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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

20.10.20

Na verdade, ninguém que saber dos velhos...


Robinson Kanes

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Créditos: UNFPA Moldova/Dan Gutu

 

Ainda ontem, entre Urdax e Zugarramurdi, na companhia de um queijo meio-curado de ovelha, um tinto de "Nafarroa" e boa companhia humana, dei comigo a pensar em José Manuel Ramírez Navarro. Este nome, pouco ou nada dirá a quem estará a ler este artigo - a mim muito menos dizia até há três semanas. Ramírez Navarro é o presidente da "Asociación Estatal de Directores y Gerentes de Servicios Sociales de España" e disse-nos, com base em dados recolhidos, que a cada oito minutos morre uma pessoa em Espanha à espera de "assistência" e que nada disso nos importava - em Espanha, pelo menos até ao início de Outubro, morreram 35.277 pessoas nesta situação, um valor que já ultrapassou 2019 com 32.000 mortos. 

 

Admito que desconheço os números de Portugal (se é que existem), mas nesta época que atravessamos, será que estamos a acautelar devidamente aqueles que mais precisam e que são sobretudo os mais idosos? Recordo que um estudo da DECO há uns anos apontava a dificuldade em encontrar um lar e que (como não poderia faltar) a cunha era normalmente a melhor solução. E ter quem nos procure um lar de terceira idade, já é um benefício imenso.

 

Recordo estes números porque, se por um lado vejo tanto empenho em proteger a população mais idosa do SARS Covid-19 (e ainda bem) pelo outro encontro um país a ser confrontado com casos de total ineficiência na gestão de muitos "centros de acolhimento". Falamos actualmente de lares ilegais com uma ligeireza assustadora, como se um lar ilegal fosse algo perfeitamente normal e dentro da lei. "Morreram 10 idosos num lar ilegal", uma pena, mais dez vidas perdidas por causa de um vírus, lamentemos a sua morte. O resto é perfeitamente normal... Será que ninguém percebe a parte do "ilegal"? Se juntarmos muitas instituições e misericórdias que são geridas de forma desastrosa e que por isso ainda recebem subvenções da Segurança Social, não será preciso pensar muito para perceber que algo não está bem. Também não podemos ter misericórdias que parecem querer controlar este lado da economia social, as mesmas mesericórdias que em toda a sua génese são acumuladoras de património e geridas pelos poderes locais. Poderes esses, nem sempre os instituicionais. Não pretendo, porém, desvalorizar muito do trabalho que é feito e que tem sido fundamental.

 

Nas palavras de Ramírez Navarro, também vislumbrei o total "desprezo" com os trabalhadores desta área: mal pagos, com um trabalho altamente stressante e de alto risco. Também ninguém parece estar importado com este lado quando vem à varanda bater palmas a este e ao outro para a fotografia. Provavelmente os mesmos que amam os médicos um dia, mas no outro, quando lhes negam um atestado falso, criticam a classe.

 

Todavia, porque a moda dos últimos quase cinco anos é tirar a selfie com o sem-abrigo (deve ter sido por isso que o "famoso" velhote de Pedrogão que involuntariamente patrocinou mais um momento de show off e populismo parolo, apesar da promessa, morreu sem qualquer apoio), espanta-me que este lado não mereça a nossa atenção. São os nossos velhos! São os nossos pais e tios! São os nossos avós! São aqueles que têm tanto para nos ensinar e que não são só as múmias que pululam por muitos jornais, rádios e televisões! São aqueles que nos têm, nos últimso tempos, dado grandes lições na utilização das novas tecnologias! São os nossos velhos que tanto queremos defender mas que deixamos abandonados em hospitais ou a quem só damos atenção quando a morte é causada pela doença da moda.

 

Não quero acreditar que estamos sempre perante uma questão de falta de dinheiro, aliás, nunca vi nenhum fundador de associações solidárias e misericórdias "morrer de fome" ou "passar mal". Poderá ser também um problema de gestão, má utilização de fundos, desorganização e até usurpação nas piores situações, e que são muitas. Será por isso que fugimos tanto da institucionalização da "empresa social"?. Sempre que este conceito é levantado, todos estes corpos tremem e o corporativismo e o lobby rapidamente estimulam o chumbo no Parlamento.

 

Acredito que neste campo, a solução poderá até passar por uma espécie de "Sistema Nacional de Assistência" mais robusto, mais estruturado e mais orientado para resultados quer no campo da reacção quer sobretudo no campo da prevenção, ou seja, tentando compreender formas de reduzir o número de necessitados, esse é, aliás, o grande objectivo (ou deveria ser) de toda e qualquer entidade solidária. Analisar os factores, encontrar respostas e aplicar, tudo isto integrando os diferentes actores (meios sociais, sanitários, famílias e associações) e não vivendo na habitual defesa da courela.

 

Não menos importante, e por muito que não seja esse o discurso, os recursos são finitos! O envelhecimento da população no nosso país e na Europa levanta problemas de sustentabilidade que têm de ser reconhecidos e não podemos utilizar o discurso do "não podemos olhar a custos". Temos de olhar a custos e acima de tudo olhar para a eficiência de todos os processos e incorporar o espírito da "Decade of Healthy Ageing", até porque o actual modelo do "não olhar a custos" também não tem salvo tantas vidas quanto isso. 

 

E finalmente, talvez o mais importante, cada um de nós tem de incorporar um espírito de cidadania que também possa olhar para estas questões de uma forma mais atenta, pois uma sociedade civilizada é aquela que se preocupa, que cuida e empodera até os seus velhos... Até porque, se não podemos salvar todos os idosos da morte por Covid-19, no mínimo podemos salvá-los de morrerem sós e na miséria humana, económica e social. 

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