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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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15.09.20

Libretto para os novos visionários...


Robinson Kanes

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Imagem: Robinson Kanes

 

 

"A era das comunicações de massa é de deterioração da comunicação inter-humana"

Gilles Lipovetsky, in "O Império do Efémero"

 

Recentemente, assisti a uma atleta de alta competição e vencedora de um torneio internacional, responder à questão do porquê de se ter comportado, durante o torneio, de determinada forma em relação a um hype do momento - um comportamento muito em voga em que se procura dar nas vistas em relação a um tema "fracturante". A resposta surgiu mais ou menos deste modo e daí não recorrer às aspas: faço-o para que apareça nas redes sociais, se não aparecer nas redes sociais ninguém faz nada. Retirando uma primavera falhada (e que foi uma oportunidade perdida, as revoluções não se fazem num dia) e um sem número de distúrbios pelo Mundo mais recentemente, ainda não vi uma verdadeira demonstração de força em termos de resolução de grandes problemas nas redes sociais. Estas práticas abonam sempre mais a favor de quem publica do que propriamente em prol de uma sociedade melhor... Não é por acaso que os exemplos de "cata-ventismo" não são raros.

 

Os que laboram em torno da grande cavalgada da liberdade de expressão, são os mesmos que castram tantos outros indivíduos. Ou os que, quando confrontados com a verdade respondem sempre "não percebo", "você é reaccionário" ou então recorrem ao termo "populista". Um pouco na lógica do tão em voga conceito de "Justiça Social" - todos o usam mas ninguém sabe propriamente o que significa,

 

Volto a um exemplo recente onde a crise na Sérvia foi "abafada". Culpa de quem gere estes canais? Culpa de quem os frequenta? É uma boa questão que não me cabe a mim responder, apenas observo factos. É que no caso Sérvio, nem a tão badalada "violência policial" teve eco... Sendo que o contrário também sucede, aguardo que pelo menos os dois polícias que estavam tranquilamente dentro do carro durante uma patrulha e foram baleados à queima-roupa por um indivíduo - aconteceu em Los Angeles (pode ser visto no site do La Vanguardia) - tenham igual destaque.

 

O foco (e em alguns casos o exagero) leva ao aumento do extremismo - o extremismo que só é espoletado por outro extremismo (o extremismo das "boas almas"). Veja-se a onda de revolta por não existir o mesmo tratamento em relação a casos como o de Fillipo Limini (cujas dúvidas em relação ao facto de terem sido albaneses os autores da sua morte ainda subsistem) em comparação com o do jovem cabo-verdiano Willy Duarte - por cá, o último teve direito a meia dúzia de linhas. Todos são crimes hediondos sendo que uns parecem ser mais hediondos que outros, algo recorrente em diversas áreas. Além disso, já será mais complexo controlar a fúria dos "Liministas" em relação aos albaneses, que alegadamente nem foram os culpados.

 

A questão, e sob pena de me tornar repetitivo, reside no facto de não encontrarmos uma verdadeira solução para os problemas e, "os que não são compreensíveis" estarem a delirar enquanto assistimos a uma imposição de valores nunca antes vista e alicerçada (voluntária ou involuntáriamente) em locais como Silicon Valley. O que nos leva também para um outro campo, que hoje não desenvolverei, mas que se enquadra naquilo a que Coleman Hughes chamou de "sabedoria moral elevada" apenas porque se é mulher, gay ou negro. Em suma, a arrogância de nos julgarmos iluminados e altamente informados tomando como base a superficialidade daquilo que nos chega, leva-nos a cair nos erros mais básicos e a acompanhar um sem número de atrocidades contra um pretenso "velho mundo".

 

Paradoxalmente, é esse "velho mundo" que não queremos deixar e é esse velho mundo do capitalismo que nos alimenta quotidianamente. É contra esse mundo que encontramos causas maiores e susceptíveis de oferecerem asilo à hipocrisia e à mentira, como já há muito dizia Malraux na sua "Esperança. Falemos contra, mas não abdiquemos do bom que o mesmo nos traz ou tomemos uma verdadeira posição. Critiquemos o racismo no primeiro mundo e baseados num caso mediático e isolado mas deixemos que os pretos continuem a ser explorados num qualquer país distante que é uma forma de poder usar aquelas sapatilhas a um preço que ainda posso pagar e assim colocar uma fotografia no instagram depois de me mostrar muito solidário com a pobreza. Pelo menos, até passar a moda e eu muito inteligentemente me dedicar a outra causa sem ter sequer percebido o que ainda ontem defendia online.

 

Sou levado a, e antes de fechar este artigo,  à situação dos migrantes e do protelar da redução da pobreza e de outras situações adversas cujos adeptos e organizações (sobretudo ONG) apenas servem para arrecadar fundos e sustentar a peso de ouro os tão preocupados indivíduos solidários. A propósito disso, foi com algum espanto que pude ler este artigo de Manuela Niza Ribeiro. Colocando um dedo na ferida do politicamente correcto e desmantelado o que muitas (nunca todos, e ainda bem) potenciais boas almas procuram com a questão dos migrantes e não só, Niza Ribeiro mostrou aquilo que há muito já sabemos. A grande causa da Europa e de todos nós há uns tempos, entretanto ultrapassada, encaixa perfeitamente nas palavras de Naomi Osaka: se não está nas redes sociais, não existe e ninguém faz nada... Nem que seja o habitual chinfrim em vez de música, como Hermann Hesse tão bem descreveria.

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