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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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03.11.20

O Portugal da pandemia é egoísta...


Robinson Kanes

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Bartolomé Esteban Murillo - "Duas crianças comendo Uvas e Melão" - Alte Pinakothek

Imagem: Robinson Kanes

 

 

Morremos sem conhecer uma fracção grande de nós. E isto apenas porque ela não teve oportunidade de se manifestar. Eis porque, por exemplo, nem todos sabem de si que são heróis, ou cobardes.

Vergílio Ferreira, in "Conta Corrente V"

 

 

Portugal tem a fama de ser um país solidário, sobretudo se o assunto estiver nos escaparates da comunicação social: não hesitamos em ser os primeiros a dar a mão a que iniciativa for. Desde que seja num país distante e/ou não afronte muito a nossa carteira e/ou saúde, por certo lá estaremos para ajudar... Ou não... E permitam-me dizer isto se também é permitido e até exaltado que se diga que Portugal é um país racista.

 

Durante Março e Setembro, e porque em cenário de pandemia não contam só os mortos, as Nações Unidas (NU) e o International Security and Development Centre (ISDC), sediado em Berlim, decidiram entrevistar 11 600 cidadãos de 137 países. As estatísticas e muitos estudos podem e devem ser refutados mas coloco especial ênfase nesta questão para memória futura: 137 países... O estudo intitulado "Life With Corona: Shared Global Sentiments and Stark Generational Divides", analisou alguns tópicos relacionados com a actual pandemia, nomeadamente até que ponto estaríamos dispostos a sacrificar-nos para acabar com a pandemia ou então como é que por ordem de prioridade, em termos de país, a vacina deveria ser distribuida. Guardei estes dois por terem resultados surpreendentes, ou não...

 

Em relação ao primeiro tópico, chegou-se à conclusão que velhos hábitos continuam bem enraizados. Os mais novos (dos 18 aos 25 anos) foram os primeiros a mostrar disponbilidade para poderem sacrificar parte dos seus rendimentos (pagar por) em prol do combate à pandemia (35%). Seguiu-se a faixa dos 26 aos 35 com (29%), a faixa dos 36 aos 45 com 26% e finalmente todos aqueles com mais de 45 anos de idade com 23%. Antes de chamarem os jovens de irresponsáveis, egoístas, egocêntricos e de se estarem a borrifar para o vírus, pensem duas vezes! É óbvio que com o aumento da idade, em muitos casos e países os rendimentos diminuem, mas... Foi muito interessante, sobretudo depois de ter visto que em Logroño, depois das manifestações e vandalismo da noite de Sábado, dia 31, muitos jovens terem saído para a rua para limparem as mesmas e repararem os estragos. É sempre mais fácil legitimar e dar eco a violência dos movimentos hype norte-americanos do que à responsabilidade e pacifismo do que se passa aqui ao lado. Os jovens não são somente os pequenos grupos da bebedeiras nocturnas e que andam, passo a expressão, a espatifar montras ou a seguirem as causas/manifestações da moda.

 

Quem chegou até aqui, por certo acima terá lido que há pouco destaquei a questão dos 137 países. Foram cidadãos de 137 países que responderam também à questão acerca de como é que uma vacina contra o SARS-CoV-2 deveria ser distribuída, para tornar a interpretação mais simples coloco aqui a pergunta na integra:

 

Imagine que uma organização no seu país era a primeira a desenvolver uma vacina contra o vírus. Seleccione a afirmação que melhor expressa a sua opinião: 

1. A vacina, antes de todo e qualquer outro, deve ser disponibilizada primeiro no meu país.

2. A vacina deve ser disponibilizada nos países do mundo com o maior número de infecções.

3. A vacina deve ser disponibilizada em todos os países ao mesmo tempo.

 

Foquemo-nos na resposta 1. Não é de estranhar que os Estados Unidos sejam o primeiro país da tabela, sem com isto tecer qualquer consideração vexatória em relação aos cidadãos desse país (que por sinal admiro em muitas situações): 46% dos americanos querem o exclusivo da vacina e só depois os outros devem ter acesso. Só 14% defende que deve ser disponibilizada nos países com mais infecções. Ou seja, 41% nem sequer dá prioridade aos países mais vulneráveis.

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Fonte: The Economist / Life with Corona Network

 

Contudo, a minha surpresa surgiu em relação o país que surge imediatamente abaixo dos Estados Unidos, Portugal! 42% dos portugueses que responderam, defenderam que a vacina deveria ser primeiramente distribuida em Portugal e só depois no resto do Mundo, e numa coisa temos proximidade com o Brasil, onde 41% deram a mesma resposta, à semelhança dos finlandeses. E pensar que na Alemanha, 69% dos seus habitantes não se importavam em partilhar a vacina, ou até a India com todos os seus problemas. Além disso, só 6% dos portugueses deu prioridade aos países mais infectados, embora esta tenha sido uma tendência praticamente generalizada... A velha história de que num mundo onde todos somos humanos e solidários, chegados ao fundo do poço, é muito mais complicado sair.

 

Poderão fazer o download do resumo do estudo aqui.

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