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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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12.05.20

Isfahan e a Imponente Naqsh-e Jahan...


Robinson Kanes

Naqsh-e Jahan (1).jpgImagens: Robinson Kanes

 

Na realidade, não são as coisas que se gostam, pois que são sempre coisas, mas o nosso modo de estar a olhar para elas , ou o modo delas serem para esse olhar.

Vergílio Ferreira, in "Rápida a Sombra"

 

O Golfo Pérsico tem uma magia especial, as terras da Pérsia não são excepção... O extenso país tem, em Isfahan, uma cosmopolita cidade que nos coloca entre a tradição e a modernidade de uma forma que encontramos em poucas cidades do Mundo. Em Isfahan viajamos no tempo tão rapidamente que somos levados num vórtice de emoções e sentimentos que só após uns bons meses, acredito eu, é que conseguimos controlar. Fico na dúvida por onde começar, se pelo bulício e animação das ruas, se pela pulcritude arquitectónica que caracterizam esta pérola asiática. 

isfahan.jpgAcerco-me e sento-me ao lado de duas iranianas com o seu hijab. Uma apresenta o véu mais descaído, algo comum e sinal de que em breve a utilização obrigatória desta veste poderá ser uma miragem. Os meus olhos apreciam os belos sorrisos e os contagiantes olhos destas iranianas que não se inibem de iniciar um diálogo comigo. Admito que os meus olhos seguem fascinados a  Praça de Naqsh-e Jahan, uma das maiores do Mundo e com origens em finais do século XVI - plena época safávida (dinastia xiita de curdos e azeris). Despeço-me com um sorriso, sob pena de passar um dia inteiro em deleitosa conversa partilhando experiências, bebendo o Irão e dando de beber a Europa.

Naqsh-e Jahan.jpg

Para meu espanto, depois do passeio nocturno, ver esta praça com toda a sua cor é algo único! Esqueçamos tudo o que vimos e deixemos que no misto de gentes e arquitectura Naqsh-e Jahan nos encha a vista e entre no top das mais belas praças do mundo. Os cheiros, as pessoas, a boa comida nas ruas que vão dar à mesma... Um sedutor café numa cave junto à Mesquita Sheikh Lotfollah que nos apanha desprevenidos e nos faz querer ficar a ler, a ouvir música e a conversar com os empregados - um dos segredos mais bem guardados da praça e sem turistas. Melhor que isto é impossível! Olvidem São Marcos (a bela São Marcos...) e o "Florian", pois neste cantinho, onde um café que custa 12 vezes menos, vivemos de facto uma experiência deveras singular.

Mesquita Sheikh Lotfollah (1).jpgCaminhamos uns metros e encontramos a Mesquita Sheikh Lotfollah. Construída no início do século XVIII é uma das pérolas arquitectónicas do Irão. Depois de entrar em tantas mesquitas é estranho como, no Irão, vamos sendo sempre cada vez mais surpreendidos por esta arquitectura (deixem que os raios de sol nos provoquem no interior da cúpula) e por todos aqueles que nos acolhem tão bem dentro destes espaços.

Mesquita Sheikh Lotfollah.jpgSe é certo que poderão existir radicais, a verdade é que nunca se fechou uma única porta, nada nos é escondido e sempre existe uma oportunidade para conversar sobre temas sensíveis. De facto, a conclusão é que as tensões são maiores intra-religião do que propriamente com inter-religião. Não sou religioso, todavia tenho as minhas bases católicas e confesso que independentemente disso, nunca me senti intimidado e receoso de falar sobre o que quer que fosse. A tranquilidade, a poesia e a humildade que acompanha os imãs é qualquer coisa... Boas conversas entre Yazd e Isfahan com estes senhores. A arquitectura do espaço fala por si, é indescritível e entre oliveiras e os ecos daqueles que ali prestam o seu culto ou simplesmente se deixam fascinar pela imponência e pelas cores, sentimos que estamos numa ágora que transcende tudo aquilo que possamos imaginar.

Mesquita Sheikh Lotfollah (2).jpgDeixemos a religião e entreguemo-nos ao pecado. O Grand Bazaar é a oportunidade perfeita para encher a mala de coisas boas, especialmente das que se comem e temperam. Por aqui, os valores são mais elevados que no resto do Irão, mas também a diferença é, em alguns casos notável. Quem não quiser gastar uns rials, nada como se deixar levar pelos sons e pelas cores... Só por si, já vale mais que qualquer compra.

Palácio Ālī Qāpū.jpgMais um café (no Irão tiram melhores cafés expresso do que na maioria das cidades europeias), mais uma conversa enquanto a pele vai escurecendo com o sol e o Palácio Ālī Qāpū se apresente diante dos nossos olhos. Este majestoso edifício foi a residência dos imperadores safávidas, o supremo portão como é denominado, e onde o naturalismo se descobre em cada parede, em cada escada. A varanda principal do palácio dá-nos uma vista da monumental praça. Aí, antes de subirmos ainda mais até à sala da música, podemos perder horas a imaginar histórias, a contemplar sorrisos, ou simplesmente a viajar no tempo... Sim, a sala da música... Deixemos que as fotografias falem por si.

Palácio Ālī Qāpū .jpgDescemos à varanda e fiquemos por ali, deixemos que as plantas e os animais de Reza Abbasi nos façam companhia. Não há pressa... Ninguém quer ter pressa de abandonar aquela elevação, aquele charme oriental que nos engole e nos faz, mais uma vez, partilhar a paixão com aquelas gentes nada inibidas de encetar uma conversa ou, simplesmente, nos sorrirem, numa expressão sincera de curiosidade mas também de bondade.

Praça de Naqsh-e Jahan.jpgEntretanto o almoço chama por nós, e nada como deixarmos que o arroz com açafrão sirva de acompanhamento a uma perna de borrego bem confeccionada. Vinho não há, mas existe uma boa companhia e isso só por si já é o melhor completemento que uma boa refeição pode ter.

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