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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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22.01.21

Mal (Des)Necessário


JB


Hoje vou contar uma estória do meu querido avô Pedro.

Antes, um resumo da semana:

O Covid arrasa o sistema de saúde português; Costa arruína a reputação que ainda nos restava na Europa; Bruno Nogueira tenta salvar a cultura e a moral nacional e - por último, mas claramente em primeiro lugar relativamente à importância: - o Sporting em primeiro lugar!

Por algum motivo que me escapa, a óbvia incompetência de Costa (uma pessoa que noutros tempos e noutras circunstâncias elogiei) serve de combustível para os apoiantes de Ventura. Naquelas cabeças (em muitas delas pelo menos) a única maneira de combater o Costa e os seus boys é com o populismo e a demagogia do Chega. Não percebo, não concordo, acho a lógica sofrível. Ainda assim, o homem vai em segundo. Ponho-me a pensar: ninguém aprende? Não viram o que o Trump tentou fazer à democracia? Acham que eleger alguém que tem como um dos slogans de campanha "quero uma ditadura dos portugueses de bem", vai acabar como?

Hello?

Enfim, na eterna tentativa de compreender estas e outras pessoas procurei uma luz.

Como muitas vezes acontece, lembrei-me de uma tarde na Foz do Arelho, com o meu avô Pedro. 

O meu avô gostava muito de nos ensinar qualquer coisa, de nos surpreender com um novo ponto de vista e encontrar sentido onde aparentemente não havia. 
 Numa tarde de sol, ainda sentados à mesa, depois de um bom almoço, comigo sentado à sua direita atento às manchas da idade na sua mão, contou-me a estória de um Sr. muito particular e que eu hoje recordo assim:
"O Tozé trabalhava na sapataria Cristal há muitos anos. Pensava que já tinha visto tudo e que nada o surpreendia. Até que um dia...

Tozé - Boa tarde e bem vindo à sapataria Cristal, como é que o posso ajudar?

Cliente- Boa tarde! Estou à procura de uns sapatos de vela, tamanho 37.

O Tozé era um vendedor experiente, olhou de relance para os pés do cliente e disse:

-Tem a certeza? Desculpe a pergunta, mas já tenho muitos anos disto e o Sr. parece-me que calça no mínimo, um 41.

- Faça o que lhe disse! Traga-me o 37.

O Tozé retirou-se, voltou para o cliente com o tamanho 39, que não era bem o que ele achava ideal, mas também não era tão pequeno como o cliente tinha pedido. O cliente começa a experimentar os sapatos, e com dificuldade lá consegue pôr os seus pés grandes naqueles sapatos, claramente pequenos. Tozé tinha razão: o cliente calçava o 41 ou o 42 pelo menos. Para espanto absoluto do Tozé, o cliente anda um bocadinho, depois descalça-se e diz:

- Não foi isto que eu pedi. Traga-me o 37, se faz favor.

- Mas, meu caro Sr.! Se acabou de experimentar o 39 e estavam apertadíssimos, se trouxer o 37 ainda vai ser pior. Porquê? Porque é que o Sr. quer fazer isso?

-Faça o que lhe pedi, que eu explico-lhe.

Assim foi. O Tozé a contragosto foi buscar os sapatos de vela número 37. Entregou-os ao cliente que rapidamente os começou a experimentar. Entre grunhidos e suor; com persistência, força, muita pressão e uma resistente calçadeira prateada começou a pôr os sapatos. Tozé não queria acreditar no que estava a ver: com enorme esforço e dificuldade o cliente conseguiu calçar os dois sapatos.  Viu esse mesmo cliente, com os dedos dos pés contorcidos como uma gueixa japonesa, com gemidos de desconforto e titubeante a cada passo que dava, dar uma pequena e penosa volta pela sapataria, com esgares de dor e finalmente a sentar-se, com um notório alívio tirar os sapatos deixando ver os dedos já inflamados e olhar para si a exclamar:

-Perfeito, são mesmo estes!

-Meu caro Sr.! -o Tozé não aguentava mais- O Sr. é o cliente e compra o que quiser, mas por favor explique-me: tenho aqui tantos sapatos, de tantos tamanhos, porque é que o Sr. insiste em levar uns que quase nem consegue calçar?

- Vou-lhe contar. Sabe, o meu filho meteu-se nas drogas e  tive que o expulsar de casa porque ele me roubava. Triste com isso, saí à noite para afogar as mágoas e acabei por me envolver com uma musculada e sedutora mulher que vim mais tarde a descobrir que era um homem chamado Rodolfo. A minha mulher descobriu o sucedido e pediu o divórcio; ficou com tudo. Está agora a viver com um engenheiro informático, que era o meu melhor amigo e viraram a minha filha contra mim. Hoje quando saí do emprego, porque fui despedido, a minha filha liga-me a dizer que na realidade eu não sou o pai dela; que a mãe contou-lhe quando ela ainda era pequena. Elas sabiam há anos e tinham-me dito que ela era daquela côr por causa de uma condição médica na pigmentação da pele. Como se tudo isto não bastasse, chego a casa e percebo o meu peixinho morreu, e tudo indica que foi um suícidio. Compreende agora? A minha única alegria é chegar a casa, sentar-me e finalmente tirar os sapatos! Se não estiverem muito muito apertados, nem isso me resta.

Cheio de compaixão e empatia, o Tozé embrulha os sapatos e ainda lhe dá um grande desconto."


 Será essa a lógica dos que apoiam estes trastes? Se assim for temos que ser mais como o Tozé: cheios de compaixão e empatia, mas sobretudo dar-lhes um grande desconto. Afinal não sabemos o contexto de cada um.
 De qualquer forma, reconheço como verdadeiro que não apreciaria tanto um Biden se não houvesse um Trump. Não gostaria tanto do Varandas se não houvesse um Bruno de Carvalho. Não saberia tão bem àquele Sr. tirar os sapatos se não os usasse tão apertados. A questão é:

 Será necessário passar por isso? 

 

 

 

JB

 

3 comentários

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    JB 11.02.2021

    Compreendo o que dizes Sarin, ‘entender o contexto de cada um’ soa muito a: ‘vamos arranjar desculpas’. Contudo, creio que não é bem a mesma coisa e vale a pena procurar pontes, nem que sejam só de entendimento mútuo...
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    Sarin 11.02.2021

    Concordo com a necessidade de criar pontes. E para isso há que ouvir - mas é necessário que do outro lado estejam dispostos a falar, e o que vês é que não, o diálogo não resiste ao ódio, à truculência, ao ataque constante que fazem "ao outro".  E agora estão empolgados, sentem-se confiantes e perderam o respeito, ou a noção de decência.  Creio que muitos estarão para lá da vontade de diálogo. É aos outros que temos de tentar segurar.
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