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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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10.02.21

O Portugal que somos


Sarin

PORTUGAL-DOS-PEQUENITOS.jpg

Conhecem, ou pelo menos já terão ouvido falar, do Portugal dos Pequenitos, obra de Cassiano Branco ao serviço de Bissaya Barreto.

Deparando-me com fotografias de três gerações em passeio pelo mesmíssimo parque pedagógico, apeteceu-me falar de aprendizagem neste Portugal dos pequeninos.

Antes que perguntem, sempre vos digo que não, não partilharei as minhas fotografias porque com gente na imagem (deixo-vos esta, recolhida no Diário as Beiras), e para que não leiam ao engano, aviso que não, desculpem, mas o postal nada tem a ver com as aulas à distância.

Aprendizagem da Política

Falamos da actualidade política sem conhecermos os manifestos dos partidos nem distinguirmos as ideologias que os caracterizam. Por outro lado, falamos do passado político sem nem aprofundarmos a História, herdeiros da velha tradição da oralidade - cantamos de ouvido. E assim nos radicamos. Assim nos radicalizamos. 

Mais, situamo-nos à Esquerda ou à Direita sem percebermos o que define uma e outra. Talvez por isso tantos se gostem de imaginar no Centro? Mas no centro de quê? Há, também, quem defenda já não existirem tais direcções políticas, uma ideia nada peregrina e na qual orgulhosamente insistem, apenas abrindo espaço à aniquilação das diferenças que constroem as democracias. Um desnorte.

E nisto seguimos fingindo público o debate que salta das redes para as notícias e das notícias para as redes, sem que nunca participemos verdadeiramente na vida política nacional. 

Aprendizagem de Economia

Percebemos que tudo gira em volta da economia. Mas quem, de entre nós, percebe o suficiente das entrelinhas com que nos apresentam obrigações e direitos? Ainda há pouco lia alguém dizendo que do lucro da empresa lhe saía o ordenado... Extrapolemos da micro para a macro-economia, e vemos que nos enleiam enquanto, exaltados, gritamos bem nossa a opinião que, mal-amanhada, repescámos a este e apanhámos a aquele. Sem pescarmos muito bem o peixe que, afinal, somos nós.

E tudo o que nos apresentam é lido no imediato, pensado no e para o agora, sem ponderação ou projecção no médio-prazo ou, mais longe, nas próximas gerações. Porque o hoje é-nos mais importante do que o depois de amanhã, que então logo se verá.

Aprendizagem da Cidadania

Muito se fala de cidadania, mas seria de utilidade revermos as bases da civilidade. Coisas simples, como...

... ser a filosofia feita não pelos filósofos mas pelo raciocínio. Assim todos articulemos o que pensamos para que os outros nos percebam, a nós e não a si mesmos.

... ter a comunicação o objectivo de passar mensagem, não o de ser espelho onde nos remiramos.

... terem as filas o objectivo de permitir passar primeiro quem primeiro aparecer. Nas filas de supermercados como nas filas de prioridades.

Acredito que a cidadania seria, depois, mais simples de aprender. Mais simples ainda de exercer.

Aprendizagem do Racismo

Alicerçamos a nossa identidade histórica nos Descobrimentos. Falamos de Portugal como se nascido esticado entre Trás-os-Montes e o Algarve, ilhas incluídas, a que depois acrescentámos colónias nas quatro partidas. Assim como se Portugal não tivesse demorado cerca de 100 anos a ganhar forma na Península, não precisasse de mais duzentos anos para arrebanhar Madeira e Açores, e de mais outro século antes de se esticar pelas praias de além-mar. No entretanto, omitimos o escravismo, omitimos o saque, omitimos a histórica perseguição a judeus, muçulmanos e ciganos.

E vemos no nosso passado um remanso de aculturação, a civilização que brandamente ofertámos à barbárie, aos selvagens. Enquanto não corrigirmos a aprendizagem da História que Salazar reescreveu, que nos fez engolir como se de brandos costumes forjados, continuaremos a não ver Racismo a não ser naquele amigo que, coitado, só não gosta de ciganos (ou de pretos) porque foi assaltado.

 

O Portugal dos Pequenitos foi, continua a ser, um projecto que encanta quem o visita, mas está desactualizado, seja pela falta de representação de arquitectura moderna, pela ausência de algumas regiões ou pelo enquadramento das ex-colónias. Na Fundação Bissaya Barreto têm consciência deste contra-senso num parque que se quer pedagógico, motivo pelo qual têm procedido a obras de expansão e requalificação do parque.

Se uma estrutura de pedra e cal, como o Portugal dos Pequenitos, se pode actualizar e crescer, porque não podemos nós, que feitos de sangue, suor e lágrimas?

Enquanto isto pensamos e corrigimos, ou nada disso, fiquem bem. Fiquem muito bem, com Rui Veloso mas sem medalhas poeirentas.

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