Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

07.10.21

Memórias de Viagem


The Travellight World

Bodelwyddan-Castle-47-800x548

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.
— Fernando Pessoa

As palavras são do grande poeta, mas expressam bem como as memórias de viagem podem desempenhar um papel importante no desenvolvimento da nossa personalidade. São tesouros preciosos que guardamos com estima e têm um efeito tão intenso que permanecem connosco durante toda a vida.

Recordamos a água fria e transparente daquela praia fluvial ou de como era fina a areia naquele destino tropical. Lembramo-nos de sons, de cheiros, do sabor da comida. Da vista magnifica do topo daquela colina ou de como fomos enganados pelo táxista à saída do aeroporto… Transformamos as experiências de viagem em histórias emocionantes e especiais que gostamos de partilhar com os outros.

Pesquisas sobre o cérebro, como o estudo realizado pelo neurocientista cognitivo Lutz Jäncke em 2018, concluíram que as memórias de viagem são por regra  incomuns e diferem muito das nossas experiências quotidianas.
A vida quotidiana é amplamente (embora não de forma exclusiva) controlada por processos subconscientes. Isto significa que no dia a dia não damos tanta atenção ao mundo à nossa volta e só prestamos atenção quando tratamos de algo importante e especifico.
Já durante as férias e folgas as coisas são diferentes porque ficamos livres da rotina diária e podemos concentrar os nossos recursos cognitivos em coisas "periféricas".

Pode variar muito e depender de necessidades individuais, mas os estudos mostram que as pessoas tendem a lembrar-se melhor de experiências que envolvem a natureza. Monumentos famosos também estão lá, mas em termos de hierarquia de memórias de férias, é raro constituírem as memórias favoritas.

Também somos particularmente bons a recordar contactos sociais que estabelecemos em viagem. Sejam estes romances de verão ou simples interações com pessoas que conhecemos pelo caminho.

As experiências de viagem podem expandir o nosso conhecimento e ensinar-nos a ver o mundo de diferentes perspetivas. Neste sentido, estas lembranças são cruciais para o desenvolvimento da nossa personalidade.
Durante o estudo realizado pelo Professor Jäncke, mais de 40% dos britânicos disseram que já fizeram uma viagem que os mudou como pessoa, e 20% até disse que adotou um novo passatempo depois de viajar. Penso que os resultados não seriam muito diferentes se o estudo tivesse sido realizado em Portugal.

Gostamos tanto de memórias de viagem que a maioria das pessoas tira fotografias e faz filmes para se recordar desses momentos. O aparecimento da fotografia digital e mais recentemente dos smartphones facilitou essa tarefa, porém também teve o lado negativo de “agarrar” as pessoas a um ecrã.

De repente, em vez de estar a viver o momento, de o apreciar e festejar, as pessoas estão mais interessadas em fotografar, filmar e tudo partilhar…
Li há pouco tempo que uma experiência realizada com 24 viajantes revelou que quando estes se viram privados do smartphone, a “desintoxicação digital” foi de tal forma difícil e emocionalmente insuportável que alguns desistiram quando lhes pediram para viajar à moda antiga, sem telefone, redes sociais e usando um mapa impresso.
Aqueles que continuaram, acabaram por superar as emoções iniciais e começaram a aproveitar a experiência digital free. No fim disseram que criaram momentos mais memoráveis e autênticos com os seus companheiros de viagem e com as pessoas que conheceram no caminho e sentiram-se mais livres, felizes e aliviados por terem chegado tão longe sem tecnologia.

Eu comecei a viajar antes de existirem redes sociais, antes mesmo de todos terem telemóvel e lembro-me bem desses tempos mais "simples". 

De fotografar sempre gostei, e hoje talvez fotografe e filme mais do que antes, mas tento sempre manter um certo equilíbrio. Gosto de partilhar o que vejo e vivo em viagem (ou não teria um blog e uma página de Instagram), mas não faço disso o meu foco principal.

Tudo tem o seu momento e não deixo que o acessório roube o principal que sempre vai ser o prazer de viajar, de conhecer, de viver!

22 comentários

Comentar post