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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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07.07.20

O Arolas do Cais das Colunas...


Robinson Kanes

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Créditos: https://www.sabado.pt/dinheiro/detalhe/fernando-medina-concede-aumento-da-taxa-turistica

 

 

Um homem que não tem intenção de rezar nunca irá ouvir o chamamento para a oração ; nós só ouvimos o que queremos ouvir e vemos o que queremos ver.

Orhan Pamuk, in "Uma Estranheza em Mim".

 

Nas últimas temporadas da série "Guerra dos Tronos em tempos de COVID-19", temos assistido a um autarca que se apresenta como um certo paladino de uma cultura instalada, não só nas autarquias mas também no Governo e até e, algum sector privado. Com a saída para combate de Pedro Nuno Santos, uma espécie de Rei João de Inglaterra mas com menos modos, surge um outro exemplar de "colismo" (e não tem propriamente a ver com cólicas) que, perante a falta de apoio do padrinho, teve de mostrar os dentes para não ficar sem a presa.

 

Fernando Medina, à semelhança de outros, é aquela personagem política que foi sendo disposta aqui e ali, alternando entre "papagaio do pirata" e o "faz favores" - o que o levou a cargos governativos e mais recentemente à autarquia de Lisboa (é mal de família, a esposa segue os passos). É também um indivíduo que, como presidente de câmara, tem tempo de antena em televisão para fazer a sua propaganda, emitir opiniões e auferir alguma coisa com isso (admito que é algo que me causa sempre estranheza, até porque não é caso único). O "ordenado" e a influência de presidente de câmara obrigam a ter um part-time, sobretudo se não tivermos estofo e for necessária a máquina da comunicação para transformar um inútil numa estrela. Já sabemos que em Portugal é uma fórmula de sucesso, até para os mais altos cargos da nação.

 

Este é também o Fernando Medina que, aquando do início da pandemia e quando tudo parecia estar bem, não hesitou em colocar-se em bicos de pés e até correr a partilhar palcos e a monopolizar cerimónias de modo a que sua figura pudesse surgir nos jornais e nas televisões como mais um dos beatos do milagre português. Desta história ficou ausente Madonna - um dia ainda vamos saber quanto nos custou trazer para cá esta senhora que, alegadamente, nem queria vir.

 

Medina foi também aquele que, com o final do milagre e a ascensão do pecado do Coronavírus em Lisboa, saiu para a rua, e qual "mulher de soalheiro, disparou acusações contra tudo e contra todos, especialmente aqueles que lhe reportam e/ou trabalham noutras instituições públicas, descartando culpas e dizendo que o "inferno eram os outros". Um líder camarário, alguém que quer um dia ser primeiro-ministro, adoptar um comportamento deste género, é de facto uma experiência interessante e um óptimo cartão de visita para os eleitores e para aqueles que têm de conviver com o mesmo. Aliás, os tiques de ditador em assembleias municipais são também uma das suas imagens de marca, pena que agora o "Zé" (depois de se deixar comprar com um cargo de vereador passou a ser Engenheiro José Sá Fernandes) não esteja lá para denunciar estas coisas. Estamos perante um general que não sabe comandar as suas tropas porque passou ao lado da Academia Militar ou terminou o curso com grande rapidez na Lusófona e além disso não tem o nível nem as competências exigidas. 

 

A verdade é que em terra de apáticos e acomodados (e coniventes com...) estes indivíduos têm terreno fértil para germinarem e crescerem até ao céu. E é neste contexto que, depois de criar uma Lisboa só para turista ver, de ignorar todos os avisos, sobretudo de exemplos como Barcelona, tendo em vista o desenvolvimento turístico sustentável da cidade, depois de ter acolhido os investidores, aparece agora a afirmar que aquilo que importa são as pessoas e que está na hora do alojamento local começar a desaparecer do mapa num claro escarro na cara desses mesmos investidores e de todos aqueles que encheram os cofres da câmara municipal e até contribuíram para a imagem do próprio Medina.

 

Na verdade, Lisboa foi e tem vindo a ser recuperada a apensas do turismo (muito dele de "chinelo") mas também é verdade que ficou descaracterizada e sem habitantes por culpa do mesmo. Se defendo uma Lisboa com turismo, também defendo que o planeamento seja realizado de forma a ter em conta os factores sociais e que acabam por tornar Lisboa uma capital diferente das outras - aliás, uma das suas mais-valias em termos de atracção turística. O que Medina não analisou é que esta Lisboa passou a ser "francesa" e também "adormeceu" pela falta de políticas que visassem o seu desenvolvimento social económico para lá do turismo. E ao estilo de Medina, a culpa é dos outros... Temos agora uma cidade deserta, sem rumo, que ignorou aqueles que lhe dão vida, mas que tem orgulho em ostentar que sabe cuidar dos seus pobres, muitos deles, empobrecidos por fracas políticas camarárias e governativas... o eterno paternalismo luso. Temos agora um autarca cuja sede de poder o levou a mudar o rumo das palavras (não da política) na tentativa de salvar conquistas futuras.

 

Os investidores não se esqueceram, os verdadeiros habitantes de Lisboa também não, e na hora em que forem chamados, talvez se lembrem do dia em que foram traídos por um certo Medina à imagem de um Ricardo II, e aí nem os nobres empreiteiros e demais adjudicações directas o poderão salvar...

 

P.S.: uma inquietação... Porque é que quando falamos de estatísticas internacionais em relação à COVID-19 só falamos de Espanha, Itália, Reino Unido, Brasil e Estados Unidos? Podemos dizer que Espanha e Itália são mediterrânicos, mas o sul de França e a Grécia também são. E os países do Báltico e outros mais pequenos do centro da Europa com os quais nos podemos comparar em dimensão e população? Dá que pensar...

3 comentários

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    Robinson Kanes 07.07.2020

    Desde que não inundem o Martinho está tudo bem...
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    Anónimo 07.07.2020

    Só o Terreiro do Paço.Looool
    Vi o que escreveu sobre o Irão e deixe dizer que Gosto muito dos seus textos sobre viagens tem imenso jeito. 
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