Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

08.06.21

O Nosso Silêncio... O Grito deles...


Robinson Kanes

f090990a5cef5c80495d412cd4a19162.jpgImagem: Associated Press

 

Este é o momento em que recordo muitos, especialmente "jornalistas", que defendem a morte de inocentes há mais de 70 anos e continuam a defender uma intervenção militar na Palestina atenuando o "conflito" (como também erradamente foi sendo chamado) com o simples facto de Israel ser, alegadamente, o único inimigo do mundo que avisa antes de nos deitar a casa abaixo... Uma espécie de "atenção que vamos largar-vos uma bomba em cima de casa, façam o que fizerem. Podem sempre sair ou ficar à espera que a mesma vos caia no bucho". Por falar em bucho, Direitos Humanos também são para o bucho. Não contentes com isso, também esses indivíduos agora catalogam qualquer defensor (ou em posição neutra, mas com olhos e dois dedos de testa) da causa palestiniana como indivíduo de extrema-direita. Muitos mais à esquerda não devem estar propriamente contentes e pelos vistos agora todo aquele que o diz não já não é um rebelde mas um neonazi. 

 

É neste momento (pois foi há dias) que apreciava visualizar os comentários à detenção e destruição das peças jornalísticas de Givara Budeiri por parte das forças de segurança israelitas. Budeiri, correspondente da Al Jazeera, talvez a estação que mais ativamente mostrou o que se passou há menos de um mês e consequentemente continua a mostrar sem medo. Não é o meio de comunicação perfeito, mas foi o alvo preferido dos bombardeamentos israelitas, a par da Associated Press que ainda hoje não consegue explicar com clareza o afastamento de uma estagiária que falou em demasia acerca da palestina. Será que é desta que os comentadores e activistas sempre tão atentos aos ricos e aos hypes, mas que a troco de dinheiro se vendem a indivíduos e empresas que fogem aos impostos e governos que cometem limpezas étnicas, se vão mostrar?

 

A distorção de informação acerca do que se passou durante as últimas semanas tem sido assustadora e não são raros os casos em que o equilíbrio de forças entre Israel e Palestina continua a ser posto lado a lado. Um dos lados é só uma potência nuclear camuflada, o outro recebe uns rockets e pedras. Referi em tempos que existem culpados dos dois lados, mas convenhamos que a passadeira vermelha para que o país saído do holocausto continue a semear um verdadeiro holocausto com o consentimento de todos nós é um facto. Mesmo dentro de Israel já existem vozes dissonantes nas ruas e correntes (inclusive de militares e ex-militares) que denunciam os crimes cometidos por este Estado. As criticas não são contra os israelitas...

 

Todavia, e também com o devido distanciamento, apreciei ver parte do mundo (uma pequena parte) mobilizada em torno da causa e com uma grande maioria das manifestações a decorrerem de forma pacífica, excepto em França, onde foram "proibidas"... Também foram manifestações que nasceram da revolta de estar em casa a assistir a um genocídio. O lado bom, é que na maioria dos casos não tivemos os activistas da moda e as pseudo-celebridades a aderir à causa com tanta veemência e o incêndio de loja com o rebanho a bater palmas. É que isto do racismo, do feminismo e do transformar o mundo em pasto de carneiros não é o mesmo que afrontar gigantes e lutar contra uma guerra sem qualquer sentido - até porque podemos ser obrigados a pegar numa M4 e a fazer algo sem tempo para selfies solidárias - deixar as armas da cadeira de gaming parola e pegar numa a sério é uma chatice daquelas, e que no entender dos corajosos modernos, só é digna de cobardes que arriscam a vida. Em suma, concorde-se ou não com a mesmas, foram manifestações das ruas e a demonstrarem que ainda é possível lutar por algo sem ir atrás de pacotes de revolta vendidos online ou na televisão... E sem destruir estátuas e o negócio de quem quer trabalhar e tem pouco tempo para redes sociais, pronto...

 

Fica-me também a questão relacionada com a apatia do presidente norte-americano em relação a esta matéria, que esteve sempre do lado do agressor e, alegadamente, irá dispensar mais uns milhões para a aquisição de armamento ao mesmo. Sem saudosismos (e apelando a um rewind na memória) até porque não deixou muito espaço para isso, deixo uma questão: e se fosse Trump? 

 

E assim sou levado a um tema que abordei em tempos e que está relacionado com a história da comunidade de Khirbet Humsu - uma das mais intrigantes e mais interessantes na luta de territórios entre David e Golias... As mais recentes peripécias colocam as forças israelitas, sem qualquer motivo, a derrubar, por três vezes, aldeias e vilas inteiras e também por três vezes o povo palestiniano a reerguer as mesmas. O mesmo povo que diz não ter para onde ir, já nem é uma questão de reclamar território...

 

Recordo uma fotografia que me transportou para um cenário misto, onde uma película bem realizada se mistura com a realidade. Os sorrisos e a alegria de crianças que nem sabem bem que bandeira transportam, mas de uma coisa estão certas: é a sua terra! É a sua terra e o seu futuro que, esperamos, entre sorrisos e muitas lágrimas, não acabe com um projéctil na testa ou com um colete armadilhado. Espero que transportem a bandeira da esperança e que possam ser os futuros líderes de um povo. Futuros líderes vencedores na diplomacia e na paixão pelos seus, mesmo que tenham sofrido tentativas de deportação quase como numa espécie de vingança por aqueles que mais de meio século antes passaram pelo mesmo.  Afinal, como escreveria Manuel Rui Monteiro... estes jovens "vão aprender coisas de sonho e de verdade / vão aprender como se ganha uma bandeira / Vão saber o que custou a liberdade.

 

Que o nosso silêncio não seja um dia o grito de dor... Porque destes jovens, esperamos gritos de alegria!

_______________________________________________________________________

Para quem quiser ouvir: os dias estão maiores e vejo-me a navegar para a minha princesa, Istambul. E é aí, atravessando o Bósforo em direcção a Kadıköy, para um café em Moda, que coloco os phones e mergulho na banda sonora de "Istanbul Kirmizisi" ou "Rosso Istanbul", composta por Giuliano Taviani e Carmelo Travia. Gosto do tema principal, gostei do filme e acabo a viagem com a luz do farol no rosto mas em altas com o Gaye Su Akyol e "Kırmızı Rüyalar".

Para quem quiser ler: Do iraniano Shahriar Mandanipour, destaco "Seasons of Purgatory". Guerra e paz, urbano e rural e aquilo que só um espírito embuído por uma civilização persa consegue transmitir. Uma viagem pela alma, pelo Homem, por nós... Existem autores cuja obra deveria ser de leitura obrigatória.

Para quem quiser comer e beber: Existem espaços que nos fazem ir de Lisboa a Sines só para jantar. Um desses espaços é o Cais da Estação em Sines.No cais da antiga estação, surge um espaço moderno mas apetecível, com decoração muito simpática e sem perder as raízes da costa alentejana. O Arroz de Lingueirão é rei, o Peixe Galo no Sauté é qualquer coisa e o Bisquit gelado de figos e amêndoas deixa-nos loucos após um saboroso repasto. Conhecemo-lo por acaso, quando o nosso preferido (uma taberna que falarei um destes dias) se encontrava encerrado.

Para quem quiser só beber: Um Albariño das Rias Baixas a preço simpático e que me foi dado a provar um destes dias em Madrid. Simpático e sem perdermos muitos euros,  o "Gundian" satisfaz perfeitamente a sede de quem aprecia um alvarinho com ares atlânticos.

6 comentários

Comentar post