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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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08.09.20

Istambul, minha princesa...


Robinson Kanes

istambul.jpg

Atravessando o Bósforo até o Mar de Marmara.

Imagem: Robinson Kanes

 

As notícias de Istambul, aliás, da própria Turquia não cessam de chegar. São os Golpes de Estado, são os atentados, são as basílicas transformadas em mesquitas (devolvam-nos Córdoba?) e um certo asco contra tudo o que é turco. Não se faz um Je suis Istambul, afinal quem é que quer saber da Turquia para alguma coisa? Só emerge se for em Cannes, aí sim, Je suis Cannes, é bem mais pomposo.

 

No caso de Istambul (Ankara e Bursa também), só quem nunca lá colocou um pé, ou viveu lá, pode olhar para os turcos como gente "sem rei nem roque", como gente louca e sem qualquer lugar numa sociedade actual.

 

Lembro-me da minha primeira chegada àquela metrópole de 13 milhões de habitantes e de ter perguntado ao motorista que me trazia do aeroporto de Atatürk e ao "assistente" que o acompanhava: vocês aqui não têm receio dos constantes ataques, por exemplo, do Daesh ou do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK)? Com um sorriso nos lábios, desdenhoso e bem casquinado, responderam que "nunca! nós aqui trabalhamos, temos de alimentar as nossas famílias e não tememos os terroristas, não temos tempo para isso.". 

 

Presumi, pura e simplesmente, que troçavam de mim e da minha inquietação em relação a tudo e a todos e da paralisia perante a realidade do Mundo - o engomadinho e engravatado ocidental protegido na sua concha, que se julga muito corajoso, mas assim que coloca o pé em solo turco se agacha ao primeiro ruído que ouve na rua (sobretudo após uma onda de atentados que havia varrido a cidade dias antes).

 

A conversa prolongou-se - experimentem conduzir em Istambul, todos os locais podem ficar distantes em segundos e a viagem de Atatürk a Sultanahmet pode ser uma aventura de horas - e percebi, mais uma vez, a realidade de um povo que vive para o trabalho, que se organiza e se apoia mutuamente, que acorda cedo e se deita tarde e que não sabe a diferença entre semana e fim-de-semana. Um povo que labora árduamente (nem sempre nas melhores condições) e que consegue, após uns minutos de conversa, desbloquear aquele semblante mais austero e mostrar um sorriso bem rasgado nos lábios... 

 

É esse sentimento de luta diária, de coragem e garra que dias após a minha primeira partida, e depois de um atentando à bomba, cujo rebentamento foi exactamente no mesmo sítio onde tinha estado sentado a comer um Kebab (obrigado BBC pelas imagens), me fez engolir em seco e pensar - "aposto que, ao cabo de 2 horas, a cidade já levava a sua vida normal, como se não baixasse os braços perante essa luta que enceta ao longo de anos.". Tinha sido assim uns dias antes da minha partida, uma explosão perto do "bazar das especiarias" com feridos ligeiros, mas que só teve eco nas notícias. Quem por lá passou duas horas depois jamais teria pensado que...

 

É o dia-a-dia de uma cidade que sempre foi um ponto de encontro de culturas, de convulsões e de uma história que a tornam hoje, no rosto dos seus habitantes, mais cosmopolita que nunca. Não há tempo para chorar os mortos e sufocar as redes sociais com lamúrias egoístas... é preciso enterrá-los, homenageá-los e voltar a viver. É também assim o quotidiano, mesmo em tempos de pandemia, viver... viver... Talvez seja isso que nos faz sentir uma extrema empatia por Mevlut, a personagem de Pamuk em "Uma Estranheza em Mim"... Talvez seja isso que nos faz querer percorrer com esta personagem os bairros periféricos de Istambul e com ele  apregoar bem alto: "boooooozaaaa".

 

*baseado num texto publicado por Robinson Kanes a 02 de Janeiro de 2017.

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