos admirado aquando da nossa passagem pelo Irão. Havíamos inclusive encetado alguns contactos tendo em vista que tal talento não se perdesse, pois sem os meios certos (e que normalmente não são as competências) nem sempre é fácil vingar.

 

Essa pequena artista, vamos chamar-lhe "Sanaz", que em Persa significa orgulho ou beleza, conseguiu uma oportunidade para aprimorar a sua capacidade artística para o desenho e para a pintura. Encheu-nos de orgulho saber que a pintora que nos fascinou naquele jardim enquanto, em família, todos se juntavam naquele fantástico piquenique nas margens do Zāyandé-Rūd, pode agora sonhar e transformar aquele sorriso, algo envergonhado mas sempre aberto perante os elogios, em algo ainda maior e grandioso.

isfahan_iran.jpg

Hoje o mundo deixou-nos também orgulhosos, até porque associado a este acontecimento, também a nossa grande amiga "Farzanah" está prestes a entrar na universidade e "Mastanah" está grávida! As más notícias do Irão não chegaram, aliás, não têm chegado, ao contrário do que vai sendo por aí apregoado, e isso deixou-nos felizes. A vida por lá, nada de novo para nós, é feita de sorrisos e de conquistas.

 

Também hoje voltámos às margens de Zāyandé-Rūd e celebrámos... Tomámos o sabor das uvas do quintal de "Farzanah", deliciámo-nos com os doces e os frutos secos daquela terra quente e desmesuradamente sublime que nos acolhe, pudemos por lá saborear, um pouco na lógica de Del Homme, a verdadeira e profunda eternidade deste instante de alegria.

 

Falámos da Europa, falámos do Irão, das nossas diferenças mas sempre percebendo que é nessa relação singular de abertura, curiosidade, respeito e amizade que somos iguais. Voltámos a deixar "Farzanah" com um olhar triste transmitindo a ideia que os problemas não se esgotam com uma "fuga" para o Ocidente, voltámos a sorrir com toda aquela família, com todas aquelas gentes que tão bem nos acolheram, e mesmo aquando do primeiro contacto, não deixaram margem para que nem por um segundo hesitássemos em acompanhá-los.

iran (1).jpg

Por um instante... Abandonamos o tapete persa que nos serve de manta de piquenique e sentamo-nos junto ao rio... "Sanaz" atira feliz água para o ar perante a ledice de toda a família enquanto "Farzanah" nos atira um sorriso, um sorriso daqueles que só encontramos em muitos poucos locais do mundo. Também nós acompanhamos "Sanaz" molhamos os pés e atirando água... Somos rodeados por todas as crianças que têm no Zāyandé-Rūd o seu melhor brinquedo. Sem darmos por isso... Estamos todos numa tela, quiçá um dia a ser ilustrada por "Sanaz", ou pelo menos, no maior e mais importante museu do mundo, a nossa memória... Essa será a melhor tela que nos poderão oferecer...

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