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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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26.05.20

E se André Ramos falar verdade?


Robinson Kanes

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Créditos: https://safejournalists.net/the-suppression-of-media-freedom-stifles-any-other-progress-in-society/

 

“Sérgio, depois da nossa conversa, de muito refletir e de ter revisto a peça mais do que uma vez, não consigo encontrar forma de cortar. Ontem fiz as alterações que me pediste, no entanto, não consigo retirar partes relativas à ação do governo. Estou a ser confrontado pela primeira vez na vida com uma decisão destas e, como te disse, tenho a humildade de ouvir, refletir e assimilar todas as formas de pensar sobre jornalismo e sobre os tempos que vivemos. Longe de mim querer transformar isto num debate ou numa lição sobre jornalismo, estou cá para aprender e certamente que estes dias foram, são e serão ainda mais uma lição para mim. Estou entre a espada e a parede”.

“Então não há reportagem. Vês como é fácil. Fica bem com a tua consciência, tal como eu fico com a minha decisão”.


Este é um excerto de uma conversa entre um jornalista, André Ramos e um Director de Informação de uma televisão, Sérgio Figueiredo. Muitos de nós, vivendo em Portugal, já teremos em diversas áreas passado por muitas situações deste género, eu próprio já coloquei o lugar à disposição uma vez por questões semelhantes. No entanto, a sucessão de casos na comunicação social começa a ser uma preocupação cada vez maior. O silenciamento e a deturpação a que se assiste na maioria dos meios de comunicação começa a ser um atentado grave ao poder democrático.

 

Sendo uma televisão privada a TVI pode fazer o que bem entender mas se assim é (porque está longe de ser caso único) o ideal é deitarmos todos os códigos deontólógicos e rótulos de serviço púiblico essencial para o lixo e também toda a confiança no jornalismo. Com isto, apenas importa frisar que terá de ser o jornalismo a criar o seu caminho e a ter de lutar pela sua própria isenção e credibilidade. Deste modo, incutiremos nos cidadãos que aquilo que estão a ver pode não ser verdade, pode ser manipulado e falseado e nenhuma autoridade tem de estar atenta, porque existe espaço para cada um pensar por si e não dar a informação como algo livre de falsidades. O direito de informação é um bem essencial e como tal é uma coisa muita séria para ser deixada como está...


Não é de estranhar que a relação do poder político com muitos orgãos de comunicação social seja demasiado próxima: a RTP como televisão do Estado, tem sido o que é e todos anos e retira dos bolsos de todos os portugueses milhões de euros que ultimamente além de financiarem jornalistas e artistas de televisão em desgraça, financia também empresas de secretários de Estado. Já alguns Governos e o próprio Presidente da República têm uma relação demasiado estreita com os media, aliás, acerca do actual Presidente da República, Cavaco Silva levantou algumas suspeitas que foram ignoradas pela maioria dos orgãos de comunicação social.


Temos também um presidente que num país onde quase tudo afunda, não se cansa de lutar pela comunicação social em detrimento dos sectores estratégicos do país, essa luta levou inclusive ao perigoso financiamento estatal de muitos orgãos de comunicação social e cujos critérios de atribuição dos subsídios levantaram muitas questões. Marcelo conhece e sabe que uma comunicação social a quem prestamos serviços e do qual somos marionetas pode ajudar a criar um Chefe de Estado.



Retomando a citação que abriu este artigo, goste-se ou não do programa/reportagem em questão (e aqui não posso opinar porque só vi um a reportagem que passou também ao lado e que envolvia o pequeno ditador da Cruz Vermelha em Portugal, Francisco George) a verdade é que temos um jornalista a querer relatar factos e a ser completamente barrado pelo sistema - e porque digo sistema? Toda uma classe jornalística, toda uma redacção na figura das suas chefias se colocou de imediato do lado de Sérgio Figueiredo numa atitude castrense que mesmo na prática militar moderna já levanta dúvidas...



Se estas conversas e tantas outras que sabemos existirem há muitos anos forem verdade, como é que fica a Democracia em Portugal? Como é que fica o jornalismo em Portugal? Como é que ficam os portugueses que além de assistirem a horas e horas de informação são vetados aos  faits divers, ao futebol e a uma campanha presidencial como nunca se viu num país democrático em estado de calamidade? Como ficam os portugueses que são engolidos nestes esquemas e trivialidades nacionais em detrimento do que se passa no mundo? Casos destes não faltam, sobretudo quando eram vendidos como os melhores do mundo no combate à pandemia por parte do poder executivo e presidencial e na verdade não era assim que as coisas aconteciam (Áustria, Republica Checa...), embora reconheça o esforço e o que de bom se fez.



Vivemos tempos perigosos e não aprendemos com as lições que os incêndios de 2017 nos deram neste âmbito! Não aprendemos com Tancos e com tantos outros casos, o mais recente do Novo Banco onde Mário Centeno, alegadamente à semelhança de Azeredo Lopes, foi o principal prejudicado das consertações entre um papagaio-mor e um falcão-mor do reino. O que se passa é grave, demasiado grave para ser verdade, demasiado grave para passar incólume... Em tempos de calamidade a liberdade de contar a verdade não deve fazer pausas, mesmo que essas pausas sirvam, por outro lado, para a exaltação de determinadas figuras da praça pública.

 

Mas afinal, no país onde abusar de menores é só uma asneira, onde a corrupção é incentivada não é de admirar que continuemos alegremente mais evoluídos do que os demais, esses sim, errados quando fazem aplicar a Justiça e a verdade.

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