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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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23.02.21

Eles nunca irão compreender...


Robinson Kanes

sevilla.jpg

Imagem: Robinson Kanes

Si yo suelo caminá
sobre brasah ensendía
si me gusta disfrutá
por la noche y por el día
no es que sea un super man
y es que me gusta la vida
me gusta saboreá
las cosas mas pequeñitas

Excerto de "Las Cosas Pequeñitas", Nolasco

 

Eles nunca irão compreender, até porque, já antes do confinamento, fechados em casa ou pior que isso, fechados na sua forma de estar emocional e virtual não o compreendiam... O aconchego de uma sopa de lentilhas no Albaicín e cujo calor é imensamente superado, sobretudo naqueles dias em que Granada arrefece à séria, pelos acordes de uma guitarra espanhola e o cortado sotaque do flamenco andaluz. 

 

Eles nunca irão compreender o gozo de uma sidra asturiana em Pola de Somiedo enquanto se contam as aventuras de um dia na montanha. Não conseguirão jamais atingir o que é subir aos picos do Valle del Baztan em Navarra e lá em cima, entre cadáveres de presas deixados pelos lobos, beber uma Estrella Galicia... Isto, enquanto ali bem perto, já se avistam os Pirenéus Aragoneses com os seus picos cobertos de neve. O crepúsculo perfeito antes de descermos, e já em Pamplona, nos entregarmos às delícias do Iruñazarra e aos seus piquillos regados com cerveza de bodega.

 

Eles nunca irão compreender e ficarão radiantes se tal não voltar a acontecer, a sensação magistral de viver o La Latina em Madrid, entrar na Casa Curro, e rapidamente darmos connosco a cantar Nolasco e abraçados a andaluzas cujo calor e dança nos contagiam dos pés à cabeça - isto enquanto nos embriagamos de buen vivir , cervejas e tapas.

 

Eles nunca irão compreender que Barcelona é espanhola e que as suas ruas têm de voltar a ser esse lugar seguro e em bulício, onde os verdadeiros catalães lhe dão uma cor e uma vida singulares. Nunca irão compreender como é bom passar Castelldefels com a cabeça de fora da janela do comboio e chegar a Sitges, aquele recanto tão meu e tão precioso no caminho para Tarragona. Não compreenderão jamais a essência do Mediterrâneo, não compreenderão os séculos de História que ali estão e como isso se sente em cada brisa marinha. Talvez o tenham, mas não o queiram sentir... O sangue árabe mesclado com o sangue europeu, quiçá até celta... Porque com tudo isso querem acabar e apagar dos livros da história mas jamais conseguirão destruir o nosso sentir, a nossa essência. Não deixaremos...

 

Eles nunca irão compreender na amargura de um confinamento onde o rendimento, mesmo estando sentado a ver Netflix lá chega, que Sevilha é toda uma Ibéria e todo um Mediterrâneo Ocidental numa só cidade, enquanto a Cruzcampo e a pérola de Jerez de la Fronteira regam belas comezainas, sobretudo naqueles bares onde reina o azulejo antigo, velhos e doidos que transformam uma paragem para tapear numa tarde bem passada e onde a tortilla inicial acaba com os calamares e com as gambas a la plancha.

 

Jamais irão compreender, e irão até censurar, que até numa área de serviço na Extremadura profunda podemos dividir o nosso almoço com um Guarda Civil que nos diz onde fica o melhor Bellota e que, depois de adquirido, é rapidamente devorado numa das rotas do Monfrague enquanto apreciamos um dos mais belos locais do Mundo para colocar os olhos no ar e perceber quão pequenos somos.

 

Eles nunca irão perceber que um Gómez Cruzado em La Rioja dá-nos anos de vida... E se bebido em boa companhia, mesmo que seja com os padres dos mais belos mosteiros daquela comunidade, mesmo que não os dê, já faz essa mesma vida valer a pena.

 

Enquanto nos olham de soslaio, porque rimos, porque choramos até, mas porque não pactuamos com melancolia... Com o dinheiro ganho com o nosso suor, celebramos a nossa liberdade com uns bocadillos de sebo (sim, e mais umas cervejas) em Burgos ou com uns embutidos de Salamanca que nos sabem sempre a pouco.

 

Eles nunca irão compreender quanto vale uma solha grelhada em Vigo e o sabor de um Albariño Atlântico em Cambados, isto enquanto os gajos da mesa do lado dividem o chouriço assado e o pão connosco. Não sabem quão deslumbrante é a aridez envolvente de Ávila enquanto bebemos um mosto blanco numa das esplanadas da cidade.

 

Eles sabem lá quanto vale uma paella no La Pepica, em Valência, depois de uma apaixonada tarde junto dos amantes de Teruel. Uma paella com o arroz bomba antes de deambularmos pela praia ou nos deixarmos contagiar pela noite valenciana. Não sabem quanto vale a amizade de um Basco e sobretudo a sua cozinha... Nunca irão compreender por muito que expliquem o nosso comportamento, a explicação não é mais que um erro bem vestido, citando Cortazár.

 

Não... Agora na Gran Vía, enquanto as azeitonas, acompanhadas por um Vermut antecipam o jantar que se avizinha mais lá para os lados de Chamberí, chego efectivamente à conclusão de que eles não irão mesmo compreender, até porque, mesmo que o vírus desaparecesse hoje, lá estariam amanhã, ainda com uma máscara no rosto, com o sofá bafiento amolgado, com a televisão ligada e muito provavelmente com o computador num qualquer site ou rede social... a dizerem-nos "vai p'ra casa" ... Admito que também não estou interessado em explicar, porque existem coisas que nunca se poderão ensinar e muito menos ter.

 

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- Para quem quiser ler: "El Lápiz del Carpintero" de Manuel Rivas... A verdadeira moral da Guerra Civil de Espanha... Para os mais esquecidos e que andam desejosos de ver uma nação a matar-se e onde o terrorismo e a violência justificam tudo. Pode ser um bom começo para acordarem para a realidade. Penso que existe em Portugal.

- Para quem quiser ouvir: carreguem-lhe com o Nolasco e com "Las Cosas Pequeñitas"- proibido ficar parado e com o copo vazio.

- Para quem quiser ver: "Los Lunes al Sol" de Fernando Léon De Aranoa com Javier Bardem, bem a propósito destes tempos e que fala de quem trabalha e gosta de viver.

- Para quem quiser subir ao palco: "He Nacido para Verte Sonréir" de Santiago Loza e que foi exibido no Teatro de La Abadía em 2017, mas deve andar algures por aí online.

- Para quem quiser beber: uma Estrella Galicia ou um "Paco & Lola Alabarino Rias Baixas 2017".

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