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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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30.01.24

O Perigo da Kakistocracia


Bruno

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Imagem: Bruno Nunes dos Santos

 

 

A moral, mesmo quando se renova, anda mais atrasada em relação à melhor inteligência de cada época do que os comboios em relação aos seus horários, quando os nevões obstruem as linhas.

Ferreira de Castro, in "A Experiência"

 

 

No cenário atual, o termo "Kakistocracia" torna-se cada vez mais um conceito/prática a ter em conta - até porque de novo nada tem. A Kakistocracia, não é mais que o sistema de governo/gestão no qual os incompetentes ou desonestos se encontram em posições de poder e influência, em detrimento do bem-estar da população, das empresas e do próprio Governo. 

 

Existe um sério problema quando indivíduos sem competências (técnicas, sociais, pessoais...) chegam a posições que nem precisam de ser estratégicas e colocam em causa todo o sistema. Esse sistema pode ser uma equipa; um departamento; um ministério; uma organização; um país ou até o mundo. Nas organizações empresariais, por exemplo, a má liderança leva a decisões com sérios impactos: quedas na produtividade e na qualidade final, resistência à mudança, corrupção e quebras nos lucros. Na gestão de um Estado a Kakistocracia leva à corrupção, ineficiência administrativa e ao desrespeito pelos direitos mais básicos dos cidadãos face à falta de investimentos adequados e a má gestão dos recursos públicos. A título de exemplo, alguns serviços básicos como saúde, educação e segurança pública são comprometidos, deixando essa mesma população vulnerável. Alguns exemplos, bastante simples, podem passar por um mau serviço de saúde, uma educação de baixa qualidade e um sentimento de impunidade perante a justiça e as forças de segurança, sem esquecer as consequências para potenciais investidores. Ainda a propósito, a falta de competência e integridade dos indivíduos no poder leva a um aumento da corrupção e impunidade. A confiança nas instituições governamentais é posta em causa, o que acarreta um enorme sentimento de desilusão e descrença na política - e quando assim é, normalmente acabamos todos com a casa destruída e com direito a figurar nas páginas da História ou num qualquer mural.

 

A corrupção generalizada abala a confiança nas instituições públicas e compromete a eficiência administrativa. A falta de prestação de contas e de transparência gera um sentimento de impunidade e enfraquece qualquer iniciativa para a promoção de políticas públicas eficazes. Entramos na velha discussão da prevalência do interesse pessoal dos indivíduos sobre o bem comum. Em suma, quando indivíduos incompetentes ocupam cargos importantes, a voz dos cidadãos é silenciada e a participação dos cidadãos é reduzida, mesmo existindo a liberdade para exercer o direito de voto.

 

Uma nota também para outro impacto negativo da Kakistocracia que decorre da falta de oportunidades de crescimento e desenvolvimento. Se a meritocracia é substituída por favorecimentos e indicações políticas, deixando os talentos e competências de lado, tendemos a ficar com uma  sociedade estagnada, na qual o progresso é limitado e a desigualdade social aumenta.

 

Para o desenvolvimento económico, também a Kakistocracia tem uma influência deveras negativa, pois quando determinados indivíduos incompetentes ocupam cargos de liderança, as consequências acabam por ser sentidas em toda a organização. O processo de decisão é viciado e a falta de visão estratégica leva a um declínio na produtividade e eficiência. A isto junta-se a já mencionada corrupção e falta de integridade nos governos, pois uma má gestão dos recursos públicos acarreta uma maior e incomportável carga tributária para as empresas e para as pessoas, afetando não só o crescimento económico mas também a competitividade no mercado global. Já a falta de transparência e a instabilidade política acabam por levar um clima de incerteza e dificuldades para os investidores, afetando todo o setor privado: investidores e consumidores perdem a confiança nas organizações.

 

Não poderia também deixar de mencionar o papel do jornalismo, cujo papel é fundamental no combate a práticas menos claras, desde que não esteja também absorvido pelas mesmas. De uma forma clara e independente e sem enviesar, pode e deve agir como um contraponto ao poder, questionando as práticas e decisões dos indivíduos no poder. Ao realizar um jornalismo de investigação e imparcial, promove não só a transparência mas também o debate público.

 

Mas, porque é que se promove tanto a incompetência? Isabelle Barth, por exemplo, coloca a causa no Princípio de Peter (também conhecido pelo Princípio da Incompetência), que nos diz que os empregados competentes são promovidos até atingirem uma posição que não são capazes de assumir ou então o simples facto de que as pessoas mais incompetentes são sistematicamente colocadas em posições onde têm menos probabilidades de causar danos: as de gestores. Pela minha experiência sou levado a acreditar que tal, sobretudo em algumas localizações a norte e outras a sul da linha do Equador, tal acontece por puro compadrio, crime, sede de poder e de bens e também por total ausência de cidadania. E em alguns casos, até por uma certa ingenuidade, ou falta de capacidade, muitas vezes compreensível de muitas organizações perceberem o que está realmente acontecer.

 

Concluindo, a Kakistocracia é um sério problema para toda a sociedade com múltiplos impactos negativos nas pessoas, nas empresas e na coisa pública. Só uma sociedade atenta, aberta e educada, sem fanatismos de qualquer espécie pode ter sucesso na conquista de um sistema de governo (seja ele qual for) mais justo, transparente e eficiente. O preço a pagar pode ser caro, muitos planos de vida podem ficar adiados, mas no final do dia podemos estar tranquilos que fizemos aquilo que tinha de ser feito para construir uma sociedade mais justa e equitativa. Não será a sociedade perfeita e também não somos Demiurgo, deixemo-nos de idealismos e utopias que acabam sempre com covas cheias de cadáveres. Não obstante, é pelo menos a demonstração que em tantos anos de Humanidade, também o nosso cérebro acompanhou a evolução na tecnologia, cabe-nos a nós colocarmos a mesma questão que Steinbeck colocou naquele inverno de descontentamento, ou seja, se devemos viver pelos nossos princípios, ou pelo contrário, devemos deixar-nos arrastar.

 

 

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Para ler: admirador confesso de Pirandello, seja na prosa, seja na dramaturgia, vejo como uma boa leitura "O falecido Mattia Pascal". Quantos já não pensaram em ter uma oportunidade como Mattia. E quantos não voltariam?

Para ouvir: Os Genesis são um colosso na música do século XX e termos a oportunidade de estar com o Phil também ajuda a uma maior paixão. Poucos dias decorrem que não estejam na playlist do dia ou a acompanhar o jantar. Por estes dias, por mero acaso, na 105.4, uma daquelas que nos deixa em sentido e que me fez recordar todo um álbum: "Throwing It All Away". Vão por mim, Jesus, He knows me and He knows I'm right.

Para usufruir: Não tenho por hábito trazer para aqui o que não experimentei, mas tenho a certeza que vai ser bom. O KULTURfest - Festival de Culturas de Expressão Alemã. Cinema, literatura e música de raízes germânicas. Com a chancela do Goethe-Institut e para usufruir de 31 de janeiro a 5 de fevereiro. Tenho cá para mim que a "Festa Babylon Berlin" e "Ingeborg Bachmann- Viagem ao Deserto" vão-me arrastar.

 

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