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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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22.09.20

Filhos e Pressão Social...


Robinson Kanes

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Tiziano Vecellio - Madonna del Coniglio (Musée du Louvre)

Imagem: Robinson Kanes

 

Viver em função de uma moral é sempre um drama.

André Malraux, in "A Esperança"

 

 

Este artigo vem no seguimento da caixa de pandora que recentemente foi aberta, e ainda bem, pela Isa Nascimento neste mesmo espaço. Como o tema é vasto, procurei centrar o artigo de hoje num só aspecto, a pressão social para ter filhos (também inspirado num artigo/testemunho que tive oportunidade de ler no Medium). Uma espécie de grito pelo direito a ser um humano, e deter todas as emoções humanas independentemente da existência ou não de filhos. Não é também, a ideia deste texto defender o ter ou não ter filhos, embora já exista muita pesquisa que olha para o outro lado da questão e defende que ter filhos nem sempre é sinónimo de felicidade em comparação com quem não os tem (Anderson, S. A., Russel C. S., Schumm, W. R., 1983, Perceived marital quality and family life-cycle categories: A further analysis, Journal of Marriage and the Family/Glass, J., Simon R.W., Andersson M.A., 2016, Parenthood and Happiness: Effects of Work-Family Reconciliation Policies in 22 OECD Countries, AJS. 122(3): 886–929.)

 

Foco-me, sobretudo, numa realidade à qual tenho assistido nos últimos tempos e que não se cinge apenas a um caso. Sou "confrontado" com várias situações onde várias mulheres metralham o corpo com severas consequências externas e internas somente para satisfazerem a vontade de maridos, companheiros, familiares e até amigos. Mulheres que desenvolveram várias patologias e em alguns casos viram os seus corpos transformados para pior. Poderão dizer que a imagem não é tudo, mas para dizermos isso temos de mudar a sociedade, e neste momento, a imagem é importante, não sejamos hipócritas. Basta perceber que chamamos estúpido a alguém que se suicida porque não tem dinheiro para viver e sustentar os filhos, mas elevamos à categoria de super star alguém que arrisca a vida para ganhar mais uns músculos.

 

Num mundo em tamanha convulsão, onde tudo o que é antigo é para derrubar, no que toca a questões essenciais e que tocam cada um de nós, continuamos a enterrar a cabeça na areia. É neste iluminado século que continuamos a exercer uma enorme pressão sobre muitas mulheres para engravidarem, para perpetuarem a espécie, mesmo que estejamos num mundo de futuro incerto e carregado de seres-humanos. É nesta sociedade desenvolvida que submetemos mulheres à ostracização e as colocamos perante riscos de saúde que, em situações limite de tratamentos IVF (In Vitro Fertilization) podem acabar na morte. Existe, todavia, já alguma pesquisa que adverte para o facto das mulheres que não têm filhos por opção se sentirem menos stressadas face àquelas que não os podem mesmo ter, a título de exemplo, fica um estudo que envolveu 1200 mulheres e que pode ser consultado aqui de uma forma mais simples isenta de custos.

 

Neste contexto, muitas mulheres e homens (não são só elas) ainda enfrentam o estigma de serem excluídas socialmente do grupo de amigos, afinal, o casal (ou indivíduo) sem filhos não ganha o direito de participar no jantar onde todos levam os descendentes. Presenciei a algumas situações onde as coisas não correm mesmo bem. Outros, pelo contrário, correm na busca de atingir o patamar de gerar uma criança, comprar a casa e adquirir a station wagon conforme os preceitos da sociedade e em alguns casos até olham para os outros de soslaio, o patamar abaixo - seja lá o que isso for. Alguns são tão rápidos e esgotam tão facilmente as emoções e o empreendimento que os níveis de felicidade baixam consideravelmente, em algumas situações, em pouco mais de um ano.

 

Muitas mulheres e homens também acabam por ter de lidar com outras dificuldades e encargos porque, não tendo filhos, supostamente têm mais tempo disponível (e alegadamente uma vida espectacular) e portanto podem sujeitar-se a outros trabalhos, períodos de férias, maiores sacrifícios em termos de horário de trabalho e até alguns riscos porque não têm responsabilidades familiares. O homem social de hoje faz escolhas, e essas escolhas, não "ferindo" ninguém, devem ser respeitadas de igual modo, até porque, não raros casos, muitas das situações que referi acima, não sendo impostas ou abusivas, até acabam por ser redimidas voluntariamente por parte dos childness employees.  E porque não faltam exemplos, não são raros os casos em que a questão é colocada no ponto de "não sabes o que é a vida nem o amor se não tens filhos, é algo que não entendes" - nada mais errado, muito provavelmente, o estar do lado de lá até permite ver situações e tirar conclusões que, alguém tão envolvido não consegue. Colocando um pouco de humor na temática, a minha resposta de homem sem filhos é simples: não tenho filhos, mas já fui/sou filho e sei bem como levar a minha adiante.

 

Não obstante, sou obrigado  levantar uma questão:  será que quem tem filhos não poderá ser mais egoísta e ter menos amor em relação ao próximo do que a pessoa que não tem filhos? Quantas vezes prejudicamos, especialmente os pais dos filhos dos outros, para que aos nossos não falte uma vida de luxo que permitiria salvar todas as crianças do Zombo no Uganda?

 

E finalmente, deixar alguns temas para pensarmos e que estão relacionado com o facto de muitas mulheres também deixarem a maternidade de lado devido a muitos dos ridículos standards que actualmente, especialmente na sociedade Ocidental, rodeiam o facto de ser mãe? E o futuro? Enquanto falamos da necessidade de gerar filhos, assistimos a um maior número de pais abandonados à sua sorte em hospitais, lares, asilos ou apartamentos... E antes de chegarmos aquio, talvez fosse interessante perceber o que é que se está a passar em termos de stress e inquietação com os nossos jovens. Uma coisa terá pouco a ver com a outra, é um facto, mas não deixa de ser interessante pensar no assunto, porque talvez encontremos por aí algumas respostas.

 

Outras leituras:

American Psychological Association (2018). Stress in America: Generation Z. Stress in America™ Survey.

Blackstone, A. (2014). Doing family without having kids. Sociology Compass, 8, 52-62.

Bram, S. (1984). Voluntarily childless women: Traditional or nontraditional? Sex Roles, 10, 195-206.

Carroll, L. (2000). Families of two: Interviews of happily married couples without children by choice. Bloomington, INXlibris LLC

Debest, C., & Mazuy, M. (2014). Childlessness: A life choice that goes against the norm. Population & Societies, 508, 1-4

Fiori, F., Rinesi, F., & Graham, E. (2017). Choosing to Remain Childless? A Comparative Study of Fertility Intentions Among Women and Men in Italy and Britain. European journal of population = Revue europeenne de demographie33(3), 319–350. 

Gillespie, R. (2000). When no means no: Disbelief, disregard and deviance as discourses of voluntary childlessness. Women's Studies International Forum, 23(2), 223-234.

Hakim, C. (2005). Childlessness in Europe: Full research report to economic and social research council (10/03/2005).

Jeffries, S., Konnert, C. (2002). Regret and psychological well-being among voluntarily and involuntarily childless women and mothers. International Journal of Aging & Human Development, 3, 89-106.

LaMastro, V. (2001). Childless by choice? Attributions and attitudes concerning family size Social Behavior and Personality, 29(3), 231-243. 

Mollen, D. (2006). Voluntarily childfree women: Experiences and counseling considerations. Journal of Mental Health Counseling, 28(3), 269-282

Park, K. (2002). Stigma management among the voluntarily childless. Sociological Perspectives, 45(1), 21- 45

Stacey, J. (1996). In the name of the family: Rethinking family values in the postmodern age. Boston, MABeacon Press.

 

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