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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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27.07.21

Exaltar Otelo é Exaltar o Terrorismo


Robinson Kanes

img_980x653$2017_04_20_19_24_00_219699.jpgCrédtios: https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/marcelo-diz-que-democracia-nao-e-dado-adquirido

 

Cínico: um malandro cuja visão deficiente lhe apresenta as coisas como elas são, não como deviam ser

Ambrose Bierce, in "Dicionário do Diabo".

 

Que um partido como o Bloco de Esquerda, que parece não existir desde que se vendeu ao PS, exalte Otelo é normal, afinal é uma espécie de mix de movimentos que defendem muitos dos regimes mais atrozes que alguma vez existiram e faz questão de se alimentar da Democracia que o mesmo deseja eliminar, criando a sua, uma espécie de PCP mais radical e que também coloca Otelo como um senhor. Nada de admirar quando se diz que Cuba, Venezuela e Coreia do Norte são exemplos para o Mundo. Que lhes demos a liberdade que negam a outros, mas que nunca lhes demos o poder sob pena de acabarmos como escravos ou enterrados numa vala comum.

 

Que um Governo PS exalte este senhor tendo indivíduos como Ferro Rodrigues e Manuel Alegre À cabeça , também não é de admirar, afinal estes têm semeado um regime de partido único onde ainda só não existem indivíduos encostados a um muro e com uma arma apontada à cabeça. Já faltou mais, mas por enquanto as mortes vão sendo a ostracização, os afastamentos e destruição de carreiras. Afinal, o poeta da espingarda ainda deve, apesar das tremuras, disparar qualquer coisa.

 

Que um presidente da república que defendeu um regime fascista, chamou cobardes aos que sendo obrigados não queriam defender esse mesmo regime colonialista em terras de África e exaltou este cavalheiro, já dá que pensar. Marcelo é uma espécie de padre de extremas-unções pop, quer ser sempre o primeiro a falar quando alguém morre (sobretudo se tiver mediatismo) mas por vezes devia aprender com Juan Carlos e ficar calado. Padre até é algo que assenta bem, sobretudo quando, como Chefe de Estado de um país laico, beija a mão ao Papa e faz sempre questão de aparecer em todas as procissões... Velhos hábitos que lhe ficaram dos tempos de liberdade... Liberdade para quem vivia das coisas boas que o regime castrador da liberdade de outros lhe dava. Também não é de admirar tendo em conta que se baba perante a presença do grande Estaline da era moderna, Xi Jinping. Ainda não fui ver como está o cata vento no quintal... Mas nos últimos tempos os ventos são de leste.

 

Também não é de admirar uma certa exaltação mediática de um criminoso. Sim, é criminoso porque foi condenado, não foi absolvido, mas sim alvo de uma amnistia dada por amigos sem sentido de Estado. Isso não é uma absolvição. Este cavalheiro terrorista é mais uma daquelas personagens em Portugal que uma certa corrente mediática, cultural, política e até académica, pretende transformar em herói nacional. Não é nem nunca será, isto se partirmos dos princípio que esta espécie de regime degradante e degradado que temos em Portugal um dia será ultrapassado. Não é de admirar porque promovemos criminosos a cargos políticos, porque votamos em criminosos para políticos, porque não reconhecemos o mérito, porque não respeitamos e temos o dom de apreciar tudo o que é fora da lei... Desde que não seja um tipo com fome a roubar maçãs, é tudo boa gente! Se damos a cara ao lado de criminosos, mendigamos bilhetes para a bola nos camarotes VIP sabendo que tudo se paga, mesmo que o contribuinte saia prejudicado. De facto, exaltar Otelo é coisa pouca... Sobretudo porque o pós-25 de Abril ainda é contado na sociedade e na escola como um mar de rosas e feito à moda de uma corrente mais à esquerda que dispara sobre quem pronuncie 25 de Novembro... Não fosse essa data e ainda hoje andávamos num mega kolkhoz

 

Pode ser que um dia, se alguém da família daqueles que o exaltam acabar com um saraivada de projécteis nas costas ou em bocados numa rua qualquer perceba que ser terrorista não é propriamente a mesma coisa que ser uma pessoa de bem. Além disso, os que amnistiaram um terrorista são os mesmos que querem condenar um post de uma modelo numa rede social porque violou uma das regras mais estúpidas que existe em Portugal: o dia de reflexão. São os mesmos que a pretexto de uma Carta dos Direitos Humanos para a era digital querem efetivamente é retirar direitos aos humanos.

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Para quem quiser ler: "Under a White Sky: The Nature of the Future" de Elizabeth Kolbert. Ainda há quem se preocupe verdadeiramente com o planeta. Ainda existe quem no seu dia-a-dia, longe de holofotes e com pouco interesse nos mesmos faça o quase impossível para mudar o rumo das coisas. Elizabeth Kolbert mostra-nos quem e como, um livro verdadeiramente interessante e actual.

Para quem quiser ir: uma noite são tomense em Setúbal? Sim, é possível e vai acontecer na Casa da Baía. Podendo, lá estarei a provar tudo o que aquela terra linda tem para oferecer. Chef Fachica e Tonecas Prazeres prometem uma noite daquelas.

Para quem quiser ouvir: Benjamin Biolay é daqueles músicos que viciam. A esperança de que a boa música tem palco aumenta ao ouvir este cavalheiro. Deixo "La Superbe", "Les Cerfs Volants" e "Ton Héritage". Banda sonora para tantas noites, tantas reflexões, tantas viagens e tantos e bons momentos.

Para quem quiser aprender: É no espaço da Associação Trajetória Primordial que Rita Salema e Maria Henrique realizam uns interessantes workshops de teatro. Para futuros actores ou simplesmente para melhorar as nossas competências, é sem dúvida um investimento que merece a pena.

 

6 comentários

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    Robinson Kanes 27.07.2021

    A tentativa é boa, no entanto... Marcelino da Mata cumpria ordens, era um militar ao serviço de um Estado que, e olhando à época , estava a defender o seu território - se era uma guerra com razão, a história é outra. Além de que, ser preto e herói de guerra de um país branco, ainda custa a digerir a muitos.

    Muitos dos que exaltaram Otelo, também exaltaram Marcelino, pelo menos isso... Todavia, não me recordo que Marcelino da Mata, no pós-25 de Abril, sem ordens superiores, e alegadamente num Estado Democrático tivesse andado a matar inocentes pelas costas... Se formos por aí, e por essa visão da coisa, o que não falta em Portugal são terroristas, nomeadamente todos aqueles que combateram em África. 


    Além de que, uma coisa é terrorismo, outra é guerra. Se bem que, por vezes se possam tocar, são coisas distintas e o ambiente também. Por isso é que gerir tropas em guerra é um trabalho para o qual poucos estão talhados.


    Obrigado pelo comentário.
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    Anónimo 27.07.2021

    Sei que há quem defenda que “no amor e na guerra vale tudo”, mas não é bem assim, caso contrario as leis da guerra, nomeadamente a Convenção de Genebra não serviriam para nada.

    Otelo Saraiva de Carvalho fez duas comissões em Angola, uma na Guiné e ainda veio fazer o 25 de Abril, não consta que tenha cortado tomates, orelhas, empalado insurgentes nem incendiado cubatas, talvez por isso, não cumpra para alguns, os requisitos para ser considerado herói nacional.

    Convém recordar que sem o 25 de Abril, não teria havido o 25 de Novembro, se bem que para muitos, isto seja uma questão de pormenor, já que aquilo que realmente celebram é o 24 de Abril…

    Concordo consigo quando diz que “o que não falta em Portugal são terroristas”…Antes das FP-25, houve o ELP e o MDLP, que praticaram actos igualmente bárbaros e condenáveis, “legitimados” por alguns, em nome da imperiosa necessidade de combater o comunismo, o mesmo argumento utilizado por exemplo no golpe de estado do Chile de 1973 ou na invasão de Timor-Leste pela Indonésia em 1975…Os terroristas da extrema-direita foram também eles amnistiados, perdoados, homenageados, integrados na sociedade como “portugueses de bem”.

    Estou grato a Otelo Saraiva de Carvalho por ter liderado uma revolução pacifica, por ter ajudado a evitar que eu fosse “bater com os costados” a uma qualquer província ultramarina e por ter contribuído para que hoje todos tenhamos a liberdade de escolhermos, sem constrangimentos, os nossos heróis.

    Neste contexto me despeço, tomando a liberdade de o fazer, usando as suas próprias palavras.

     

    “um herói que cometeu erros, que combateu numa guerra sem razão, mas não deixa de ser um português que defendeu o seu país…”

     

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    Robinson Kanes 27.07.2021

    Acrescente apenas que quando os tempos eram de feição foi colaborador da PIDE e admirador de Salazar... Acrescente também o 25 de abril operacional... Assim fica a história mais completa.

    Otelo foi oficial de Artilharia, esteve muito mais longe do mato que Marcelino. Todos são importantes em combate, mas o stress da artilharia nada tem a ver com o stress de infantaria. Não justifica crimes, mas é a realidade. Se tivesse ido "bater com os costados" numa qualquer guerra ou combate perceberia o que quero dizer.


    Otelo aproveitou as circunstâncias... Teve o seu mérito, mas mais tarde ou mais cedo teria sido outro. O regime estava decrépito e até não sei se já desejoso de uma revolução. Já alguém abriu essa porta... A história talvez a coloque bem à vista. Um tema a discutir lá para a frente.


    O facto de ter existido terrorismo antes do 25 de Abril, não iliba quem o praticou depois. Terrorista é um terrorista.


    E concordo consigo, um português que é e sempre será um português, mas isso não implica que lhe permita tudo e mais alguma coisa e inclusive colabore na adulteração da história. 


    Obrigado, mais uma vez pelo comentário, e por acompanhar os meus textos, mesmo que não estando sempre de acordo, faz parte .-)
  • Otelo não andou no mato? Otelo foi instrutor do meu avô no curso de oficiais. Otelo era um estratega genial, um excelente professor, e um oficial sem "manias", segundo me contaram.... já Spínola....
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    Robinson Kanes 04.08.2021

    Mais uma interpretação forçada... Queres comparar um oficial de carreira e de artilharia com alguém de infantaria? Com um comando? São ambos necessários, ambos importantes, mas um está mais resguardado que o outro. E ter sido instrutor no curso de oficiais, não é propriamente andar no mato. Spínola é outra personagem, espero que aquilo que te contaram não tenha sido influenciado pela inimizade da Guiné entre Spínola e Otelo...
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