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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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14.04.20

Fraca Comédia...


Robinson Kanes

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Créditos: https://www.historyhit.com/facts-about-king-richard-iii/

 

Era evidente que os jornalistas adoravam e que ele adorava os jornalistas, como você já deve ter compreendido, eu desconfio das pessoas que os jornalistas adoram.

Javier Cercas, in "As Leis da Fronteira".

 

Tenho de começar a minha passagem desta semana com o espanto que tenho por termos um Presidente da República que está em todas, reage prontamente a tudo, e claro, sabe tudo... Exceptua-se a questão de Tancos e alguns casos bicudos da nossa praça, sobretudo os que envolvem indivíduos que o costumavam convidar para umas férias em ilhas brasileiras.

 

A mais recente acrobacia digna de Circo Rataplan aconteceu esta semana, e não foi com a aprovação de mais um diploma "com dúvidas". Foi sim a saudação ao enfermeiro português que teve a seu cuidado o Primeiro-Ministro britânico Boris Johnson. Apareceu nos jornais e lá foi o protagonista-mor em busca de mais um tempo de antena. A verdade é que o enfermeiro ficou famoso e sem querer deu uma mãozinha a um dos filhos do regime que provocou, muito provavelmente, a sua fuga para Inglaterra.

 

É triste vivermos num país onde as mais altas figuras do Estado só reconhecem quem trabalha quando os elogios partem primeiro dos outros. E não falo dos condecorados e elogiados do costume, esses são sempre os mesmos e já não espantam ninguém no país dos corporativismos. Mas afinal, isso também não é o reflexo do nosso comportamento como cidadãos? É mais fácil vivermos numa discussão fútil mas que não consegue esconder um certo à-quoi-bonisme crónico.

 

Este elogio e engalanar, não foi mais que um reconhecimento da hipocrisia de um indivíduo que, de facto, representa a nossa realidade. Faz-nos lembrar aquelas fracas comédias em que o presidente da câmara se aproveita sempre do sucesso deste ou daquele indivíduo que chega à terra (a mesma terra que deixou porque a isso o obrigaram) e não o larga como se fosse uma lapa. 

 

Mas talvez, como já referi, tudo isto seja o reflexo deste nosso comportamento como indivíduos e cidadãos e por isso termos em determinados cargos, personalidades à nossa imagem. Talvez seja o reflexo do país pequeno, tacanho e provinciano, que até tem alguns directores de grandes empresas que parecem ter vergonha de escrever português e mesmo perante abordagens na língua de Camões, respondem em inglês (muitas vezes, um inglês macarrónico). É cultural dizem... É cultural ser estúpido, sem dúvida.

 

Abram a praça, deixem passar a banda, vamos condecorar o enfermeiro e fazer uma grande festa... Bem ao estilo de Fellini. Não há melhor forma de varrer a incompetência e a falta de carácter para debaixo do tapete. E quem estiver mal que se mude, que afinal, foi isso que provavelmente um certo enfermeiro terá feito. Enquanto isso, lá se vai gritando "O meu reino por um cavalo!" 

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