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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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31.08.21

Evolução ou Colapso...


Robinson Kanes

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Imagem: Robinson Kanes

 

é que és um palerma. E eu só gosto de palermas. Aquilo a que outrora se chamava inocência. Toda a gente anda agora com as cabeças desmedidamente inchadas  e não sabem o que fazer com elas.

André Malraux, in "A Esperança"

 

Ao assistir a alguns episódios do quotidiano de um país e de uma sociedade europeia, sobretudo, sinto-me numa espécie de comício de malta radical em que o Noddy e o Ruca tendem a hostilizar com o Bob, o construtor... Isso preocupa-me, sobretudo se tivermos em conta algumas situações... Ou então, simplesmente acordei com má disposição e fiz uma mixalhada popular, expressão eternizada pelo duo Ele e Ela.

 

Muitas destas situações que vou enumerar, e sobretudo em Portugal, não são de hoje. Todavia, as gentes civilizadas evoluem, e como tal, também era de esperar isso de um país onde o parque automóvel, "gadgetial"e habitacional está ao nível dos melhores do Mundo. Um país tão rico em que o desemprego atinge minímos anunciados com pompa e circunstância e depois vai-se a descobrir e deve-se às contratações apressadas para a máquina do Estado e do poder local (ano de eleições tem sido uma corrida), da limpeza das listas e das célebres formações inúteis. Os sindicalistas aqui não parecem existir, não vá alguém falar do facto das empresas e do Estado terem de pagar as suas ausências diárias para actividades sindicais (ou seja, nada) preferencialmente à sexta-feira...

 

Não é de hoje que temos noção que nos continuamos a afundar a olhos vistos e qualquer dia o país dos iogurtes também nos ultrapassa. Até a comparação entre Portugal e Roménia já começa a ser arriscada... Consigo imaginar os romenos a fazerem um esgar de que não estão muito contentes com a comparação. Como Malraux, nunca vi tanta gente brilhante, daí ficar admirado com a situação.

 

Temos uma grande parte do tecido empresarial submisso ao Estado quer por via da mendicidade a esse mesmo Estado quer por via do real amiguismo. Do outro lado também temos o tecido empresarial que está acima do Estado... Se a este status quo adicionarmos esse mesmo Estado e a sua vontade de ser o agente económico primordial temos uma espécie de regime soviético que apenas se verga a meia dúzia de grandes empresas... Temo até que muitas empresas portuguesas e gabinetes minsiteriais tenham uma foto de Estaline e Mao num qualquer gabinete.

 

Perante uma opinião pública completamente inexistente (comentadores de ocasião e os mesmos de sempre a opinar são aquela praga não negacionista mas negocionista) vemos leis básicas a serem alteradas - ainda estou para ver onde vai parar a lei do ódio - e a serem utilizadas contra aqueles que só dizem "mas eu tenho uma opinião diferente". É o país das leis criadas à pressa para apagar crimes (a moda que começou com o processo Casa Pia) e até onde presidentes de tribunais superiores dizem que existem demasiados subterfúgios jurídicos para quem tem dinheiro quando se trata de corromper legalmente a Justiça (recursos, apelos, reclamações...).

 

Para quem diz não ou pensa diferente, encontram-se rótulos: reaccionário, fascista, negacionista, machista, homofóbico, antipatriota, vale tudo... Na verdade, no dia-a-dia a importância é pouca, mas é nesse assobiar para o lado que acabamos por ser dominados por aquelas minorias que Lenine dizia que têm sempre razão... Aquela razão que submetia os outros, a maioria, ao jugo desses seres superiores normalmente auto-proclamados intelectuais ou donos de uma certa verdade acerca do bem comum. Essas minorias que parecem provocar em algumas personalidades uma espécie de cata-ventismo mesmo que a base do discurso não tenha qualquer validade.

 

O mundo anda também estranho quando um Governo que copia e é copiado pelo Governo Português, através do seu Ministério da Igualdade, na celebração do dia do nascimento de García Lorca, adultera uma foto de Dali com a esposa, substituindo esta por Lorca incentivando a ideia da homossexualidade entre os dois, algo que nunca ficou sequer provado, mas que se tentou fazer passar numa lógica de exaltação desta forma orientação sexual. Não foi um activista de sofá com um computador, foi um ministério sob a égide da esposa do comunista e tirano Pablo Iglesias, a senhora Irene Montero! Afinal também já vivemos num país em que dizer que uma mulher é excitante leva a um ataque cerrado por parte dos puristas, mas se for acerca de outra cavalheiro, estamos perante um glorioso cidadão!

 

Vivemos tempos estranhos em que é machismo elogiar o corpo de uma mulher mas se faz notícia e se exalta mais uma vez a oferta de um pénis por parte de um músico a outro músico. No meio de tudo isto já nem uma capa de um disco dos Nirvana foge à loucura colectiva... Apreciei sobretudo as notícias onde se escondia o pénis do bebé... Só alguém idiota (ou com outros pensamentos "puros") pode pensar que mostar esse mesmo pénis é chocante ou sexista - serão os mesmos que abominam a existência de uma família tradicional ou de uma classe média trabalhadora e dona da sua vida e das suas escolhas. São os mesmos que aplaudem gente nua na rua a abanar o dito pénis em parades nada sexistas...

 

É a sociedade em que se diz "vamos lutar por aquilo que eu penso e deve ser feito, com respeito por tudo e por todos porque todos temos direito a" mas se alguém diz "eu não concordo bem com isso" o discurso de liberdade passa a "morte a..." ou "é um estúpido". 

 

Também é estranho que num país democrático não exista oposição e toda a gente ache normal e que nesse não oposição se tivesse deixado o Governo acabar com os debates quinzenais na Assembleia da República, mas todos os dias os representantes desse mesmo Governo surjam em jornais e televisões em entrevistas e artigos que só um tolo não percebe que estão completamente orientados para um resultado: propaganda! É o Governo preocupado com sucessões e poder e pouco com país... Atiram-se umas notas eles que apanhem. Dinheiro para os pobres, para o interior para as creches. Dinheiro para investimento e cada um ser livre desta máquina? Não! Pobres transformados em gente com capacidade para investir nas coisas mais básicas é algo que não queremos, não comecem eles a pensar muito e a empoderarem-se.

 

Ninguém percebe que o Primeiro-Ministro não tenha tempo para ir à Assembleia da República por motivos de agenda mas seja presença quase semanal em entrevistas no jornal onde o seu irmão é director (Expresso), na televisão onde o seu irmão também manda qualquer coisa (SIC) e ainda tenha tempo para pulular pela RTP e por jornais como o Público. Não existe tempo para responder ao país e a comissões mas existe tempo para tudo isto sem esquecer as presenças em programas de variedades. E se só estiver a ler este parágrafo, não estou a recordar a República Democrática Alemã. Democrática... Pelo menos sentido de humor tinham.

 

Seguindo o parágrafo anterior e num plano mais alargado, temos uma Europa e os Estados Unidos, onde Portugal se inclui como um dos melhores exemplos, onde vemos a imprensa escrita e televisiva na promoção (instituição?) de tendências e ideologias, de destruição de costumes e da própria paz (o caos e o medo, sempre o caos e o medo), de falsas notícias, de exaltação de feitos menores, de heróis motivadores (a tendência do momento) enquanto por outras paragens se promove a história, a tradição, o futuro com um sentido e para as pessoas, os pequenos gestos que mudam uma cidade mas fazem crescer e desenvolver o mundo... Onde as notícias são notícias e o espaço que separa a opinião da já referida notícia está mais que claro... Não se criam notícias, dão-se notícias obedecendo a todos os critérios do que é ser jornalismo, ou pelo menos a mais alguns, o Mundo não é perfeito. Começa a ser mais inteligente seguir a televisão pública do Usbequistão que uma CNN, uma Sky ou uma TVI.

 

É neste Europa e neste Ocidente onde Portugal também é um dos melhores exemplos, que vemos o associativismo e tantas e tantas Organizações Não Governamentais (ONG) preocuparem-se mais com a prosperidade económica dos seus orgão sociais do que com o problema cujos estatutos (mais uma piada burocrática) dizem estas mesmas servir. Organizações Não Governamentais que de "não" têm pouco pois vivem de sorver os melhores fundos nacionais e europeus para se perpetuarem mais uns anos e cedendo sempre (quando não são mesmo um braço) desse mesmo Governo que as alimenta. Não raras vezes, são estes mecanismo o maior exemplo de entropia quando se trata de encontrar uma solução para um problema.

 

Algumas destas organizações que nada produzem são das instituições que melhor remuneram os seus orgãos sociais, mais fundos arrecadam e escondem e onde os resultados não são prioridade, isto quando se preocupam em tornar os mesmos públicos como é de lei. 

 

Retomando o plano nacional, acha-se normal que todos os dias se atropelem direitos e liberdades, que ainda, ao fim de todos estes meses não se saibam os resultados dos eventos-piloto da Covid e de um famoso atropelamento na A6! Acha-se normal que um Presidente da República (grande salvador e amigo dos portugueses) veja isto e nada faça, que veja uma lei ilegal em que se ilibam autarcas que cometeram ilegalidades mas apenas veta porque se está perto das autárquicas, numa lógica de, depois aprova-se, o timing é que é mau. O Presidente que fala de tudo e de nada, que nos últimos dias comportava-se de uma forma deselegante e quase infantil acerca do internamento de Jorge Sampaio. Fala de futebol, visita balneários e faz daí directos, tem de manter os fretes aos livreiros e às televisões (tudo se paga...), mente aos portugueses, confunde a sua hipocôndria com os destinos de milhões de indivíduos, entra em guerra e faz pressão sobre uma entidade nacional de saúde e ainda desvaloriza o papel de um Vice-Almirante (também com demasiado protagonismo para quem dizia apenas querer ser um meio para um fim) porque parece não conseguir estar a lidar com o protagonismo do mesmo. Confesso que toda esta festa em torno de Gouveia e Melo não é mais que a demonstração de que não estamos habituados a ver alguém trabalhar bem e com disciplina e quando alguém o faz é rei. O número dois da antiga equipa que tanto é criticada vive agora tempo mediático de qualidade, mas cuidado com a disciplina, porque se virar a mesma para outros terrenos arrisca-se a perder o carinho daqueles que tanto o exaltam. Já se fala em candidato a Presidente da República... A ser, e depois do exemplo do comentador-mor, já percebemos que no futuro nem será preciso fazer campanhas e temos um candidato único. O comentador, pelo menos, em tempos apreciava essa lógica, agora é democrata.

 

Em relação a um presidente que existe em todo o lado sem existir verdadeiramente, a sede de aparecer, tem levado a uma camuflagem da sua inutilidade só comparada com os filmes de narcotraficantes dos anos 80 em que os presidentes de países da América do Sul muito populares e sempre em festa, eram fantoches nas mãos dos narcotraficantes, até chegar o Chuck Norris e limpar a coisa. Ou o Pedro Simas... Agora mais escondido depois da escandaleira com a Zeiss. Afinal, estamos no país onde passar dados de cidadãos estrangeiros e portugueses a regimes sanguinários é uma prática banal e aceite e onde a corrupção parece ser agora uma prática obrigatória para se ganharem câmaras municipais. Para uma certa deputada dita independente, é aliás um tema que não deve ser discutido para que os pobres não sejam ludibriados pelos (e lá vem uma expressão tipo apesar de já não a ouvir ha muito) neofascistas. Corrupção e pobreza, assim é que se está bem...

 

Finalmente, apresento este artigo como a minha penúltima participação no SardinhaSemLata. É chegado o tempo de dar lugar a outros, afinal quem me conhece, sabe que não gosto de criar raízes nas cadeiras. Vou agradecendo a todos os que me foram acompanhando, que me enviaram mensagens de incentivo e me aturaram tudo e mais alguma coisa. Reconheço, e sem falsas modéstias, que é uma honra de todo o tamanho ter tido pelo menos que fosse, uma pessoa que me acompanhasse neste caminho... Inclusive alguns mais idiotas.

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Para quem quiser ouvir: não é a música mais feliz para se escutar, mas é uma verdadeira pérola de Tchaikovsky e da liturgia bizantina! O "Hino dos Querubins" é das coisas mais aproximadas à pureza e ao infinito que alguém pode escutar e com paralelo na "Liturgia de São João Crisóstomo" também bizantina e da autoria do mesmo compositor.

Para quem quiser ler: "Human Error" de James Reason, catedrático de Psicologia em Manchester e Leicester e um verdadeiro conhecedor do "erro" sobretudo em ambientes perigosos. Bastante técnico e longe de viagens na maionese de uma certa corrente que confunde ciência com...  Um excelente suporte a quem tem de lidar com a decisão e com os resultados dessa mesma decisão em ambientes complexos. Como se diz por algumas paragens, "é um puto dum livro".

Para quem quiser assistir: no Teatro di San Carlo em Nápoles, dia 19 de Setembro, e num tributo a Enrico Caruso, estará Freddie de Tommaso, um tenor de excelência e que começa agora a atingir a ribalta. Terá a companhia de Francesco de Meli e Francesco Demuro. Tem sido excelente acompanhar a carreira deste intérprete! Soa a pedantismo, mas não poderia deixar passar este convite a quem me quiser acompanhar.

Para quem quiser comer e beber: em Coja, um restaurante de excelência e onde a simpatia é uma coisa daquelas. Mas a simpatia dá lugar a um Arroz de Cabidela fenomenal, a um Chambão de Borrego de bradar aos céus (com Tchaikovsky?) e a um Robalo Braseado de comer e chorar por mais! Sim, Robalo e no Centro! O Principe do Alva é um restaurante fantástico e com preços justíssimos mesmo no centro! Ah! As sobremesas... Han... As sobremesas.

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