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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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04.08.20

Longa Vida ao Coronavírus


Robinson Kanes

rubens_Der Höllensturz der Verdammten.jpg

Peter Paul Rubens  - "A Queda dos Condenados" - Pormenor (Alte Pinakothek)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

El humano no es fruto de la perfección sino de una enfermedad.

Manuel Rivas, in "El Lápiz del Carpintero"

 

Será que o "vírus chinês", como lhe chama um Presidente de uma grande nação, deve ficar para sempre e com isso monopolizar o nosso quotidiano? Vai ficar, por certo, mas eu prefiro que seja sem vacinas ou qualquer outro tipo de fármacos. O Coronavírus é bom, faz-nos bem a todos e à Humanidade, vejamos:

 

Enquanto a loucura em torno deste acontecimento teima em não parar, todas as guerras no Mundo acabaram! É espantoso, porque de um momento para o outro o médio-oriente ficou em paz: o Líbano e Israel estão em paz, a Palestina e Israel estão em paz e até a guerra na Síria, uma Guerra Civil Espanhola do século XXI, terminou! Em África, todos os conflitos étnicos e políticos terminaram, a fome acabou e países como a República Centro-Africana, a República Democrática do Congo, Moçambique, o Mali, a Somália, a Líbia, o Chad e tantos outros vivem agora uma Era única de prosperidade. A Guiné-Bissau deixou de ser um antro de terrorismo Islâmico e até envia parlamentares para dar lições de Democracia a Portugal(aqui não é ironia); o Sahel deixou de andar à batatada e os moçambicanos já podem andar livremente pela África do Sul sem serem degolados. Na Colômbia e no México os cartéis foram eliminados e não sendo propriamente uma guerra são dos conflitos que mais mortes causam no Mundo, o México está, aliás, entre os três primeiros e quando o filtro se fixa nos jornalistas passa mesmo para primeiro... Quem diria, Cancún, Acapulco...

 

Na verdade, e também não é cinismo, o número de mortos em conflitos bélicos até tem vindo a baixar nos últimos anos segundo a Universidade de Uppsala e o Peace Research Institute Oslo (PRIO). Já a tão badalada violência sexual falada a Ocidente é uma das principais consequências destes conflitos, sem esquecer as crianças-soldado que ascendem no Mundo inteiro a mais de 300 000. Isso acabou também, embora seja nobre ver alguns "embaixadores" da boa vontade filmarem uns vídeos e sorrirem para os focos.

 

Bashar al-Assad, na Síria, terá sido derrotado! Putin, na Rússia, abandonou o poder e nunca mais quer ocupar a cadeira de Presidente. No Zimbabwe, Mnangagwa preserva a paz ignorada por Mugabe, não obstante, na China, os Direitos Humanos passaram a ser respeitados depois da comunidade internacional ter agitado as águas. No Yemen, uma Síria parte II, também já se pode respirar a liberdade e os mortos de um lado e de outro, incluindo também os sauditas, já não surgem em foto e video-reportagens completamente decepados. O Yemen, o sangrento Yemen onde se derrama tanto sangue e metade dos manifestantes que andam nas reivindicações da moda nem sabe onde fica. Dizem que quem se preocupa com isso anda a leste, ou é parvo ou então tentam encontrar conceitos à força e sem sentido para o tradicional deita abaixo, chutam-se anglicismos que nem se dominam. Na actualidade quem não se preocupa com o vírus e com aquilo que circula nas televisões e nas redes sociais, mas olha para lá dessas reduzidas fronteiras, é alguém a necessitar de tratamento psiquiátrico urgente, alguém fora de  uma espécie de processo Jungiano de individuation rumo a uma espécie adulterada de poligenesie social como lhe chama Mafesolli.

 

Nesse campo, de facto, o vírus foi tremendamente positivo, eliminou todos os problemas  do globo terrestre e tornou-nos centrados no nosso umbigo! Até a super star Greta saiu de cena e tem perdido audiências, "how dare you"! Quem é que se interessa com o avo que é o clima, com a flora e a fauna, falemos é do vírus e do "Panda do Kung Fu" ou até dos "Franguinhos do Pilatos" em Moscavide... É só suscitar o interesse dos crendeiros e transformar energúmenos ou factos irrelevantes em hypes, no caso português até já se recebem corruptos expulsos do país vizinho de braços abertos e como heróis. A Austrália pode ser varrida do mapa que ninguém vai dar por isso. No entanto, enquanto se poderá varrer a Austrália sem grande brado, também é sorrateiramente que muitos direitos fundamentais vão sendo colocados em causa e muitas leis vão sendo aprovadas com claro prejuízo para o cidadão comum. Não é novidade, mas nos últimos tempos... Tudo culpa de cidadãos que não sabem interpretar a lei e acreditam que os políticos eleitos são-no como representantes da vontade do povo mas não passam de procuradores com plenos poderes para, em nome do povo (o que é diferente), decidirem dos destinos de uma sociedade a seu bel-prazer. E é nesse terreno que a "fiscalização" e a "cidadania" desapareceram no encanto do estro democrático.

 

Enquanto tudo isto acontece, e não deixo contudo que o meu optimismo se deixe abalar por aquilo que vejo, vamos escrevendo textos gaiados, tendo sonhos bonitos e sendo muitos participativos (pensamos nós), mas na verdade, só estamos a aumentar a nossa desumanização! Enquanto tudo isto acontece, deu-se uma volta interessante neste mundo ocidental, esse mundo onde aparentemente as máquinas roubavam o lugar do Homem, mas é agora a máquina que se deverá sentir ameaçada por esse mesmo Homem que lhe teima em roubar as suas características. Para mim, um amante de tecnologia e crente de que nos temos de adaptar ao convívio com a evolução tecnológica sob pena de nos tornarmos obsoletos, tenho de admitir que ouvir falar do fim dos abraços e do aperto de mão com a mesma naturalidade que se diz que o amianto vai ser retirado das nossas vidas, assusta-me... E ainda mais me assustou que indivíduos como Henry-Lévy o tenham sentido, uma coisa sou eu que pouco percebo disto...

 

Enquanto os vírus  por cá continuarão e sofrerão mutações, afinal é pura biologia e História, outras coisas poder-se-ão perder rapidamente. De facto o mundo transforma-se e evolui, e ainda bem, mas cautela com as rápidas transformações, sobretudo aquelas que se dão a nível humano, até porque, ao contrário dos que os românticos e poetas apregoam, nem todas essas mesmas transformações ao longo da História foram sadias, além de que, ainda hoje, em algumas situações, pagamos por isso.

 

Termino com um desabafo que vai contra todas as regras: pode não ter sido o mais profissional, mas receber aquele aperto de mão de um médico em serviço, foi das melhores coisas que me aconteceu nas últimas semanas! Logo a mim que já nem me lembro da última vez que abracei a minha mãe.

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