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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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11.06.21

Manias


JB

Cada um tem as suas, qual delas a mais estranha. Suponho que sejam uma tentativa vã de controlar alguma coisa. É mais uma daquelas coisas parvas (tão características da nossa espécie) que repetimos sem saber porquê. No meu caso trata-se de uma competência de família. Lembro-me dos tiques da minha avó, lembro-me ainda melhor da história tantas vezes contada pela própria:  um dia, depois de uma tarde de compras recebeu um telefonema em casa de uma pessoa a perguntar se precisava de ajuda. Tinha visto a minha avó na rua e achou que ela estava a fazer sinais com a cara a pedir ajuda discretamente. Informou-se de quem era, arranjou o número de casa (não haviam telemóveis) e ligou em auxílio da vítima que não o era; tudo por causa de uns tiques! O meu pai à noite costumava beber leite, contava sempre em voz alta cada golo de leite para ter a certeza que nunca se ia deitar depois de beber 13 golos seguidos. O número 13 aparentemente é importante. Tenho uma tia que preferiu jantar sozinha na cozinha do que condenar um membro da família à morte, estávamo 12 sentados e com ela seríamos... Exatamemte.

Eu sou mais moderado nas minhas manias. Em primeiro lugar obviamente não sou supersticioso, toda a gente sabe que isso dá azar. O número 13 não me agrada nem desagrada. Não gosto porque é ímpar. Embirro com esse todos, se pudesse fazia como Thanos, estalava os dedos e ficavam só os pares. Em minha casa, desde os alarmes, aos temporizadores até ao volume de qualquer aparelho, qualquer que seja o valor, será garantidamente um número par. 
Quando ando a pé numa bonita calçada portuguesa, tenho empatia com o personagem do Jack Nicholson no 'As good as it gets' quando tenta evitar pisar as linhas desenhadas no chão pelos passeios e escadas. Quando o Sporting joga, se ligo a alguém e o Sporting marca quando a pessoa atende, ligo sempre novamente a essa  pessoa antes do jogo acabar para o caso de não ter sido coincidência. Normalmente tem sido. 

Tudo coisas amenas, parvas, inúteis e irracionais. 
Ainda assim mantenho-as. Gosto de ser racional no dia a dia, mas não há irracionalidade maior do que estar vivo. Viver no meio de contradições é um imperativo humano para não enlouquecer.

Estes tiques e manias obrigam-nos a confrontar isso mesmo por isso hoje, quero dedicar um poema a todos os 'manientos' que andam por aì:

 

Uma coisa que me aborrece,

Um equívoco que persiste,

É que para alguns até parece

Que o 'normal', existe.

 

É equívoco está-se a ver,

Oiço isso desde infância,

O normal só o pode ser,

Quando é grande a distância 

 

Mas ao perto, com vista boa?

A história do 'normal' está mal contada,

Por isso digo como Pessoa:

Dá-me mais vinho porque a vida é nada

 

 

JB

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