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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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12.01.21

O que o Capitólio, Hong Kong e os Media (não) têm em comum...


Robinson Kanes

 

lyon.jpgAntoine-Louis Barye - Tigre dévorant un jeune cerf (Pormenor) -Musée des Beaux-Arts de Lyon

Imagem: Robinson Kanes

 

Liberdade é o vosso grito preferido: mas eu já deixei de acreditar nos grandes acontecimentos desde que à sua volta haja demasiado barulho e demasiado fumo. E acredita-me como, tumulto infernal! Os maiores acontecimentos não são as horas mais barulhentas, mas os nossos instantes silenciosos. Não é em redor dos novos inventores do barulho, mas em redor dos inventores de novos valores que o mundo gravita, gravita impreterivelmente.

Friedrich Nietzsche, in "Assim Falava Zaratustra"

 

 

Finalmente consigo perceber como é que foi possível um 11 de Setembro. Depois de um apelo à revolta e de uma sessão do Congresso Norte-Americano tão importante, mesmo assim um sem número de arruaceiros conseguiu invadir aquele que deveria ser, pelo menos naquele dia, um dos edifícios mais bem guardados do Mundo. E aqueles que não encontraram nem na ficção tal paridade, tornando este acontecimento como o maior ataque de sempre à Democracia daquele país, sugiro que vejam mais cinema de acção e estudem um pouco mais de história americana. Isto de ir atrás de títulos de jornais... Por cá não me admira que também estes actos sejam vistos como terrorismo e golpe de estado, afinal a invasão de uma academia de futebol também foi considerada como tal...

 

No que a jornais e meios de comunicação diz respeito, talvez seja de grande importância perceber que também estes têm a sua responsabilidade. Há muito (se é que alguma vez tal aconteceu, embora actualmente seja de forma escarolada) que uma maioria da imprensa e respectivos jornalistas se esqueceram da sua função, que é transmitir a notícia. É nesse esquecer, na difusão de opiniões pouco transparentes e no fomentar de discursos de ódio de parte a parte que também se incitam situações como aquelas que vimos no Capitólio. Trump não é o único culpado, quem manipula também o é, bem como quem fomenta a polarização: normalmente aqueles cidadãos que dizem estar do lado dos bons a defender a liberdade e dar lições de moralidade - a deles, que a dos outros é relativa, não raras vezes adoptando a postura daqueles que criticam.

 

Não devemos esquecer que aqueles meios de comunicação que achincalharam Trump (muitas vezes em discurso encomendado e em campanha política) e o tentaram destruir mas também alimentado a sua importância, são os mesmos que na governação Obama patrocinaram muitas das suas insignificâncias e veicularam factos que sem qualquer valor foram transformados em assuntos de Estado... Lembremo-nos do birtherism que veio à minha memória a propósito da leitura do mais recente livro de Barack Obama. Trump é produto dos media, não esqueçamos isso... São esses mesmos media que, no dia seguinte à invasão do Capitólio, apontaram o foco do seu interesse para o "Conan do Arkansas"... Tema marcante, fosse por cá e já tínhamos um novo Futre... Por falar em Arkansas, ainda se lembram dos manifestantes pró-floydistas que invadiram o Capitólio daquele Estado no dia 30 de Maio de 2020? Alguém se lembra da famosa "Rodea el Congreso" em Madrid no ano de 2012 em pleno governo Rajoy? A mesma teve seguimento em 2013 no "Asedia el Congreso"... A situação foi mais grave e não me recordo de tanto moralismo a desfilar pelas ruas a apregoar um golpe de estado num país estrangeiro. Hoje opina-se não sobre o que nos interessa mas sobre aquilo que nos é servido e como cães pavlovianos digerimos... A diferença é que, ao contrário daqueles canídeos, nos julgamos extremamente inteligentes e com pontos ganhos a nosso favor, seja profissionalmente, seja junto de determinadas plataformas seja no nosso ego.

 

São também os media que pareceram patrocinar muitas acções violentas a propósito de alegados casos de racismo e não só, dando uma espécie de quase passadeira vermelha à violência... A questão é quando os ventos mudam e... Defendo a liberdade de imprensa, e muito, mas também defendo a verdade e a transparência bem como aqueles que a praticam. Por vezes fico é com a sensação que a liberdade para alguns tem limites - e bem, pois não tem de ser absoluto - mas para outros parece ser a anarquia total, sempre arrogando o direito a... E que ninguém se posicione a meio ou do outro lado, pisa imediatamente uma mina fatal como lhe chama Douglas Murray.

 

Façamos um paralelo... Não obstante, em alguns países, e Portugal não foi excepção, parece que os apologistas da liberdade se esqueceram do que se passa em Hong Kong, talvez porque nos últimos dias, o Governo chinês continua a produzir Democracia e a dar azo à liberdade e participação da oposição naquela região com mais 53 detenções de cidadãos alegadamente inocentes. A sede é tal que nem as crianças escapam. E todos sabemos que uma detenção na China não é propriamente o campo de férias de Alcoentre ou de Pinheiro da Cruz. Não vi nada nas gordas da nossa imprensa e dos elegantemente chamados opinion makers, não vá alguém ficar melindrado e lá vão uns negócios e outras tantas pequenas coisas por aí abaixo, inclusive negócios de familiares. Afinal, os atentados à Democracia só ocorrem nos Estados Unidos, sobretudo quando também servem para quase criminosamente fazer o cotejo com o CHEGA - até Marcelo Rebelo de Sousa é critico desse discurso... Também fiz a minha pesquisa, e não é que encontro uma certa tensão clubistica (o futebol) nesse ódio.

 

Esta é uma desonestidade e pequenez grosseira que atingiu o mais alto nível de desespero quando se equacionou a hipótese (e mais uma vez o paralelo) se fossem negros ou manifestantes do "Black Lives Matter". Enquanto os novos censores se deleitam a semear essas minas, e até recebem aplausos, Joe Biden já não o pode fazer... Um dos primeiros erros de Biden foi dizer que "no one can tell me, if it had been a group of Black Lives Matter protesting yesterday they wouldn't have been treated very very differently". Um presidente que ainda não o é mas já adopta um discurso de divisão e a embarcar no hype... Abrimos mais um precedente perigoso, pois tornamos suposições e ideologias como meio para moldar comportamentos e criminalizar uma actuação/atitude perfeitamente normal. E não, não usarei como escudo as vítimas mortais dos protestos, inclusive de uma veterana da Força Aérea, desarmada e atingida a tiro...

 

Também é estranho ver aqueles que querem eliminar partidos políticos reconhecidos legalmente serem os primeiros a falar em Democracia e Liberdade por outras paragens. Conseguimos estar numa coisa e no seu contrário na mesma frase e ninguém equaciona porque é que... Os que, fora dos Estados Unidos, agora atacam a invasão do Capitólio foram os mesmos que praticamente incitaram a uma revolta quando Trump ganhou eleições de forma democrática...

 

Deixo também uma palavra para mais uma perigosa demonstração de envolvimento político que as maiores redes sociais a Ocidente encetaram ao suspender (silenciar) Trump das suas plataformas. Agora, uma vasta maioria acha bem, todavia, a prática está lá e pode estar contra o "bem", se é que censurar alguém embarcando em pressões (e geração de revenue) não é já estar contra o "bem". Essas são as mesmas redes sociais que contribuíram para um aumento da perseguição a uma minoria muçulmana em Myanmar e não só. 

 

Finalmente e posto que já que estamos com tanto medo de ver a Democracia a afundar-se, tenho mais medo (até porque em certo país as leis e alguns daqueles que as executam) daqueles que colocam os olhos em determinados acontecimentos mas deixam que a sua própria Democracia seja corroída numa base diária. Tenho mais medo desses inertes do que propriamente Trump, que se arrisca a ser destituído ainda antes do tempo previsto para deixar o cargo. Por cá, olhar para esses factos é populismo, afinal, como já dizia o Contrato Social de Rousseau, "a verdade não conduz à riqueza e o povo (digno desse nome) não concede embaixadas, nem lugares, nem pensões.

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