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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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11.05.21

I Can't Breath a Oriente...


Robinson Kanes

 

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Créditos:Ahmad Gharabli - AFP - Al Jazeera

 

No Verão de 1948, no espaço de algumas horas, os meus pais, como centenas de milhar de palestinianos, perderam tudo. O meu contou-me que estava no colégio quando souberam que os israelitas estavam a massacrar as pessoas nas aldeias vizinhas. A sua família e todos os vizinhos fugiram em direcção a Gaza, então sob domínio egípcio. Como muitos jovens, critiquei o meu pai durante muito tempo por não ter ficado e lutado, mas depois li os relatos dos "novos historiadores" israelitas e compreendi que os palestinianos, com as sua espingardas de má qualidade, não tinham qualquer hipótese. Ficar teria sido um verdadeiro suicídio, e era preciso sobreviver para preservar o futuro.

Kenizé Mourad, in "O Perfume da Nossa Terra - Vozes da Palestina e de Israel" 

 

 

Considero-me uma daqueles indivíduos que continua a ver o julgamento de um polícia nos Estados Unidos como uma "simples" aplicação da lei independentemente da cor que um ou outro pudesse ter - e mesmo que um desses indivíduos tenha sido elevado a santo apesar do histórico de tráfico de drogas, assaltos e tentativas de homicídio. A lei não faz, nem deve fazer tais distinções, sob pena de... Bem se tentou indexar o racismo à sentença e a uma conquista no campo desse mesmo racismo e afins, mas na verdade, foi apenas a justiça a funcionar (e parece ter funcionado)... Até porque, por estes dias, uma criança negra foi morta por outro negro e ninguém fez grande alarido... Como não se fizeram alaridos com brancos abatidos por negros ou até mesmo por outros brancos que abateram negros. É tudo uma questão de timing... Uma espécie de "estás no sofá e não tens que fazer, toca a seguir a cena".

 

Aqueles que também em tempos ficaram chocados com as imagens do "I can't breath", parecem andar pouco preocupados com a política indiana de combate ao vírus que fez com que muitos também morressem e provavelmente com "I can't breath" no pensamento: os mesmos que se preocupam mais com Bolsonaro do que com aqueles que os governam directamente e infrigem todas as regras do estado Democrático surgindo a defender os Direitos Humanos numa terra alentejana - como se não soubessem. Como diz o outro: Vergonha! Só um idiota não distingue a cobertura que é dada a uns e a outros: no caso indiano apela-se à pena, no brasileiro, por exemplo, à revolta.

 

Melhor, só Hong Kong e uma real hipocrisia, já para não falar em alguns genocídios por terras chinesas... Muita gente por lá que não consegue respirar, sobretudo os ares da liberdade.

 

Isto é também uma malta que agora se esqueceu de Boris Johnson... O Reino Unido deu uma lição à União Europeia na vacinação... E são os mesmos que, aplaudindo um obsoleto Biden, esquecem que todo o plano de vacinação nos Estados Unidos teve um actor principal: Donald Trump (também um dos culpados da morte de George Floyd, à vista de muitos)! O indivíduo pode ser uma besta, mas teve o seu mérito neste campo. Muito se riram aquando dessa promessa e até fizeram campanha contra... Onde andam? Ainda bem que voltou o futebol em força com peripécias que nos envergonham a todos, mas assim sempre podemos ocultar os nossos erros... Seja em Portugal, seja numa Europa que anda orgulhosamente à deriva. Deixo também uma nota... Joe Biden só se tornou solidário com o fim das patentes das vacinas depois de estar servido... Isto de tirar o meu pão da boca para dar ao outro tem muito que se lhe diga. 

 

No entanto, procuro com este texto chegar a outro "I can't breath", nomeadamente em Sheikh Jarrah. De facto, isto de atacar Israel (para não falar da China) não granjeia grande simpatias - ainda corremos o risco de ter um Bernardo Ferrão a voltar-se para trás, a abanar a cabeça e a levantar os braços. Mas foi Israel numa das suas pacíficas e bondosas expropriações a toque de M4 em território palestiniano que mais recentemente atiçou um já longo conflito.

 

Para os que acham que retirar moradores de um complexo turístico já é mau, imaginem que alguém ocupa as vossas terras e além dessa ocupação ainda vos expulsa das vossas casas para sempre... Provavelmente todos acreditamos que são meras extrapolações de um sonho, como um psicanalista, por estes dias, que usou o mesmo argumento para se defender de um alegado assédio sexual. Afinal, quem é que pode condenar que um pelotão entre em nossas casas, nos aponte uma arma à testa e diga que temos de sair para que outro povo a ocupe? Se um certo Eduardo Cabrita vê isto...

 

É preciso ter também em conta que em Jerusalém Leste, esta acção teve o alto patrocínio da justiça e assim, seis famílias palestinianas receberam ordem de marcha, sendo que mais sete têm até dia um de Agosto para o fazer. Como era expectável, os protestos não se fizeram esperar, as detenções também não, e mais uma vez, a escalada da violência aconteceu... Israel, o mesmo Estado (e friso Estado e não israelitas) que critica o Irão por ser uma ameaça à paz na região, o mesmo Estado que recusa o acesso às suas armas nucleares mas por sua vez, ataca bélicamente o Irão por estar a desenvolver armas do mesmo género.

 

A verdade é que desde 1956, e particularmente no bairro que esteve a ferro e fogo nos últimos dias, 37 famílias palestinianas refugiadas têm aí vivido depois das "limpezas étnicas" de Jaffa e Haifa em 1948. Mesmo assim, a sede de ocupação dos colonos judeus não cessa e finalmente parece que a lei de expulsão aprovada em 1970 (no parlamento) vai mesmo ter efeitos práticos. Também existem vídeos, mas não vejo tanta revolta, apesar de alguma cobertura noticiosa, uma mais contida, outra mais directa.

 

De facto, é motivo para perguntar: como é que nós conseguimos respirar? Será que preferimos que respirem por nós? 

 

P.S.: e um recado a muitos jornalistas e meios de comunicação portugueses... Deixem lá a Ayuso e preocupem-se com o que têm dentro de portas (mesmo que vos custe uns euros a menos ao final do mês e um lugar em algumas redações) sem muitas vezes fazerem proliferar notícias que de verdadeiro têm pouco... Ayuso ganhou e chama-se a isso Democracia e Liberdade, por muito que vos custe a digerir... Em Madrid o povo questiona e nem sempre bebe o copo que lhe colocam à frente! Viva la Presidenta!

 

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Para quem quiser ler: quando me viro para Sartre é porque ando pessimista com a Humanidade, não é bom. Talvez um toque de rebeldia me tenha levado para a "Idade da Razão". Neste caminho, lá tenho de fazer uma dose dupla e "afundar-me" ainda mais neste penoso questionar... Agora com o Mestre Vergílio Ferreira e o seu "Em Nome da Terra". Para pensar a terra, o céu, a vida e o tudo de nada sermos.

Para quem quiser ouvir: Florence Price é uma das primeiras compositoras clássicas afro-americanas. E que bela surpresa... Uma compositora de excelência e que em cada nota coloca uma paixão única... Algo que nem muitos grandes conseguiram atingir. Dancemos com "Dances in the Canebrakes"... Voltarei a esta senhora, porque é realmente algo de singular.

Para quem quiser assistir: Incluído no ciclo dedicado a Joseph Losey, o Nimas oferece seis filmes do realizador para quem quiser rever as grandes obras deste senhor. Aponto imediatamente, em francês, para "Mr. Klein - Um Homem na Sombra". Quiçá para ver depois de um outro que já falei por aqui, "O Pai", com o grande Sir Anthony Hopkins. Depois de ter visto a peça de Florian Zeller, estou curioso com o filme.

Para quem quiser comer e beber: uma visita a um clássico em Alverca: Os Magnificos. Uma cervejaria do antigamente e cujo proprietário andou comigo ao colo... É sempre bom rever aqueles rostos, a simpatia singular daqueles empregados, beber uma Sagres e comer uns bichos ao balcão... passar para a sala e atacar o bacalhau e a famosa açorda de marisco. Os doces é melhor nem falar... De fazer inveja a muito gourmet. Para saborear com um almoço ou jantar daqueles mais pesados, uma grande surpresa e a preço acessível do meu amigo Francisco Camolas... Um tinto potente de Palmela, o Castro de Chibanes  para surpreender muitos apreciadores. Potente não é uma palavra bonita para falar de vinhos, mas mais de 95% das pessoas que dizem entender de vinhos também não percebem patavina...

 

 

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