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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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04.04.21

el Zegri e Ronda


Robinson Kanes

ronda.jpgImagens: Robinson Kanes

 

 

No seguimento da minha leitura da "Crónica da Conquista de Granada", dou comigo a ser transportado para mais um pueblo que me deixa sempre boquiaberto, isto por mais vezes que lá acorra – Ronda.

 

Conheci Ronda pela primeira vez em... Córdoba. Lembro-me de estar à espera para visitar a Catedral/Mesquita, ou seja, esperava pela celebração da eucaristia, pois assim conseguiria visitar a Catedral gratuitamente – um bom negócio, em meu entender.

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Enquanto esperava, esta incansável vontade de falar com todos, acabou com uma conversa de mais de uma hora  com um cordovês e com a esposa a prestarem-nos uma autêntica lição de história e etnologia sobre Andaluzia. Estaria tudo bem, até eu dizer que Andaluzia para mim não tinha segredos... mas eis que Ronda saltou para a discussão e afirmei não conhecer aquela localização.. “hombre, si no conoces Ronda, no puedes conocer Andalucia!”. Na verdade, aquele cordobés tinha toda a razão. Não conhecia Andaluzia, além de que me fez pensar porque raio é que nunca havia desviado caminho nas minhas imersões por aquelas terras.

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Dei comigo a ter uma aula de história sobre Ronda, aliás, terra que já não me era estranha da leitura do “Último Cabalista de Lisboa”, de Richard Zimler - as menções ao importante Judeu de Ronda. Fiquei com uma vontade enorme de me aventurar, mais uma vez, por aquelas montanhas andaluzas e conhecer o seu Carnaval peculiar que inclui desfiles a cavalo e a “obrigação” de comer migas na Plaza de los Descalzos. 

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Ronda surge, na “Crónica da Conquista de Granada”, como uma praça fortíssima e de grande importância para os Mouros! Ouso até dizer, que foi o primeiro rude golpe contra o reino de Granada.

 

Depois da conquista de Zahara por Aben Hácen, já os cristãos haviam conquistado praças como Medina Sidonia, Alhama (mesmo às portas de Granada), Zahara (reconquistada) e Loja. Também em Granada, a governação, era agora disputada por Aben Hácen e pelo seu filho Boabdil ("o infortunado") e em Málaga, nas montanhas, os cristãos tinham sofrido uma pesada derrota. Contudo, os mesmos cristãos, haviam conseguido capturar Boabdil em Lucena (uma das mais importantes batalhas da reconquista) e vencido os mouros em Lopera. Boabdil seria mais tarde libertado sob promessa de prestar vassalagem à coroa espanhola... imagino que não tenha caído bem aos mouros.

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Ronda era agora a conquista fundamental para animar as tropas e... vingar Málaga! Para isso, os de Castela, teriam de vencer um dos mais temidos alcaides mouros - Hamet el Zegri – que já havia retirado em Coín e Lopera. Contudo, nem foi preciso ir tão longe, pois temendo a conquista de Málaga pelos cristãos, el Zegri saiu com uma guarnição para essa cidade. Quando regressou, viu Ronda ser sitiada e destruída por uma recém-chegada a esta guerra: a artilharia pesada. Sem conseguir dominar os cristãos pelo exterior, teve de abandonar os arredores de Ronda, sendo a cidade obrigada a capitular. A rendição permitiu a libertação de muitos daqueles que foram capturados na batalha de Málaga.

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Hoje, Ronda ainda espanta todos os visitantes - gloriosa e altiva naquele morro singular e unida pela puente nuevo (construída muito depois da derrota moura, nomeadamente entre 1751 e 1793) que é hoje, uma das suas maiores atracções. Do coreto, é possível imaginar o cerco cristão e os exércitos conquistadores reunidos nas várias montanhas que rodeiam a cidade, as baterias de artilharia, bem posicionadas, tendo em vista a destruição das torres e das muralhas que defendiam o “morro”. Imagino a angústia daquelas gentes e dos “governadores” de Ronda no Palácio do Rei Mouro. A expectativa e o desespero naquelas varandas que enfrentam a dura rocha e que permitem uma vista sobre os vales e montanhas a sudeste da cidade.

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Ainda é possível ver muito da Izn-Rand Onda muçulmana e facilmente se percebe porque é que Orson Wells e Hemingway ficaram tão fascinados com esta terra que é famosa pela sua Praça de Touros. Para muitos, a mais antiga do Mundo. Eu também fiquei fascinado e... não vou esquecer uma espécie de flash mob involuntária que seu deu perto da Calle Manuel Montero, numa lateral da Igreja de Santa Maria Maior: assobiei, inocentemente, o "Concerto de Aranjuez" e tive a companhia de mais de metade dos indivíduos que se encontravam na praça... eram só uns 15, mas já foi qualquer coisa.

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O Reino de Granada, esse, estava a ficar cada vez mais pequeno e, na verdade, a deixar-nos uma lição para o nosso dia-a-dia pessoal e profissional: se andamos muito ocupados com guerras de poder internas, provavelmente não vamos conseguir enfrentar as dificuldades externas, mesmo que tenhamos os melhores guerreiros e conheçamos o terreno como ninguém.

 

Continua no próximo Domingo, para lá das montanhas...

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Episódios anteriores:

Aben Hácen e Zahara

2 comentários

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    Robinson Kanes 04.04.2021

    Obrigado, José,
    Continuação de uma boa Páscoa,
  • Comentar:

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