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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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28.07.20

O papagaio-mor a voar para longe dos incêndios...


Robinson Kanes

1024.jpgCréditos: https://tvi24.iol.pt/politica/marcelo-rebelo-de-sousa/incendios-marcelo-acha-que-pais-esta-a-ter-bom-senso-e-juizo

 

A nobreza de alma  é um luxo que uma sociedade apenas se pode permitir mais tarde.

André Malraux, in  "A Esperança".

 

Permitam-me, antes que inicie este texto, que me dirija ao nosso Presidente da República (PR) como papagaio-mor. Aliás, foi o mesmo que, após a divulgação de um relato em que alguém mencionou que o "papagaio-mor" estava ao corrente do rocambolesco episódio do furto de armas de Tancos, logo na manhã seguinte saiu para a rua dizendo que o PR era um homem de bem e não sabia de nada. Esqueceu-se depressa, mas nos escaparates da História este inverosímil episódio ficará para sempre registado e qualquer cidadão com dois dedos de testa pensará sempre porque é que...

 

Que Marcelo já nos habituou a falar de tudo não dizendo nada, não é novidade... Que Marcelo já nos habitou que não é um PR mas um comentador que extravasa bem para lá das suas competências também não é novidade... Que Marcelo já nos habituou que quando os temas são a Igreja, futebol, livreiros, amigos da "solidariedade", funcionários públicos (alguns...) e comunicação social é parcial  quanto baste, também não é novidade... Que já nos habituou a passar atestados de estupidez aos portugueses também não é nada de novo... Não nos habituou, todavia, a uma total mediocridade só digna de quem realmente não tem a mínima noção do que anda a fazer a não ser presidir a uma nação fazendo campanha eleitoral nos cinco anos que o mandato de presidente dura alicerçado numa propaganda que até Goebbels ficaria estupefacto.

 

A mais recente declaração acerca dos incêndios, além do já referido extravasar de competências e da tentativa de passar incólume, é de uma total irresponsabilidade e total falta de sentido de Estado e respeito por todos aqueles que, de uma forma ou de outra se encontram afectados pelos incêndios, ou seja, todos nós... Uns porque perdem o seu património e até a vida de um momento para outro; outros porque se ferem ou morrem a combater os mesmos; e todos os outros pelos danos ambientais, culturais, sociais e económicos causados pelos incêndios. Não é por não viver em Oleiros que posso assobiar para o lado e pensar que em nada saio afectado: além de ver a destruição do meu país, vejo os meus impostos a voar para aqueles que vivem do negócio do fogo e para aqueles que, infelizmente, necessitam de apoio do Estado para refazerem as suas vidas. Já para não falar daqueles cujos abraços e beijinhos àqueles que deixaram indefesos servem para amealhar votos e minutos nas televisões. É como bombardear uma cidade e depois percorrer as ruas distribuindo conforto e apoio...

 

Um PR afirmar que a prevenção aos incêndios falhou por causa da COVID-19 é dos discursos mais ignóbeis, destítuidos de  razão e sobriedade que um mais alto responsável político pode ter! Um país, independentemente do confinamento, não pode ignorar as suas responsabilidades. Um país, apesar do confinamento não pode utilizar essa mesma adversidade para se inibir da segurança do seu território, do seu ambiente e dos seus habitantes. De facto, o vírus que assola o Mundo e o país já serviu de desculpa para atropelar a Democracia, a Liberdade, a Justiça, a Verdade e a Transparência, já serviu para justificar a corrupção, mas também serve para camuflar a incompetência, a irresponsabilidade e o populismo atroz que este tipo de declarações encerra. Não olhar a meios para atingir os fins, tal é já o carácter doentio que toma conta de muitos altos responsáveis políticos do país... Em alguns casos doentio, sem quaisquer aspas, e onde nem o excesso de comprimidos seguido de episódios de "baba" em contexto diplomático já disfarçam.

 

Nesta tentativa de recorrer a um método por falta de carácter, como frisou Camus, Marcelo é o homem que disse que não se recandidataria se episódios como os de Pedrogão se voltassem a repetir... Serão necessárias as mortes de quantos mais cidadãos? Lembremo-nos que logo em 2017, uns meses após Pedrogão Grande, tivemos os incêndios no Centro do país, ainda mais mortíferos. Tivemos nos anos seguintes a destruição do Portugal interior em termos territoriais e com mais algumas mortes pelo meio... Tivemos Monchique (estranhamente com pouco destaque) e tantos outros que culminaram este fim de semana com Oleiros. Quanto mais necessitará de arder, de ser destruído e morrer para que o famoso e habitual "doa a quem doer" tenha efeitos?

 

Até hoje, desde Pedrogão até Tancos, sem esquecer tantos outros casos enumerados pelo auto-intitulado papagaio-mor do reino ainda não tiveram qualquer desfecho. Em termos de incêndios, muitos são os irresponsáveis que continuam a liderar homens num caminho para a morte e ainda muito está por fazer em termos de prevenção e combate. Continuamos a ter comandantes de bombeiros com mil e um cargos, agentes de protecção civil militares e civis que encontram aí uma forma de trazer mais uns euros para casa e com nomeações e concursos feitos à medida. Temos também bombeiros, militares da GNR, "canarinhos" e tantos outros indivíduos a darem a vida por todos nós, muitos deles, mesmo sabendo que, no comando, nem sempre estão os superiores mais capazes. O que ainda ninguém consegue explicar é o facto de uma grande maioria dos incêndios, quando ultrapassam a nossa fronteira, são imediatamente debelados!

 

Bater com a mão no peito em eucaristias encomendadas e culpar um vírus pela própria incompetência é, no mínimo, rocambolesco, e uma total falta de respeito para com os portugueses, para com o cargo de PR e até para com a pessoa que o profere. É este o novo ciclo apregoado em Outubro de 2017? Provavelmente seria motivo para que os portugueses dissessem o que em tempos um general disse a um dos indivíduos que o nosso actual PR mais idolatra (ou prefere esconder que...): "obviamente, demito-o".

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