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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

12.06.20

De repente.


JB

   O tempo só corre num sentido.
  Dos primeiros desejos impossíveis que me lembro - o primeiro mais forte e que desejei por muito tempo - era o de ter um relógio mágico, muito parecido com um que vi anos mais tarde num filme do Harry Potter. (Imagino o que o leitor estará a pensar: que a JK Rowling esteve em Portugal e me roubou a ideia. Mas, sinceramente não creio... foi uma coincidência). O relógio mágico do tempo controlava o resto do universo, podia ir para a frente e para trás. Eu ditava, era mestre do tempo, fazia fast forward para os fins de semana e para as férias de verão, só me preocupava em andar para a frente.
  Irónico não é?
  Por muito que seja, o tempo é pouco e eu mal podia esperar por desperdiçá-lo.
  Hoje em dia, não tenho esse desejo impossível.
  Fico contente de não ter feito fast forward a nada, mas se me distraio, ainda dou por mim a pensar nesse relógio. Desta vez seria para fazer rewind, nunca fast forward.

  Não que não tenha muito porque ansiar ainda, mas porque já não tenho pressa.


  Uma espécie de anti-relógio do tempo mágico. A perfeita antítese deste conceito, é o conceito de "filhos". Os filhos (ou um recém nascido que seja considerado família muito próxima) dão-nos cabo do conceito do tempo. Não querem saber disso para nada, crescem sem respeito ou consideração pelos sentimentos dos mais velhos, e ainda fazem piadas a fazer troça da nossa idade.
  Estão sempre com muita pressa. ' Só faltam x dias para as férias' , 'daqui a y dias tenho uma festa', 'quem me dera que o tempo passasse mais depressa...'.
  Apetece agarrá-los e dizer: - Não tenhas pressa, o tempo passa a correr. Mas depois lembro-me do que pensava quando ouvia isto. 'Conversa de velhos'. Caraças, não temos hipótese: já estamos tramados outra vez. Se não nos são eles a lembrar, somos nós que dizemos.
  Tento não dizer esses clichês. Talvez já me tenha escapado, uma dessas 'frases de velhos' mas tento não dizer. Não tenho pressa que eles deixem de ter pressa. Ela é sinónimo de inocência, vitalidade e ignorância: três coisas que todos perdemos com a passagem do tempo (não estou certo da terceira). Mesmo assim, todo o cuidado que eu pudesse ter, não seria suficiente e não foi.
Indiferente a tudo isto, como sempre, o tempo continua a passar, para nós, e para eles.
Quando menos esperamos, subitamente, apercebemo-nos do que já passou e de como o tempo não abranda nem se compadece. Às vezes levamos um safanão que nos abana e paralisa ao mesmo tempo.
  Há poucos dias, uma 'criança' de 10 anos mostrou-me a música "Older" de Sasha Sloan e enquanto eu a ouvia pela primeira vez, comentava a dizer, 'que música espetacular, que letra profunda' a 'criança' disse-me:
- Sabe pai, a menina que está a cantar foi a mesma que escreveu isto e também tem os pais divorciados.
E eu percebi que já não era uma 'criança' a falar comigo. 
De repente.



JB

  

 

 


  
 

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