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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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06.06.21

Granada: Caprichos, Incêndios, Rendições e o Valente Muza


Robinson Kanes

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Imagens: Robinson Kanes

 

É difícil ficar indiferente a Granada e a Rainha Católica não foi excepção. D. Isabel, apaixonada pela cidade, decidiu com a sua corte dirigir-se até Zubia para observar Granada com outros olhos, especialmente El AlhambraContudo, ir até Zubia era um enorme risco, aliás, o bravo Marquês de Cádiz preveniu a rainha para esse facto, mas a mesma decidiu não ser demovida do seu capricho.

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O resultado não poderia ter sido pior, temendo um ataque, a cavalaria moura saiu da cidade e partiu em direcção à guarnição católica. Apesar dos pedidos da rainha para que nenhum cavaleiro respondesse ao ataque, o combate e posterior evacuação do séquito foi inevitável. D. Isabel ainda tentou manter-se junto das tropas, mas foi obrigada a recuar quando à cabeça da cavalaria granadina se encontrava o grande Tarfe, o autor da provocação no acampamento cristão.

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Esta escaramuça saldou-se com um sem número de mortos e feridos de ambos os lados e só um reforço de cavalaria católica permitiu que não ocorresse o pior. As perdas foram imensas, sobretudo de grandes cavaleiros da coroa de Castela. Perante esta tragédia, e com algum sentimento de culpa, a rainha, após a guerra, ordenou a construção de um mosteiro na aldeia de Zubia e que ainda hoje aí se encontra.

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No seguimento deste episódio, também o Rei Fernando foi “castigado” pelo seu empreendimento de destruir o que ainda restasse de pastagens ou qualquer verdura nas imediações de Granada, como forma de vingar o ataque mouro. Na verdade, por acidente, a tenda da rainha foi atingida por um incêndio que se espalhou por todo o acampamento e os mouros só não atacaram porque pensaram tratar-se de uma artimanha por parte dos exércitos de Castela e Aragão.

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Granada, apesar de toda a destruição continuava bela com as suas ruas repletas de gente, com o bulício típico de uma grande cidade muçulmana. Boabdil, em pleno Alhambra, olhava com atenção todos os desenvolvimentos e finalmente começara a ganhar coragem para a grande batalha. Se há local onde os cobardes deixam de o ser e se tornam fortes guerreiros é no seu próprio lar. Ao apreciar das varandas daquele complexo toda a cidade e as suas gentes, terá encontrado aí a justificação para empreender um acto de valentia.

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Para Boabdil seria impensável, mais uma vez, abandonar aquele fervilhar de vida, aquele lugar encantado que era o Albaícin e que tantas e tantas vezes o acolheu e defendeu contra as investidas do ZagalAinda hoje, o Albaícin é um autêntico bairro mouro, com toda a sua arquitectura e vida a transportarem-nos para aqueles tempos. Boabdil ter-se-á recordado das épocas em que teve de fugir por aquelas apertadas ruas e por becos sem saída em que fora confrontado com as patrulhas do Zagal. Agora, já não era tempo de fugir! Com o acampamento católico a sofrer com as chamas, Boabdil e Muza não perderam tempo e aproveitaram para, logo no dia seguinte, atacar os cristãos.

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Ao que se sabe, combateu-se corpo-a-corpo em cada pedaço da vega de Granada. Não houve um jardim, uma horta, a sombra de uma árvore, um pedaço de chão que não tivesse absorvido o sangue daqueles bravos guerreiros. Segundo Frey António Agápida, até um embaixador francês que se encontrava do lado católico ficou pasmado e teceu um rasgado elogio aos guerreiros mouros que combatiam como ninguém depois de 10 anos a somarem derrotas atrás de derrotas e a perderem soldados e reis. Contudo, do lado de Castela e Aragão, a artilharia e o número de homens disponíveis era francamente superior e a batalha acabou com o recuo de Boabdil (que quase fora capturado) e Muza para dentro das muralhas da cidade. Em resposta, o rei católico decidiu erguer uma cidade, mesmo ali em frente a Granada: Santa Fé.

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Esta afronta de D. Fernando II, aliada ao corte das vias de abastecimento à cidade (onde o Marquês de Cádiz mais uma vez mostrou a sua valentia) e à ausência de apoio por parte dos reis berberes e do sultão do Egipto (a ausência de um porto onde estes pudessem atracar os seus reforços não permitia tal apoio) levou Boabdil a convocar um conselho. Aí, reuniu os melhores guerreiros, os melhores filósofos e políticos da cidade e, perante as condições de miséria e estado das tropas, todos se decidiram pela rendição! Todos... excepto Muza! Muza mostrou o guerreiro que era, e tivesse entrado mais cedo na guerra, talvez as coisas tivessem sido diferentes! Exortou ao levantamento, à força, assumiu que todos os seus soldados estariam preparados, levantou o ânimo, admitiu recrutar e distribuir armas por cada habitante da cidade capaz de lutar. Muza colocou-se como sendo o responsável por guiar todos os esquadrões, de lhes indicar todos os caminhos, de levar todos à vitória ou à morte, mas de jamais entregar a cidade e o reino! Segundo os relatos da época, perante este discurso, que não venceu o desespero dos sábios e dos governantes de Granada, Boabdil comoveu-se e caiu num silêncio que só terminou com a ordem de rendição. 

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Foi enviado o Governador da cidade, Abulcasim Abdel Melic, que negociou os termos da rendição. Estes termos abrangiam a entrega da cidade, a libertação de presos católicos, os direitos  dos habitantes de Granada, a vassalagem perante a coroa de Castela e Aragão e a concessão de terras para os dois lados. 

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Aquando do seu regresso e da apresentação das condições ao soberano de Granada, mais uma vez, Muza mostrou de que sangue era feito e, enquanto todos os outros desesperavam em lágrimas, este exclamou:

"deixemo-nos senhores de inúteis lamentações, próprias de mulheres e crianças; somos homens e tenhamos coração, não para verter tristes lágrimas mas sim o nosso sangue. Observo que o ânimo de todos está de rastos, que é impossível salvar o reino. Todavia, resta uma alternativa aos espíritos nobres: uma gloriosa morte! Sucumbamos defendendo a nossa liberdade e vingando os desastres cometidos contra nós! A nossa terra-mãe receberá no seu solo os seus filhos, livres das correntes e humilhações dos conquistadores e se alguém não encontrar sepultura onde enterrar os seus restos mortais, não irá carecer de um céu que os cubra. Alá não permitirá que se diga que os nobres de Granada tiveram medo de morrer na defesa do reino!"

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 Estas palavras não surtiram efeito, pois para Boabdil e para os nobres de Granada o destino do reino estava escrito no livro desde que o primeiro nascera. Não obstante, mostraram a raça de um homem como Muza e de como este era mais fiel ao reino que todos os nobres!

Continua no próximo Domingo...

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Episódios Anteriores:

Aben Hácen e Zahara

el Zegri e Ronda

Salobreña e a Morte de Aben Hacén

Córdoba... O Quartel General Cristão

Málaga: O Início das Hostilidades

Málaga: O Desastre e a Capitulação

Da Serra Nevada e das Alpujarras se Retirou o Zagal... Entra Granada

O Alcazaba do Alhambra e a Inspiração de Aben Hácen...

À Conversa com o Zagal no Alhambra...

Um Lanche no Generalife entre Ataques de Muza e as Façanhas de Tarfe e Pérez de Pulgar.

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